"Não havia previsão naquele momento de envio de tropas, até porque, se a gente lembrar, a gente está falando de governo [do então presidente dos EUA Barack] Obama, eleito com a promessa de retirada, na verdade, de tropas dos Estados Unidos do Oriente Médio, do Norte da África, principalmente do Iraque e do Afeganistão."
"Esse tipo de acusação de uma hipocrisia ocidental vai ser usada, por exemplo, no caso da Síria, para bloquear ações dos EUA no Conselho de Segurança. A China vai usar em determinado momento também, não para justificar a atuação, mas como a materialização de uma certa hipocrisia do Ocidente. Países do BRICS, como o Brasil, por exemplo, vão retomar o caso da Líbia como o que seria o exemplo máximo de uma intervenção militar que só pensa em fins muito imediatos e não leva em consideração aspectos macros."
"Desde então, o Conselho de Segurança nunca mais conseguiu aprovar uma resolução de uso da força em nenhum momento. Afetou a credibilidade deles. A Rússia e a China entenderam que foram enganadas por terem apoiado essa resolução, ou por não terem vetado essa resolução. Então, desde então, eles têm vetado as resoluções, porque eles não confiam mais que as resoluções vão ser respeitadas."
"O fato também de a Líbia ser um país que está no Mediterrâneo e que faz fronteira marítima com a Europa acabou fazendo com que os países europeus se preocupassem e se envolvessem com esse pretexto. Mas muitos deles tinham já dificuldades de relacionamento com Kadhafi. Já viam nessa situação uma oportunidade de mudança de regime para um regime mais palatável aos seus interesses, então acabou sendo uma grande confluência de fatores."
O que restou para a Líbia?
"Você tem tráfico de armas porque muitas dessas milícias foram pesadamente armadas. Então começa a ter tráfico de armas para os países vizinhos, que também são países conflagrados. Tem uma desestabilização regional, tem tráfico de seres humanos, tráfico de pessoas mais especificamente. Muitas dessas barcas que levavam migrantes para a Europa eram também um negócio ilegal, altamente lucrativo e com condições péssimas para as pessoas que tentavam fazer essa travessia."
"O caos da Líbia, provocado após a intervenção, mina, de certa forma, um debate amplo no Oriente Médio, ou ajuda a minar, pelo menos, que alternativas são possíveis. Debates sobre transição, seja na Síria, seja no Egito, muitas vezes vão ser atravessados pelo argumento do que aconteceu com a Líbia. É isso que a gente quer para o nosso país? Esse caos que a gente quer trazer?"
"Alguns países […] padecem do problema de achar que eles conseguem entender, de uma forma rasa, de uma forma breve, as complexidades de um outro país. Eles não conseguem fazer essa análise de cálculo direito. E aí estruturalmente falham, porque eles partem quase de uma situação de arrogância e analisam errado com base nisso. Ou, então, eles acabam cedendo a pressões de setores ou de outros grupos."