Impulsionados pelo avanço da inteligência artificial, crescimento exponencial do armazenamento de dados e demanda cada vez maior por redes de alta velocidade, os data centers se tornaram a espinha dorsal da economia digital. Apesar disso, menos de 2% dessas estruturas estão instaladas em território brasileiro, enquanto cerca de 60% da infraestrutura utilizada no país depende de servidores localizados no exterior.
Ao mesmo tempo, a digitalização avança rapidamente. Segundo pesquisa da Locaweb divulgada no ano passado, ao menos 86% das empresas brasileiras já utilizam soluções em nuvem em suas rotinas operacionais. Para fazer frente a esse cenário e atrair investimentos no Brasil, o governo federal chegou a lançar uma medida provisória (MP) que cria o Redata, programa que estabelece suspensão de tributos por cinco anos para a compra de equipamentos que serão utilizados na instalação das unidades. Como contrapartida, o texto previa, por exemplo, o uso de energia de fonte limpa, como as hidrelétricas, ou renovável.
Porém, a MP perdeu a validade por falta de votação da proposta no Senado e, como alternativa, o líder do governo na Câmara, deputado federal José Guimarães (PT-CE), apresentou um projeto de lei para substituir a medida. O texto foi aprovado no fim de fevereiro e segue em discussão entre os senadores. "Se o país não acompanhar essa rápida evolução desde o início, será, mais uma vez, ultrapassado por outras nações em termos de infraestrutura de produção", justificou o parlamentar à época.
O que é um data center?
O professor e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia: Física Nuclear e Aplicações (INCT-FNA) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jesus Lubian Rios, explica à Sputnik Brasil que os data centers contam com uma rede de computadores que, quanto maior o desempenho, maior o aquecimento e gasto de energia. Com isso, além de fornecer eletricidade de forma contínua, ainda é necessário fazer o resfriamento do ambiente.
"Então, para fazer esses equipamentos operarem, é necessário ter uma fonte de energia capaz de mantê-los funcionando 24 horas por dia. Ou seja, não há como parar em nenhum momento, porque, às vezes, estão sendo realizados cálculos científicos que demoram meses para gerar resultados. Se você coloca, por exemplo, uma base de dados para acesso de inteligência artificial, ela precisa estar disponível o tempo todo. Caso contrário, em vez de criar uma solução, você cria um gargalo que atrapalha o funcionamento da pesquisa de quem estiver trabalhando nela", enfatiza.
Além de contínuo, o fornecimento de energia para as unidades deve ser estável e qualquer instabilidade pode gerar danos aos equipamentos, que muitas vezes possuem alto custo, acrescenta Rios.
"Agora, por outro lado, se não tivermos esses equipamentos, vamos depender do que outros países quiserem nos fornecer. Quando os serviços de nuvem surgiram, eram bastante generosos e baratos. A cada dia, porém, estão se convertendo em monopólios cada vez mais caros. Se o Brasil não investir nisso, realmente ficará para trás do ponto de vista científico", diz.
Brasil tem potencial energético que permita receber novos data centers?
Com 88% da energia elétrica gerada através de fontes consideradas renováveis, conforme dados do Ministério de Minas e Energia, o Brasil tem uma capacidade instalada para gerar 200 GW (gigawatts) de eletricidade, quase o dobro do consumo nacional, embora ainda existam gargalos nas linhas de transmissão. Isso acontece, principalmente, devido à expansão dos parques solares e eólicos nos últimos anos.
E é nisso que o país pode sair em vantagem em relação a outros países do mundo e que o projeto de lei quer aproveitar: em meio às discussões sobre as mudanças climáticas e necessidade de reduzir o uso dos combustíveis fósseis, o Brasil pode oferecer seus recursos energéticos com a contrapartida de investimentos e geração de riqueza no território nacional pelas empresas de data centers.
"No Brasil há sol durante a maior parte do ano, em praticamente todo o território. É possível instalar células fotoelétricas em muitos lugares [...]. O Brasil também possui regiões com ventos intensos, o que favorece a geração de energia eólica. Temos ainda uma costa extensa, que poderia permitir o aproveitamento das marés. O país conta com grandes rios, embora a geração hidrelétrica envolva consequências importantes, como a construção de grandes represas", exemplifica o professor da UFF.
Apesar disso, o texto deixou de fora um importante componente conhecido por gerar energia capaz de sustentar altas demandas sem interrupções: a nuclear. "Ela não é renovável, já que o combustível nuclear é finito, assim como o petróleo. No entanto, com pequenas quantidades de combustível é possível produzir grandes volumes de energia. Quando ocorrem acidentes nucleares, em geral estão associados a falhas humanas, e não necessariamente a problemas nos sistemas de segurança das usinas", pontua, ao falar sobre eventuais questionamentos que são comuns na sociedade sobre a segurança do setor.
Uma solução tecnológica recente na área nuclear, inclusive, poderia ser impulsionada pela proposta do Redata: os chamados pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês), que ainda não chegaram ao Brasil. Essa tecnologia utiliza pequenos reatores com capacidade de até 300 MW (megawatts), volume suficiente inclusive para abastecer cidades de médio porte ou grandes indústrias, operados com alto grau de automação e sistemas avançados de segurança.
