Este evento, promovido pelo presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, ocorreu nos dias 17 e 18 de abril, em um contexto no qual o líder se envolve em um confronto direto com Washington após se recusar a apoiar sua intervenção militar no Oriente Médio.
O encontro contou com a presença do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, bem como de seus homólogos do México, Claudia Sheinbaum; Uruguai, Yamandú Orsi; Colômbia, Gustavo Petro; e África do Sul, Cyril Ramaphosa. O ex-presidente chileno Gabriel Boric também participou.
A participação da presidente mexicana marcou sua primeira visita oficial à Europa e foi interpretada como mais um passo na normalização das relações entre o país latino-americano e a Espanha.
Em seus discursos, os líderes enfatizaram a não intervenção, o respeito à soberania das nações e o respeito ao direito internacional.
Da mesma forma, em uma declaração conjunta, Brasil, Espanha e México declararam sua oposição a qualquer tentativa de intervenção militar em Cuba e prometeram aumentar a ajuda enviada à nação caribenha em vista da "grave crise humanitária" que atravessa.
Uma resposta indireta aos EUA
Embora os líderes participantes da cúpula tenham evitado mencionar Washington, especialistas afirmaram que o evento em si é uma forma de responder às políticas internacionais promovidas nos últimos meses pela Casa Branca.
Rubén Ramos Muñoz, professor de relações internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), disse a esta publicação que o encontro foi uma resposta ao "inevitável declínio político, econômico e militar" dos Estados Unidos.
O especialista observa que, nesse processo de "transição hegemônica", as potências participantes da cúpula enviam uma mensagem clara em favor de um mundo multipolar e contra o intervencionismo político.
"Países que não simpatizam com as políticas intervencionistas dos Estados Unidos se unirão para demonstrar força diplomática e política, bem como um contrapeso ao intervencionismo estadunidense", enfatiza.
Nesse contexto, o acadêmico acredita que Washington buscará recuperar sua hegemonia por meio de intervenções e ações como a ocorrida na Venezuela no início deste ano. Portanto, uma das posições compartilhadas na cúpula foi a de exigir respeito ao direito internacional e rejeitar qualquer tipo de intervenção em Cuba.
Ramos Muñoz também enfatiza que o objetivo da cúpula era promover outra plataforma que permitisse aos países do chamado Sul Global propor soluções para "riscos semelhantes".
"Esses tipos de ameaças enfrentadas por diversos países, decorrentes das políticas intervencionistas dos EUA, buscam uni-los, e nada melhor do que unir forças entre Estados que compartilham os mesmos interesses para fortalecer o poder diplomático e levar essa voz a diversos fóruns internacionais", afirma.
Por sua vez, David García Contreras, especialista em relações internacionais da UNAM, declara que esta cúpula foi uma resposta direta ao unilateralismo e uma espécie de contraproposta "ao que prevaleceu na política internacional nos últimos meses".
O especialista destaca a forma como os principais temas da cúpula — soberania dos povos, governança digital, multilateralismo e respeito ao direito internacional — foram apresentados, de maneira incisiva, sem buscar um confronto direto com Washington; em outras palavras, as táticas diplomáticas foram cuidadosamente mantidas.
O especialista também acredita que o objetivo é criar um contrapeso político a outras iniciativas promovidas por diferentes esferas políticas, como o chamado "Escudo das Américas", a fim de gerar uma plataforma que permita a consolidação de uma oposição mais forte em nível internacional.
"Este encontro é significativo porque a união da esquerda pode significar que vozes opostas se unem e expressam um discurso e políticas alternativas ao que o mundo vem moldando nos últimos meses."