"A Casa Branca tenta blindar a América Latina, região que entende como de sua influência, com ações como o Escudo das Américas para afastar a China. Isso demonstra uma perda de influência norte-americana com seu unilateralismo para uma ascensão do modelo chinês mais abrangente pautado em investimentos de ganhos mútuos', disse.
"Há um reconhecimento bipartidário nos EUA, seja por parte dos 'pombinhos' democratas ou dos 'falcões' republicanos ou do MAGA, a nova direita estadunidense. Embora o país esteja completamente dividido, eles têm um sentimento no limite da sinofobia, que é a contenção da China. Isso vem se intensificando desde o primeiro governo Trump, que seguiu com Biden e segue até o atual momento", explica.
Cooperação sino-russa faz Washington recuar
"A parceria entre Rússia e China é um amortecedor sistêmico, pois altera a correlação de forças ao fundir o maior parque industrial do mundo a um vasto arsenal de recursos naturais e energia. Essa aliança é uma resposta ao cerco dos EUA e fortalece o BRICS, a Organização para Cooperação de Xangai em um bloco euroasiático mais autossuficiente que surge como alternativa ao G7 e a instituições de Bretton Woods", comenta.
"O cenário previa que o foco da economia fosse a Ásia. Bush percebe, mas os EUA estavam nas 'guerras eternas' no Oriente Médio e com o Obama, o país seguia preso no Afeganistão, Iraque e depois na Primavera Árabe. Após a revolução colorida da Euromaidan na Ucrânia e as sanções do Ocidente contra Moscou, em 2014, e Putin faz o pivô para a Ásia, que Obama desejava, e direciona a economia para China e Índia", pontua.
Transição sistêmica e origens da tensão geopolítica
"A pressão agressiva exercida pelos EUA pode acelerar uma cisão do sistema internacional. Vemos uma transição de uma ordem unipolar com regras estadunidenses para um mundo multipolar. Pequim, nesse âmbito, atua com o modelo de investimento e cooperação, enquanto Washington segue usando a imposição da força e tenta controlar rotas e territórios, e isso tende a gerar um caos sistêmico", enfatiza.
"No meu livro, analiso essa relação desde George Washington até a volta de Trump. Houve vários períodos, inclusive com uma política de portas abertas para a China que englobava a Ásia como um todo, que é quebrada após a Revolução Chinesa, em 1949. Nos anos 70, houve uma reaproximação estratégica e a política de contenção fica mais evidente a partir do século XXI", conclui.