A série de medidas econômicas anunciadas ou estudadas pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva reacendeu o alerta entre analistas e integrantes da equipe econômica. Nas últimas semanas, o governo desonerou o diesel, anunciou aporte de R$ 20 bilhões no Fundo Social para programas habitacionais e prepara um amplo pacote de renegociação de dívidas que pode movimentar mais de R$ 100 bilhões.
O pacote inclui liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), reforço a fundos garantidores de crédito, linhas especiais para motoristas de aplicativos, taxistas e caminhoneiros renovarem veículos e medidas voltadas ao setor de fertilizantes.
Segundo a Folha de S.Paulo, no entanto, a percepção de que essas ações podem impulsionar a demanda ocorre no momento em que o Boletim Focus já registra revisões para cima nas projeções de inflação e da taxa Selic para 2026 e 2027, refletindo maior incerteza.
Diante desse cenário, membros da equipe econômica têm sido orientados a reforçar ao mercado que as medidas não têm caráter eleitoral. Os ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmam que o objetivo é aumentar o patrimônio das famílias e a produtividade, e não estimular o consumo.
Moretti sustenta que, se calibradas corretamente, as ações não prejudicam a política monetária, embora reconheça a necessidade de diálogo com o Banco Central e agentes econômicos.
Nos bastidores, porém, técnicos do governo admitem preocupação com a possibilidade de que uma eventual queda de Lula nas pesquisas leve ao reforço do pacote, inclusive com mudanças no Bolsa Família — estratégia semelhante à adotada por Jair Bolsonaro em 2022. A fala do ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, José Guimarães, sobre estudar subsídio à gasolina, embora descartada depois, acendeu ainda mais o alerta.
A alternativa apresentada pelo governo — usar receitas extras do petróleo para reduzir tributos — gerou reação negativa no mercado.
Segundo a apuração, o temor é de que a combinação de medidas fiscais amplas e ambiente externo adverso pressione as taxas de juros futuras, justamente na semana em que o Copom se reúne para definir a Selic.
A preocupação não é exclusiva do Brasil: o Fundo Monetário Internacional (FMI) discutiu recentemente o impacto global de políticas fiscais adotadas para conter a alta do petróleo, alertando para o risco de desequilíbrios entre oferta e demanda quando governos tentam amortecer choques sem reduzir o consumo.
Economistas consultados pela reportagem apontam que o ciclo de "bondades" em ano eleitoral se repete, independentemente do governo. Bráulio Borges observa que, embora o Brasil se beneficie da alta do petróleo por ser exportador, o conjunto das medidas pode dificultar o trabalho do Banco Central e reduzir o espaço para cortes de juros, por exemplo.
Entre o setor financeiro, há posições distintas, mesmo com as medidas ainda sob análise e estudo por parte da Fazenda. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) apoia as renegociações de dívidas e ressalta que não haverá "dinheiro novo" nessas operações. Já a Febraban afirma que o pacote não adiciona risco estrutural, mas deve ser avaliado pelo impacto sobre inflação e expectativas, além da forma de financiamento, destacou a publicação.