Brasil sob pressão: tropas dos EUA no Paraguai acendem risco de invasão norte-americana do país?
Sob a justificativa de enfrentar o narcotráfico na região, o Congresso do Paraguai aprovou por quase unanimidade a presença de tropas militares dos Estados Unidos no território do país sul-americano. Enquanto isso, Washington avança com um projeto para classificar facções criminosas do Brasil como terroristas. As medidas apontam para um cerco?
SputnikPor 53 votos favoráveis e apenas 8 contrários, a Câmara dos Deputados do Paraguai deu aval, na última semana, ao acordo fechado entre os presidentes paraguaio, Santiago Peña, e norte-americano, Donald Trump, em dezembro do ano passado, que autoriza o uso do território por militares dos EUA. Com isso, as forças de Washington podem transitar livremente na região, inclusive com aeronaves e veículos militares, sem qualquer tipo de abordagem. Aliado a isso, o país vizinho também firmou uma parceria para instalação de um centro antiterrorista operado pela inteligência estadunidense, o FBI.
No caso brasileiro, o país voltou a ser alvo de ameaças pelo governo Trump de que facções criminosas, como o
Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), passariam a ser consideradas pelos Estados Unidos como organizações terroristas, o que autorizaria, conforme a legislação norte-americana, operações militares em território brasileiro sob a justificativa de
combater ameaças à segurança de Washington.
Diante de uma
fronteira de quase 1.370 quilômetros com o país vizinho, a presença militar norte-americana na região, combinada com a possível nova classificação dos grupos criminosos brasileiros, acendeu mais uma vez o alerta em Brasília. Nos bastidores, a avaliação no Palácio do Planalto é que a questão deve ser conduzida via Itamaraty. Apesar disso, especialistas analisam ao podcast
Mundioka, da Sputnik Brasil
, que os riscos à soberania nacional são reais.
O professor de geografia e relações internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG) Camilo Carneiro lembra que a autorização também permite a entrada dos chamados contratistas no Paraguai — o que, segundo ele, se refere a mercenários de guerra contratados por empresas de segurança. "
Essas pessoas não estarão sob a jurisdição e as leis do Paraguai, respondendo apenas aos Estados Unidos e podendo entrar no país com material militar que não passa por inspeção, além de
circular livremente. Isso para o Brasil é realmente algo preocupante", avalia.
Como exemplo, o especialista cita a atuação de mercenários norte-americanos ao longo da guerra no Iraque iniciada em 2003, ocasião em que estiveram envolvidos em diversos crimes no país do Oriente Médio. "Isso foi mostrado em um livro, que também relatou como eles não eram punidos ao retornarem. É algo que também pode se repetir no Paraguai, que é um país estratégico para o Brasil", acrescenta.
EUA querem pressionar o presidente Lula?
Para o especialista, um dos principais objetivos do governo Trump com o acordo é também pressionar o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chegou a travar embates com o norte-americano, apesar de recente aproximação, por defender a soberania do país frente às políticas imperialistas de Washington.
"Os Estados Unidos já estão mostrando que querem que a América Latina volte a ser o seu quintal. Mas, na verdade, o interesse deles é nas terras raras brasileiras, já que temos a segunda maior reserva do mundo. Eles querem tomar o espaço que a China ocupou [nas relações comerciais e diplomáticas com a região] na última década, tornando-se o principal parceiro comercial da maioria dos países da América do Sul", pontua.
Diante disso, a Casa Branca coloca em prática a sua histórica cartilha de imposição, e, entre as formas de pressão, está a militar. "Colocar tropas nas fronteiras com o Brasil é uma forma disso, de fazer com que o governo brasileiro mude a posição sobre assuntos de interesse dos norte-americanos", afirma. Conforme Carneiro, caso nenhum desses métodos funcione, uma última etapa seria o financiamento por Washington de um golpe de Estado sob a alegação, por exemplo, de que o presidente seja patrocinador do "narcotráfico".
