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'Mentira humanitária': ação da OTAN na Líbia visou ouro, petróleo e fim de moeda única, diz analista

© AP Photo / Yousef MuradForças leais e Fathi Bashagha participam de demonstração militar na Líbia, em agosto de 2022
Forças leais e Fathi Bashagha participam de demonstração militar na Líbia, em agosto de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 18.03.2026
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Após completar 15 anos da intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia, a narrativa de que a operação visava proteger civis não se concretiza e a ação foi coordenada com motivações econômicas e geopolíticas. É o que defendeu à Sputnik o jurista Mohammad Mahmoud Mehran.

"A guerra da OTAN contra a Líbia é um crime organizado de agressão, com o objetivo de saquear recursos e destruir o dinar de ouro", afirmou o especialista.

Segundo Mehran — também membro de associações jurídicas nos Estados Unidos, Europa e Egito —, o tempo mostrou a "evidente falsidade das alegações ocidentais de proteção da população civil". O jurista sustenta que "a guerra foi uma agressão organizada, destinada a destruir um Estado africano exemplar que desafiava a hegemonia financeira do Ocidente por meio do projeto do dinar de ouro".
Na avaliação do especialista, os efeitos da intervenção foram devastadores. Após a queda de Muammar Kadhafi em 2011, o país passou a conviver com intensas guerras civis. "A OTAN transformou a Líbia de um país com o mais alto padrão de vida da África em um Estado falido, mergulhado no caos e em conflitos civis", disse, classificando a operação como "uma violação grave da Carta da Organização das Nações Unidas [ONU] e um precedente perigoso no direito internacional".
Antes de 2011, argumenta, a Líbia apresentava indicadores sociais elevados: o país ocupava a 53ª posição no ranking global e liderava o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na África. "Era um Estado exemplar em todos os indicadores, e não uma ditadura sombria como retratada pela mídia ocidental", afirmou.
Entre os avanços citados estão taxa de alfabetização de 87%, educação e saúde gratuitas, bolsas no exterior, eletricidade subsidiada, crédito sem juros e combustível a US$ 0,14 (R$ 0,74) por litro, "mais barata do que água". O especialista também destacou que o "Grande Rio Artificial, o maior projeto de irrigação do mundo, foi deliberadamente atacado pela OTAN com o objetivo de destruir a infraestrutura hídrica".
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Moeda única africana e reação do Ocidente

Para Mehran, os interesses por trás da intervenção eram claros. "Os verdadeiros motivos da intervenção foram exclusivamente econômicos e geopolíticos", afirmou. O projeto de Muammar Kadhafi de criar uma moeda africana unificada, o dinar de ouro lastreado em 143 toneladas do metal, "ameaçava o domínio do dólar e do franco africano".

"Esse projeto poderia libertar a África da dependência financeira do Ocidente", disse, acrescentando que "vazamentos de e-mails da ex-secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton confirmaram: o dinar de ouro foi a principal razão da guerra, e não a proteção de civis".

O petróleo também teria sido um fator central, e o especialista citou o interesse de empresas como TotalEnergies e BP após Kadhafi "impor condições mais rígidas em favor do Estado líbio". Segundo ele, "a nacionalização dos recursos gerou insatisfação em corporações transnacionais que buscavam controle total".
Além disso, a intervenção teria buscado reconfigurar o equilíbrio geopolítico na região. "A guerra também teve como objetivo afastar a influência da Rússia e da China do mercado líbio em benefício de empresas norte-americanas e europeias", afirmou.
Mehran ainda apontou o papel do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy que, segundo ele, "promoveu a intervenção militar para encobrir o financiamento de sua campanha de 2007 por Kadhafi". Para o especialista, "a condenação judicial de Sarkozy na França, em 2025, confirma que a guerra foi uma conspiração pessoal e financeira, não uma defesa dos direitos humanos", o que "evidencia profunda corrupção nos mecanismos de decisão do Ocidente e o uso de guerras para fins pessoais".
No campo jurídico, o analista afirma que houve desvio de mandato internacional. "A Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU previa a proteção de civis, e não a mudança de regime", disse. Ainda assim, segundo ele, "a OTAN ultrapassou gravemente seu mandato, transformando a operação em uma guerra em larga escala para derrubar o governo líbio". Segundo Mehran, Rússia e China se opuseram à interpretação adotada, mas tiveram suas posições ignoradas.
Forças leais a Abdul Hamid Dabaib, um dos dois primeiros-ministros rivais da Líbia, protegem as ruas da capital, Trípoli, na terça-feira, 17 de maio de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 05.12.2025
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Líbia e a instabilidade contínua

Depois de 15 anos, o cenário no país segue instável, e a Líbia enfrenta "duas guerras civis, três governos concorrentes, milícias armadas, tráfico de pessoas e colapso dos serviços públicos", segundo o especialista.
“Essa é a democracia que a OTAN trouxe no lugar de um Estado antes considerado exemplar. O povo líbio paga há 15 anos por essa conspiração ocidental, enquanto a OTAN não foi responsabilizada por suas ações", pontuou.
Na conclusão, Mehran afirmou que "a Líbia se tornou uma dura lição para o mundo", defendendo que países em desenvolvimento "não devem confiar em declarações ocidentais sobre a defesa dos direitos humanos" e alertando que "guerras humanitárias servem como cobertura para um novo tipo de saque colonial".
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