"Essa banda Locomotiva não chegou a gravar um disco, mas fez muito sucesso porque fundou a ideia de música neonazista no Brasil. Eles tinham canções como 'Sangue e Raça', que retrata o paulista como um elemento genético, ou seja, paulista não seria quem nasceu [em São Paulo], mas sim quem teria o sangue paulista", disse.
"Os jovens que defenderam a supremacia branca nos anos 80 não são os do Itaim Bibi, bairro de luxo de São Paulo, e sim do Itaim Paulista, superperiférico. Esse jovem cresce em ambiente hostil e se comunica com pessoas e bandas de fora sobre o universo cultural europeu e americano, onde receberam as primeiras informações sobre a cultura skinhead", contextualiza.
"O White Power tem um objetivo, que é implantar o nazismo aqui no Brasil, especialmente em São Paulo e nos três estados do Sul. A partir daí, eles também começam a perceber a música como um instrumento que mobiliza os seus congêneres, os seus iguais em outros lugares do mundo, e começam a formar bandas", comenta.
Música como ferramenta metapolítica
"Além de política, existe a cultura. Foi preciso um processo de nazificação na sociedade alemã para que o partido [nazista] chegasse ao poder. Isso se chama metapolítica, ou seja, primeiro se conquista o coração e a mente; posteriormente, conquista o voto. O nazismo, o fascismo e o integralismo no Brasil fizeram isso", disserta.
"Eu fiz pesquisa de campo em Roma, Nápoles e Milão e vi grupos de rap fascista. Eles falaram que cresceram ouvindo e entendem que precisam transmitir a mensagem da melhor forma possível. E eu perguntei se eles conheciam bandas brasileiras como Racionais MC. Eles não conheciam, mostrei o som e, apesar de um grupo negro, eles disseram curtir o som", destaca.
IA intensifica batalha cultural
"Tem um pessoal que faz a letra no ChatGPT e depois utiliza um aplicativo com diversos estilos para musicalizar a letra feita pelo prompt. Uma vez a música pronta, usa-se ferramentas para criar videoclipes. Então, hoje em dia, essas ferramentas são usadas para adensar o espaço digital com o máximo possível de propaganda", conclui.