O instrumento Análise de Amostras em Marte (SAM, na sigla em inglês), responsável por analisar amostras marcianas, utilizou pela primeira vez o reagente hidróxido de tetrametilamônio (TMAH) para liberar e detectar compostos orgânicos preservados em arenitos ricos em argila. Entre eles estão moléculas contendo nitrogênio e enxofre, semelhantes às que ajudaram a impulsionar a vida terrestre, embora ainda não seja possível determinar se têm origem biológica ou geológica.
O estudo, liderado por Amy Williams, da Universidade da Flórida, confirma mais de 20 moléculas orgânicas preservadas em rochas de 3,5 bilhões de anos. A diversidade química encontrada sugere que parte da matéria orgânica resistiu à diagênese e à intensa radiação marciana ao longo de bilhões de anos.
Segundo Williams, análises com equipamentos sobressalentes do SAM reforçaram que os compostos detectados derivam de carbono macromolecular mais complexo, preservado no subsolo marciano. A caracterização contínua dessa matéria orgânica é vista como central para avaliar a habitabilidade passada do planeta.
A pesquisa destaca que, após uma década de avanços, a exploração marciana evoluiu da simples busca por moléculas orgânicas para a identificação de compostos nativos, permitindo investigar se sua origem é externa — como poeira meteorítica — ou interna, produzida por processos abióticos ou biológicos.
Os resultados também se alinham às observações do rover Perseverance, que detectou compostos orgânicos cíclicos e carbono macromolecular com instrumentos diferentes. A convergência dos achados sugere que o carbono orgânico pode ser mais bem preservado em Marte do que se imaginava.
As conclusões reforçam que futuros experimentos de termoquimiólise podem revelar bioassinaturas antigas, caso existam. Missões como a do rover europeu Rosalind Franklin e da sonda Dragonfly, que levarão versões do experimento TMAH, devem se beneficiar diretamente dessas descobertas.
Para Williams, o fato de o carbono macromolecular permanecer preservado por longos períodos indica que moléculas maiores — possivelmente associadas à vida — podem sobreviver na superfície marciana. Isso orienta o desenvolvimento de instrumentos capazes de extrair e identificar esses compostos com maior precisão.
Segundo o portal Space, os cientistas afirmam que os novos resultados ampliam o catálogo de moléculas orgânicas confirmadas em Marte e fortalecem a evidência de que o planeta preserva registros químicos complexos, essenciais para futuras buscas por sinais de vida.