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'Sem perspectiva de futuro': o que está tornando os jovens mais conservadores?

Especialista ouvida pela Sputnik Brasil aponta crise de perspectivas, isolamento social e busca por pertencimento como fatores por trás da guinada conservadora entre jovens no Brasil e no mundo.
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Uma pesquisa da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg apontou que a desaprovação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre jovens de 16 a 24 anos chegou a cerca de 72%. O índice é significativamente superior à média registrada na população geral, em que a desaprovação gira em torno de 53%. Mais do que um dado conjuntural, o resultado chama atenção por representar uma inversão histórica: tradicionalmente, o eleitorado jovem esteve mais associado a pautas progressistas e partidos de esquerda.
O fenômeno, porém, está longe de ser exclusivo do Brasil. Em diferentes países, pesquisas e resultados eleitorais recentes mostram um avanço do conservadorismo entre parcelas das gerações mais novas.
Nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, o Partido Republicano ampliou seu desempenho entre jovens de 18 a 29 anos, alcançando cerca de 39% desse eleitorado. Já na Alemanha, nas eleições de 2025, o partido Alternative für Deutschland (Alternativa para a Alemanha, em tradução livre) conquistou aproximadamente 21% dos votos entre eleitores de 18 a 24 anosum crescimento expressivo de 14 pontos percentuais em relação ao pleito de 2021.
A mudança desafia interpretações tradicionais sobre comportamento político geracional. Durante décadas, predominou a percepção de que os jovens tendiam a aderir mais facilmente a discursos ligados à transformação social, ampliação de direitos e valores progressistas. Contudo, tem se mostrado um crescimento na aderência a discursos conservadores e identitários.
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Então, o que explica essa mudança no comportamento político dos jovens? Para alguns especialistas, a resposta passa pela sensação crescente de ausência de futuro. A cientista política Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirma que a juventude atual foi formada em meio a crises sucessivas — sanitárias, econômicas, ambientais e institucionais — que moldaram uma geração mais descrente e insegura em relação ao futuro.
Segundo ela, diferentemente de gerações anteriores, muitos jovens cresceram sem perspectivas concretas de estabilidade ou ascensão social. "Essa juventude mudou. É uma juventude que não tem tanta perspectiva de futuro", afirma. Para a pesquisadora, fatores como a pandemia de COVID-19, a precarização do Estado e a disseminação de discursos destrutivos tiveram impacto profundo na formação política e emocional dessa geração.
Gurgel destaca que os jovens de hoje atravessaram experiências traumáticas ainda durante a infância e adolescência, especialmente na pandemia da COVID-19, vivida em um contexto de forte polarização política e descrença institucional.
"A gente já tem uma geração que viveu essa pandemia e também um governo que era alheio aos danos dela", diz, em referência ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para ela, o ambiente político daquele período reforçou uma percepção de insegurança e deterioração coletiva.
A pesquisadora também aponta que a questão ambiental também ocupa um papel na percepção dos jovens sobre o futuro. "É uma geração que olha para o futuro e vê destruição, inclusive do ponto de vista ambiental", afirma. Na avaliação dela, a sensação de crise permanente fortalece sentimentos de frustração e desencanto, especialmente em uma geração que cresceu acompanhando debates sobre mudanças climáticas, conflitos, instabilidade econômica e perda de direitos sociais.
Além disso, Gurgel argumenta que houve um enfraquecimento da ideia de projeto nacional e de pertencimento coletivo. Segundo ela, a juventude atual se desenvolveu em um contexto de "destruição do Estado", não apenas em termos institucionais, mas também culturais. "O Brasil está cada vez mais 'americanofilado'", afirma, ao citar a crescente influência de modelos culturais e políticos dos Estados Unidos sobre o imaginário brasileiro.
Nesse cenário, discursos conservadores e identitários encontram terreno fértil nas redes sociais, especialmente ao oferecer respostas simples para angústias complexas. Ao mesmo tempo, parte da juventude demonstra afastamento de narrativas políticas tradicionais, vistas como incapazes de responder às incertezas econômicas, sociais e emocionais do presente.
A cientista pontua também a dificuldade do terceiro governo Lula de se distinguir, na prática, de gestões anteriores. Em sua percepção, esse cenário é resultado de um processo mais amplo de desgaste das práticas políticas, em que diferenças entre esquerda e direita se tornam menos perceptíveis no cotidiano da população.
Ao mesmo tempo, o ônus dos problemas do sistema democrático recaem na esquerda por tentar manter a democracia sem mudar tanto o regime, enquanto a direita fica com o discurso de ruptura e mudança. "Essa reciclagem [na política] abriu espaço para novos quadros, principalmente do setor conservador, que fazem o discurso da ruptura. É curioso como o discurso da ruptura, agora, quem assume é a direita, com esse traço sobre o qual eu falava: superegoico e de destruição."