"Temos visto recentemente as ameaças de Trump a governos que não são alinhados. É o caso do México, da Colômbia, e, na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado sob a alegação de que era líder de um cartel de drogas chamado Los Soles. Posteriormente, o próprio governo norte-americano disse que não era bem assim e que esse grupo tratava-se apenas de uma rede de corrupção, não tendo os parâmetros de outros grupos. São desculpas usadas para ter acesso aos recursos em que eles têm interesse, e, no caso da Venezuela, foi o petróleo", argumenta.
Trump e o cerco à América do Sul
Em outubro do ano passado, o presidente da Argentina, Javier Milei, autorizou por decreto a entrada de militares norte-americanos no território do país, para "exercícios conjuntos". Na sequência, mais uma vez sem qualquer
autorização legislativa, Milei ofereceu a Washington o uso do porto de Ushuaia, acendendo a suspeita de uma tentativa dos Estados Unidos de viabilizar o plano para
instalar uma base naval na região.
E todo esse avanço militar estadunidense na região é favorecido, segundo o professor da UFG, pela maior presença de presidentes de direita nos países sul-americanos, como é o caso de Argentina, Chile, Bolívia, Equador e Paraguai. Além disso, o especialista lembra que todos estiveram presentes no encontro com Trump no início do mês, ocasião em que 12 líderes assinaram um acordo para o Escudo das Américas, uma espécie de
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) do continente.
"E o que está do outro lado? Temos um bloco formado pelas maiores economias da América Latina, hoje Brasil, México e Colômbia. Isso não é pouca coisa, mas temos eleições chegando, e nitidamente os Estados Unidos vão apoiar grupos contrários ao Lula, ao Gustavo Petro [presidente da Colômbia] e também a Claudia Sheinbaum [presidente do México]", recorda.
Porém, o especialista pontua que boa parte da região tem na China seu principal parceiro econômico, e a aliança militar criada por Trump com esses países coloca justamente Pequim como uma ameaça. "Isso é uma contradição", afirma, ao questionar possíveis impactos no setor empresarial dessas nações.
'Maior ameaça mundial'
Previsões internacionais apontam que a China deve ultrapassar os Estados Unidos e se tornar a maior economia no mundo em 2028, cinco anos antes do que estava previsto inicialmente.
Na paridade de poder de compra, que compara o poder aquisitivo real das diferentes moedas,
Pequim já superou Washington há quase dez anos.
Com a perda da hegemonia econômica, o que sobrou para o país foi a liderança do poder militar, avalia o especialista.
"Eles já se percebem naquela etapa de decadência do império, em um momento em que eles ainda são a principal economia do planeta, mas serão ultrapassados em breve pela China. O que sobrou foi o poder militar, e em um país que tem um líder como o Trump, que não respeita o direito internacional […]. Estamos testemunhando hoje Washington se tornar a principal ameaça à segurança de qualquer nação do planeta, mesmo os seus aliados."
Investimentos em troca da soberania
Já o doutor em história pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) Leandro Baller destaca que, como contrapartida à autorização de uso do território, os Estados Unidos prometeram investir US$ 11 milhões (R$ 57,1 milhões), em cinco anos, nas forças militares locais. Conforme o especialista, esse é um volume alto para os padrões paraguaios e pode representar um ganho na transferência de tecnologia e novos armamentos, ao mesmo tempo em que o país abre mão da própria soberania.
"As pessoas ficam à mercê dessas forças. Nós não podemos perder de vista, por exemplo, que tem uma megaconstrução acontecendo, que corta os nossos países — o Brasil, o Chile e o Paraguai —, que é a rota bioceânica. Então, a rota bioceânica tem uma importância geopolítica bem interessante também. Talvez a gente não consiga dizer exatamente o que o Paraguai realmente ganha, porque o Paraguai já fez acordos dessa natureza tempos atrás, mas não com esse poderio militar", finaliza.
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