A missão que levou o primeiro astronauta brasileiro ao espaço completa 20 anos neste domingo (25). O protagonista desse marco histórico para o país foi Marcos Pontes, atualmente senador (PL-SP). Em 29 de março de 2006, ele chegou à Estação Espacial Internacional (EEI) viajando na nave russa Soyuz TMA-8, partindo do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, acompanhado de um astronauta estadunidense e um cosmonauta russo.
Em entrevista ao podcast Em Órbita, da Sputnik Brasil, Marcos Pontes traça um panorama da missão e da experiência obtida durante a viagem.
Pontes conta que, durante a decolagem, apontou para a bandeira do Brasil no braço do uniforme usando os dois dedos, sinalizando que levava o país consigo, e que a ascensão de um foguete é bastante violenta, com uma vibração muito forte na estrutura. A espaçonave vai do zero a 25 mil quilômetros de velocidade por hora, chegando a 200 mil quilômetros de altitude em apenas nove minutos.
"Essa vibração, você pode imaginar, sabe uma britadeira daquelas de quebrar asfalto? Então, [é como] pegar uma daquelas e encostar no seu capacete, é mais ou menos aquela sensação", relata o astronauta.
Ele diz que essa sensação dura pouco, cerca de um minuto e meio. Nesse período, é necessário estar de boca fechada, sem a língua entre os dentes, já que a vibração chega a quebrar o esmalte dos dentes. Ao chegar ao espaço, tudo começa a flutuar.
"Aí eu tirei as luvas, elas começaram a flutuar assim na minha frente. [...] você via aquelas luvas flutuando, eu sonhei com aquilo tantas vezes. De repente, eu estava vendo ali, estava vivendo aquele momento. Então, para mim, aquele momento foi muito interessante."
Ele conta que soltar os cintos de segurança e olhar pela janela da nave foi um "momento inesquecível", no qual viu a Terra do espaço pela primeira vez, um "planeta azul maravilhoso".
"É um momento que você nunca esquece daquilo lá. E eu lembrei da minha mãe, naquele momento, Dona Zuleika, que ela falava assim, lá no meu tempo de garoto, adolescente em Bauru, querendo ser piloto, meus amigos falando que era impossível, [...] ela me falou assim: 'Olha, você pode ser tudo o que você quiser na vida, desde que você estude, trabalhe, persista e sempre faça mais do que se espera de você'. E ela estava certa."
Pontes explica que o corpo precisa se acostumar com o ambiente de microgravidade, pois não entende que está no espaço e precisa se habituar à nova situação. Por isso, há uma redistribuição de líquidos do sistema circulatório.
"Como resultado, você fica com uma pressão muito alta na cabeça, coriza, dor de cabeça, parece que o coração está batendo no pescoço, sabe? E baixa a pressão nas pernas. Então, é bem estranho, demora uns três dias para o corpo se adaptar."
A missão foi resultado de uma parceria com a Rússia, que incluiu o uso de satélites brasileiros, e Pontes foi responsável por oito experimentos científicos liderados pelo Brasil, entre eles, um de astrobiologia, voltado para a produção de alimentos no espaço, feito com sementes de feijão. Ele destaca que os experimentos brasileiros foram aplaudidos no mundo todo e hoje estudos nessa área têm importância gigantesca.
"Porque se a gente quer ficar na Lua, se a gente quer ficar em Marte, sobreviver em Marte, não dá para você levar comida, [...] então esses experimentos, atualmente, têm um interesse gigantesco, tem muitas empresas trabalhando com isso", diz Pontes.
Embaixador mundial da organização WorldSkills International, entidade filantrópica voltada à educação profissionalizante, Pontes criou em 2010 a Fundação Astronauta Marcos Pontes, dedicada à promoção do setor espacial, educação, ciência, tecnologia e sustentabilidade, e atualmente preside no Senado a Frente Parlamentar em Favor da Educação Profissional e Tecnológica, criada por ele em 2023.
Ele diz que a educação profissionalizante mudou sua vida, por isso defende a ampliação do ensino.
"Eu nasci na periferia, meu pai era faxineiro, eu só consegui sair de lá graças a um curso do Senai, que eu fiz quando tinha 14 anos, de eletricista aprendiz. Então aquilo me tirou ali da periferia, me tirou do alcance, vamos dizer assim, de criminosos, bandidos, traficantes, e me colocou no caminho correto."
Ele afirma que o Brasil precisa ampliar o fomento ao ensino profissionalizante, apontando que atualmente o país tem uma porcentagem entre 12% e 13% de alunos, enquanto em outros países, como Alemanha, Coreia e Japão, chega a 50%.
"A gente precisa chegar, no mínimo, a 40% de jovens fazendo ensino profissionalizante. Eu garanto para você que em dez anos a gente muda o cenário de drogas, cenário de criminalidade no país, graças a você aplicar recursos de forma eficiente, inteligente e na base."