Lula: 'Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou'
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursou, neste sábado (18), no encerramento da Mobilização Progressista Global, encontro em Barcelona que reuniu lideranças políticas de diversos países em defesa da democracia. Na oportunidade, ele falou sobre o multilateralismo e o papel dos governos progressistas.
Sputnik"O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade. Nosso lema deve estar sempre do lado do povo. Esta luta precisa ser global. De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem. Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças", disse o presidente.
Lula fez questão de ressaltar que ao passo que as grandes potências "gastam em armas bilhões de dólares", o montante poderia ser revertido em atividades voltadas ao combate a fome ou para resolver questões relacionadas à saúde e a transição energética.
"O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou", disse, acrescentando que a região geopolítica é vista como o quintal das grandes potências, ao ser, por exemplo, "sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis".
Durante o discurso, Lula destacou que no atual momento é o que mais acontece conflitos armados
desde a Segunda Guerra Mundial.
"Hoje nós temos guerra, a invasão do Iraque foi uma mentira. Cadê as armas químicas que o Saddam Hussein tinha? Nunca encontraram. A invasão pela França e pela Inglaterra na Líbia foi outra mentira, que mal causava o Khadafi naquele instante histórico da nossa humanidade. A invasão e o genocídio que foi feito por Israel em Gaza é outra mentira muito grande. E agora, o bombardeio de Israel ao Líbano, com que pretexto? E agora mais, a invasão dos Estados Unidos ao Irã, a que pretexto?", questiona.
Ao seguir falando sobre o Irã, Lula disse que a República Islâmica
não possui bomba atômica e que é preciso parar com a mentira com o intuito de destruir pessoas. À luz dessa problemática, ele lembrou que o
Brasil, junto da Turquia em 2010, mediou um acordo internacional com o Irã sobre o enriquecimento de urânio.
Na proposta, aceita pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad, Teerã enviaria seu estoque de urânio enriquecido, à época em 3,5%, e receberia de volta o minério enriquecido a níveis de 20%, o ideal para fins energéticos.
"Quando nós publicamos o acordo, eu imaginei que nós íamos ser elogiados porque o Irã não ia mais enriquecer urânio [...]. O que aconteceu, companheiro Pedro Sánchez? A União Europeia e os Estados Unidos não aceitaram o acordo. E agora estamos atrás outra vez de construir a ideia de que o Irã iria construir bomba atômica."
O presidente brasileiro, no âmbito da política internacional, destacou, ainda, a necessidade "restituir a credibilidade da ONU".
Nesse sentido, Lula defendeu a criação de um sistema
onde a regra vale para todos e que todos estejam "em pé de igualdade no Conselho de Segurança, no Banco Mundial, no FMI e na Organização Mundial do Comércio".
Papel das lideranças progressistas
Em meio a governantes e parlamentares do campo progressista, como o premiê espanhol Pedro Sánchez, Lula ressaltou que a democracia é uma "construção cotidiana" e não um destino em que inevitavelmente se vai alcançar.
Para isso, refletiu o líder brasileiro, é preciso "ir além do voto e trazer benefícios concretos para a vida das pessoas".
"Não é democracia quando um pai não sabe onde tirar seu próximo prato de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando a mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando há lei, quando alguém é discriminado pela cor da sua pele, quando a mulher morre apenas pelo fato de ser mulher."
Em tom de autocrítica, Lula destacou que embora os governos progressistas tenham conseguido avançar em pautas relacionadas aos direitos das minorias, como pessoas negras e mulheres, "não conseguiram superar o pensamento econômico dominante".
"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abre mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema", pontuou.
Por conta deste fato, hoje a extrema-direita se apresenta com um discurso antissistema, impondo um novo desafio ao campo progressista. "A extrema-direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo."
Segundo Lula, mesmo que boa parte da população não se considere progressista, ela compartilha os mesmos ideais do campo, como "comer bem, morar bem, escola de qualidade, hospital de qualidade e uma política climática séria e responsável".
"Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável."
No entanto, ao utilizar da frustração das pessoas com as falhas do neoliberalismo, a extrema direita torna vítima justamente as pessoas mais frágeis da sociedade.
"O nosso papel [enquanto esquerda] é apontar o dedo para os verdadeiros culpados. Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial."
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