"O setor mais conservador propõe destruir o SUS, destruir a Amazônia, destruir as relações de amor que extrapolam o binarismo homem-mulher. O que se propõe no lugar disso? Não se propõe nada. Se propõe a barbárie, a iniciativa privada, o vire-se quem puder."

O governo Lula, a fim de conquistar o apelo popular para as eleições, investe em projetos que possam melhorar as condições econômicas e sociais da população, como a isenção do IR até R$ 5 mil ou a PEC do fim da escala 6x1. Gurgel avalia que, embora essas iniciativas políticas tragam "fôlego" e renovem o ânimo dos eleitores, elas ainda são insuficientes diante de um cenário mais amplo de frustração.
Segundo a professora, a política não se resume à economia – ela também mobiliza desejos, expectativas e sentidos de futuro, especialmente entre jovens. "A política tem uma base econômica, mas também toca muito fundo na fome do espírito. E a juventude, e ela carrega isso como singular, é ousada, mas a juventude está cada vez mais sendo empurrada por um realismo impotente".
Dessa maneira, esse vazio abre espaço para discursos mais radicais e performáticos, enquanto a dificuldade de apresentar mudanças concretas faz com que a polarização política perca sentido para muitos jovens, que passam a enxergá-la como distante da realidade.
Sobretudo, Gurgel avalia que a falta de pertencimento e de comunidade nos discursos e práticas da esquerda contrasta com a atuação da direita, que, segundo ela, tem ocupado espaços concretos de sociabilidade e acolhimento. Para a pesquisadora, o avanço conservador entre jovens não pode ser explicado apenas pela influência das redes sociais ou dos algoritmos, mas pela capacidade de determinados grupos de criar vínculos reais no cotidiano.
Ela argumenta que o ambiente virtual tende a reforçar convicções já existentes, e não necessariamente transformar opiniões. "A juventude tem seus nichos. Eles já escolheram o que ouvir e o que ler. O algoritmo oferece justamente aquilo que o consumidor quer", afirma. Nesse sentido, Gurgel considera que o convencimento político acontece menos nas telas e mais nas relações sociais presenciais.
Para a cientista política, a sensação de isolamento vivida por muitos jovens ajuda a explicar a busca por espaços de pertencimento, sejam eles religiosos, comunitários ou políticos. Ela afirma que a direita tem conseguido ocupar esses ambientes ao oferecer experiências concretas de convivência e suporte emocional, enquanto parte da esquerda teria concentrado esforços excessivos na disputa digital.
Gurgel cita como exemplo iniciativas comunitárias promovidas por grupos conservadores, como festas populares, eventos religiosos e ações de assistência local. "Quem está fazendo a festa das mães, a festa das crianças, a festa de Cosme e Damião? Se fosse só Internet, não fariam isso", diz. Para ela, existe uma dimensão material e afetiva na disputa política que não pode ser substituída apenas por comunicação on-line.
Na avaliação da professora, reconstruir laços sociais e comunitários deveria ser uma prioridade para setores progressistas. "A gente muda o modo de pensar mudando a vida material das pessoas", afirma. Segundo ela, políticas públicas de saúde, educação e assistência social têm mais capacidade de produzir identificação política duradoura do que campanhas digitais ou disputas discursivas abstratas.
A pesquisadora também alerta para os impactos sociais da hiperconectividade. Para ela, embora as redes sociais aproximem indivíduos virtualmente, elas também podem aprofundar sentimentos de solidão e fragmentação social. "A saúde mental envolve estar com os outros, e não sozinho com os aparelhos telefônicos", resume.
Nesse contexto, Gurgel defende que a disputa política entre os jovens passa menos por "viralizar" conteúdos e mais por reconstruir espaços reais de convivência, organização coletiva e apoio comunitário — elementos que, segundo ela, ajudam a criar vínculos de confiança e pertencimento social.

"O espaço de convencimento é na rua. É no cotidiano. A igreja está tirando essa juventude do isolamento, os coaches estão consolando, e é nesses movimentos de acolhimento que se forjam ideologias."

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