O analista de diplomacia geopolítica e econômica Robinder Sachdev, em entrevista à Sputnik, avaliou que uma nova onda de vulnerabilidade se espalha pelo Sul Global. Para ele, os países mais expostos são aqueles que combinam "recursos naturais valiosos, instituições frágeis e divisões internas", especialmente quando governados por administrações de esquerda.
Na América do Sul, o risco decorre menos da abundância de recursos e mais da geografia estratégica e da disputa ideológica. "Os Estados Unidos declararam que o Hemisfério Ocidental é seu quintal", afirma Sachdev, o que colocaria governos progressistas da região sob vigilância permanente.
A África, segundo ele, enfrenta um cenário ainda mais delicado. A "extraordinária riqueza mineral e energética do continente", somada à fragilidade institucional e à rivalidade entre potências, cria condições semelhantes às que precederam a intervenção na Líbia.
"As condições estruturais que tornaram a Líbia vulnerável ainda existem em diversas regiões", disse.
Para Sachdev, a soberania tornou-se mais complexa na "Era Nova-Muco", conceito que descreve a construção de uma nova matriz global interdependente. Nesse ambiente, o que importa não é apenas poder interno, mas o "Poder Nodal Abrangente", ou seja, a capacidade de diversificar alianças e manter margem de manobra estratégica.
Essa lógica, afirma, obriga o Sul Global a construir alternativas financeiras, militares e tecnológicas. A dependência excessiva de um único bloco, fornecedor ou sistema expõe países à coerção. "Na Era Nova-Muco, a dependência excessiva gera vulnerabilidade", alertou.
Exemplos de diversificação já estão em curso. De acordo com o analista, a Índia amplia fornecedores de energia e armamentos, enquanto constrói infraestrutura tecnológica própria.
A própria União Europeia (UE) e países do golfo aceleraram estratégias semelhantes após choques recentes, buscando reduzir riscos e ampliar autonomia, especialmente diante dos EUA.
Já os Estados Unidos, paradoxalmente, também adotam uma estratégia agressiva de diversificação de cadeias de suprimentos, ao mesmo tempo em que usam sanções e restrições tecnológicas para limitar o poder nodal de rivais. Para Sachdev, isso demonstra que até grandes potências se movem para reforçar posições na nova matriz global, mesmo que com nuances diferentes quanto à aplicação estratégica desta diversificação.
A Rússia, por sua vez, tenta redesenhar seu posicionamento geopolítico.
"A Rússia também está se diversificando institucionalmente, investindo mais capital político no BRICS, na Organização para Cooperação de Xangai [OCX], na União Econômica Eurasiática [UEEA], nos formatos Rússia-África e em parcerias estratégicas bilaterais fora do ecossistema institucional ocidental", afirma o especialista.
De acordo com Sachdev, enquanto reduz dependências euro-atlânticas, Moscou fortalece laços com China, Índia e África, e investe em plataformas tecnológicas e financeiras alternativas. Trata-se de um esforço para ampliar seu poder nodal e resistir à pressão ocidental, reposicionando-se na arquitetura emergente.
No centro dessa disputa, Sachdev conclui ao deixar um aviso direto aos países do Sul Global: "Quem não está à mesa pode acabar no cardápio."