"Esses reatores poderiam ser dedicados exclusivamente a esse uso ou destinar uma parcela significativa da energia produzida para abastecê-los. A principal vantagem da energia nuclear, no contexto que estamos discutindo, é a estabilidade. Trata-se de uma fonte constante, sem oscilações relevantes e não sujeita às variações frequentes da rede elétrica convencional. Sabemos que a rede elétrica brasileira apresenta instabilidades, com oscilações que, muitas vezes, acabam danificando equipamentos. No caso de data centers, isso é especialmente grave", defende o especialista.
Outra vantagem, segundo Rios, é que a instalação desses geradores próximos aos datacenters ainda ajudaria a reduzir riscos de sobrecarga na rede de transmissão.
"Vale lembrar que um data center não precisa estar em um ponto específico do território. Desde que haja boa conectividade de Internet, ele pode ser instalado em diferentes regiões. Isso amplia as possibilidades de planejamento energético integrado à infraestrutura digital", complementa.
Quanto custa um datacenter?
O vice-presidente da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Luis Tossi, classifica o projeto que cria o Redata como competitivo e eficaz. Segundo ele, para instalar um data center com capacidade de 100 MW, o custo para construir somente a estrutura é de cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões), enquanto equipamentos e servidores exigem um investimento de até US$ 7 bilhões (R$ 36,8 bilhões).
"É uma proporção muito relevante. Quando se aplica uma redução tributária [prevista no projeto de lei] no custo de aquisição desses equipamentos, o impacto é expressivo. Para facilitar a conta, um investimento de US$ 5 bilhões [R$ 26,32] sem o benefício poderia cair para cerca de US$ 3,5 bilhões [R$ 18,43] com o incentivo. É um número significativo. Por isso, o mercado ficou aguardando a aprovação para decidir se investiria no Brasil ou em outros países", argumenta à Sputnik Brasil.
Com isso, os investimentos do setor praticamente cessaram nos últimos meses e, para agravar o panorama, Tossi lembra que países da América Latina como Argentina, Colômbia e Chile já possuem programas que concedem isenções tributárias.
"Todos esses países adotam mecanismos de fomento porque se trata de uma indústria que mobiliza todo um ecossistema de alta tecnologia. Ela atrai desenvolvedores de sistemas e de software, impulsiona o desenvolvimento de inteligência artificial, movimenta a cadeia de engenharia e demanda mão de obra altamente qualificada", afirma.
Outro benefício que a aprovação da proposta traria, segundo o dirigente da ABDC, é justamente reativar o mercado brasileiro de energia renovável, "que hoje está parado devido ao excesso de oferta. Atrair grandes investimentos em data centers significa trazer grandes consumidores capazes de voltar a dinamizar esse setor, atualmente estagnado".
Porém, Tossi afirma que o país já perdeu um tempo crucial por conta da burocracia legislativa: como o Senado deixou de votar a MP, foi necessário iniciar a tramitação do projeto de lei.
"Costumo dar o exemplo de quando o governo anuncia que vai reduzir o IPI dos carros. O que acontece antes de a medida entrar em vigor? Ninguém compra carro, porque todo mundo espera a redução do imposto para pagar menos [...]. Enquanto isso, países como a Argentina já aplicam incentivos semelhantes. Se o custo de energia elétrica for equivalente entre Brasil e Argentina, por exemplo, o investidor tende a escolher onde a política já está consolidada. Dependendo da localização do data center na Argentina, é possível atender o Sul e o Sudeste do Brasil com a latência exigida pelos serviços de nuvem", comenta.
Segundo Tossi, um exemplo emblemático é a implantação, no ano passado, de um data center da OpenAI, uma das principais desenvolvedoras de inteligência artificial do mundo, na Patagônia argentina. O projeto prevê capacidade instalada de 500 megawatts e foi impulsionado por um ambiente regulatório mais favorável aos investimentos no setor. "Caso o programa brasileiro já estivesse aprovado, talvez esse investimento pudesse ter vindo para cá. Em termos de construção civil, um projeto dessa magnitude representa bilhões de dólares", afirma.
Entidade alerta para impactos ambientais
Já o coordenador de assimetrias e poder no DataPrivacyBR, Pedro Saliba, critica os chamados "pontos cegos" do projeto em discussão no Congresso, como a não definição de critérios de sustentabilidade e, consequentemente, a falta de instrumentos para de fato acompanhar o impacto da operação dos data centers.
"Isso afeta comunidades locais, fauna, flora, além de cientistas e terceiro setor. Mesmo o governo vai ser prejudicado: como avaliar o cumprimento de requisitos se não há nenhuma documentação a respeito? O mercado também perde: investimentos poderão ser feitos baseados em marketing, não fatos".
Por fim, Saliba pontua que essa infraestrutura pode causar danos ambientais desde a cadeia de suprimentos necessários para operar até o consumo de energia elétrica e água.
"Ao serem instalados, esses empreendimentos podem competir com o suprimento de água e eletricidade de cidades próximas, com risco de desabastecimento e custos maiores para moradores. Assim, a legislação precisa garantir que haja transparência social e ambiental sobre os danos e recursos utilizados, especialmente diante de um incentivo fiscal. Do contrário, a responsabilização por danos será de difícil qualificação", finaliza.