A guerra no Oriente Médio e o bloqueio no estreito de Ormuz, deflagrado em consequência, estão causando um grande impacto no mercado global de petróleo. Países já declararam estado de emergência pela falta do insumo energético e os piores impactos, preveem analistas, ainda deverão ser sentidos.
Atualmente, o preço do barril de petróleo Brent opera em algo em torno de US$ 110 (cerca de R$ 550), um aumento de mais de 50% quando comparado à faixa de US$ 70 em que o barril se encontrava antes dos ataques norte-americanos e israelenses ao Irã.
Nesse ambiente de inflação global, bancos centrais se deparam com um cenário desafiador e, justo hoje, dois grandes reguladores monetários farão uma reunião a respeito da definição da taxa de juros: o Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed, na sigla em inglês) e o Banco Central brasileiro.
Nos Estados Unidos, o Fed deve manter sua taxa de juros na banda de 3,5% a 3,75%, em que está desde dezembro. Porém, há a possibilidade de aumentar a taxa caso a inflação acelere. Já no Brasil, a expectativa é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) mantenha a tendência de baixa de 0,25 pontos percentuais, de 14,75% para 14,5%. Isso significa que o BC mantém sua postura cautelosa de afrouxamento monetário.
A situação, para além de afetar o cenário macroeconômico, também tem impacto político, uma vez que estamos em ano eleitoral no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a fim de amortecer os efeitos do conflito no Irã na alta de combustíveis, estuda usar a alta nas receitas das exportações petrolíferas para desonerar a carga tributária sobre gasolina e etanol.
Para viabilizar a medida, o governo pretende encaminhar ao Congresso um projeto que flexibiliza o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), ação controversa especialmente em ano eleitoral.
Ainda não há definição sobre o tamanho da redução dos tributos, nem é de conhecimento se haverá prorrogação das desonerações já aplicadas ao diesel e ao biodiesel. De acordo com estimativas, cada redução de R$ 0,10 nos impostos da gasolina representa um custo de aproximadamente R$ 404 milhões por mês. No caso do etanol, o impacto é menor, mas ainda significativo, em torno de R$ 165 milhões mensais para cada R$ 0,10 de corte.
Consultado pela Sputnik Brasil, Mauro Rochlin, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que o tema se tornou protagonista em todos os níveis decisórios, pois o peso do petróleo vai muito além do setor energético, já que se trata de um insumo transversal na economia.
"Como o petróleo é um insumo importante em várias cadeias produtivas […], o impacto da variação de preço tem rebatimento em vários serviços e produtos."
Já Maria Beatriz de Albuquerque David, economista e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pontua que, embora o país importe pouco petróleo, ainda há dependência externa na cadeia de refino, o que impede a autossuficiência completa.
"Nós não somos tão dependentes assim, porque importamos pouco e temos uma produção grande, mas não temos o tipo de refino para atender toda a demanda brasileira."
Ela ressalta ainda que um aumento nos combustíveis sempre impactará a economia brasileira por esta ser "muito dependente" do transporte terrestre.
Sobretudo, a economista vê maior impacto nos fertilizantes, um insumo essencial para o agronegócio brasileiro e diretamente sensível às oscilações do petróleo e do cenário internacional. Embora o Brasil busque alternativas, como o fornecimento pelo mercado russo e a retomada da produção doméstica, os custos logísticos tendem a subir com a alta do petróleo, o que limita o alívio.
Ela também chama atenção para o efeito sobre o comércio exterior brasileiro. Países árabes, envolvidos ou afetados pela crise, são importantes compradores de produtos agrícolas do Brasil, o que pode levar à redução nas exportações, especialmente de proteínas como o frango. De acordo com a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), exportações para países árabes atingiram US$ 1,75 bilhão (cerca de R$ 8,73 bilhões) no primeiro semestre de 2025.
Impacto na inflação do Brasil
A inflação brasileira acelerou em abril, impulsionada principalmente pelos alimentos, em razão de fatores sazonais e dos efeitos da guerra no Oriente Médio, como o aumento dos combustíveis. O IPCA-15 subiu 0,89% no mês, elevando a taxa acumulada em 12 meses para 4,37%, próxima do teto da meta.
Maria Beatriz avalia que o cenário externo tende a influenciar a atuação do Banco Central. Para ela, a tendência é de uma condução mais conservadora dos juros: "A queda pode parar ou ser mais lenta do que o esperado sem esse conflito". Para ela, o impacto dos combustíveis é disseminado e sensível politicamente.
"Impacta todos os eleitores. Então, nenhum governador vai querer se posicionar contra medidas de alívio, porque isso também repercute diretamente na população."
Rochlin, por sua vez, classificou que o comportamento do Brent se torna uma variável-chave na definição da política monetária. "O Copom, nas suas reuniões, se utiliza de várias ferramentas para definir o seu posicionamento […] ele olha não só o IPCA, mas também o núcleo da inflação e a chamada inflação de serviços", explica.
"Difícil dizer se a inflação vai ser, de fato, controlada. Isso depende muito de como o preço do petróleo se comportar."
Segundo ele, caso o cenário externo permaneça volátil, a tendência é de uma política monetária mais cautelosa, com risco de desaceleração mais intensa da economia brasileira.
Rochlin também chama atenção para o papel do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos no comportamento do câmbio e da inflação, algo que será definido hoje a partir das reuniões do Fed e do BC.
"Quando a diferença entre as taxas de juros se acentua […], isso certamente atrai capital para o Brasil, o que faz com que o real se valorize", explica. Esse movimento ajuda a conter os preços, ao reduzir o custo de importados, e dar mais estabilidade às commodities.