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Brasil deve retomar uma diplomacia 'concreta' na África, diz diplomata

© Ricardo StuckertPresidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião bilateral com o Presidente da República da África do Sul, Cyril Ramaphosa.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião bilateral com o Presidente da República da África do Sul, Cyril Ramaphosa. - Sputnik Brasil, 1920, 02.01.2026
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Neste episódio do Mundioka, especialistas avaliam as perspectivas para a África em 2026, seu potencial de investimento no mundo e como os países africanos devem agir para aproveitar essa onda e se desenvolverem.
Em 2025, a África consolidou tendências que vinham se desenhando ao longo da última década, como o distanciamento de antigos parceiros europeus e a busca por novas alianças, e reforçou seu debate sobre soberania, segurança e controle de recursos naturais, em especial diante um contexto de disputas geopolíticas por minerais críticos, essenciais para a transição energética e tecnologias do futuro.
Mais recentemente, em meio à reconfiguração das parcerias internacionais e ao fortalecimento das articulações do Sul Global, a África voltou a ganhar centralidade na política externa brasileira. Países como Angola, Moçambique, Nigéria e África do Sul reaparecem como interlocutores estratégicos para o Brasil, seja em projetos de segurança alimentar e biocombustíveis ou seja no diálogo político em fóruns como BRICS, G20 e Nações Unidas.
O presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, visita plataforma de exploração de petróleo no contexto da produção local de barris, pela primeira vez na história do país - Sputnik Brasil, 1920, 26.12.2025
Panorama internacional
Ano de 2025 reforçou expectativas positivas para o futuro da África, avaliam especialistas
Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Ricardo Caichiolo, diretor da unidade do Ibmec Brasília e coordenador geral dos cursos de Graduação e Pós-Graduação, detalha que o continente atraiu a atenção dos países desenvolvidos pelo seu potencial de investimento, o que pode ser benéfico para essas nações.
"Os países africanos podem se beneficiar muito desse interesse de países estrangeiros em poder ocupar esse mercado, ter uma parcela importante, significativa desse mercado", disse, ressaltando que é importante que esses Estados consigam, a partir dessas parcerias, incorporar novas tecnologias para o desenvolvimento do próprio país.
O especialista também ressaltou um grande desafio ao continente: sua janela demográfica. Seu potencial de crescimento é diretamente ligado ao seu rápido crescimento populacional. No entanto, esse mesmo fator pode se converter em um desafio social de grandes proporções caso não haja investimentos consistentes em educação, emprego e desenvolvimento produtivo.
"Sem essas políticas, alerta Caichiolo, a janela demográfica corre o risco de se transformar de ativo estratégico em um problema estrutural para os países africanos, gerando um desemprego estrutural nos países e aumento da pobreza."
Bola Tinubu durante uma reunião com o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, na Vila Presidencial em Abuja. Nigéria, 23 de janeiro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 06.01.2025
Panorama internacional
Presença de potências da África no BRICS abre margem para o Brasil reorganizar política energética
Rômulo Neves, diplomata em Kigali, Ruanda, e autor do livro "A política externa do Brasil para a África desde 1822: irmãos por parte de pai", explicou ao programa que um dos entraves estruturais da região é o baixo nível de comércio intra-africano, herança direta do período colonial.
Segundo ele, após a independência, muitos países africanos firmaram acordos de preferência comercial "leoninos" com antigas metrópoles europeias, o que distorceu as cadeias de troca. Na prática, esses acordos tornaram mais barato para países africanos importar produtos da Europa do que adquirir bens produzidos por seus próprios vizinhos no continente.
Nesse sentido, a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) surge com grande destaque para superar esse desafio. "E isso tem o potencial, pelo menos, de gerar uma demanda interna, de baratear o custo completo, de gerar uma capacitação para o comércio local."
Criado em 2021 com o intuito de integrar os mercados africanos e reduzir a dependência externa, o acordo busca eliminar gradualmente tarifas e barreiras não tarifárias entre mais de 50 países, estimulando o comércio intra-africano, a industrialização e a formação de cadeias regionais de valor.
No entanto, mesmo avanço em setores de energia e logística, seu progresso é lento devido a desafios estruturais, como deficiências de infraestrutura, barreiras regulatórias internas e a persistência de economias voltadas à exportação de commodities para fora do continente.

Brasil tem um papel no desenvolvimento da África?

Caichioli ressaltou ao Mundioka que hoje a China é o maior parceiro comercial da África, tendo construído portos, ferrovias e redes de telecomunicações nos países africanos. Esses desenvolvidos auxiliam o país a obter os minérios que precisa. O Brasil, disse, é outra nação que tem interesse no continente.

"O Brasil, obviamente, é um dos países que têm interesse no continente africano, tem se aproximado em termos, em alguns momentos em alguns governos mais alinhados à esquerda com países africanos, enxergando uma oportunidade de uma cooperação, inclusive em termos de aumentar o poder de barganha perante organismos internacionais como o G20 e G7".

Já Neves acredita que hoje o país deve restaurar sua presença na África, indo além do discurso político e retomar mecanismos concretos de engajamento diplomático. Embora o número de embaixadas seja relevante, o ponto central está na falta de instrumentos complementares que dêem densidade a essa presença.
Um exemplo citado é a interrupção das iniciativas de diálogo coletivo com países africanos. Enquanto a China mantém de forma ininterrupta o Fórum de Cooperação China–África, com alto nível de engajamento presidencial e desdobramentos práticos, o Brasil interrompeu as cúpulas América do Sul–África (ASA), perdendo um espaço estruturado de articulação política. A última foi realizada em 2013.
Soma-se a isso o baixo interesse da sociedade brasileira pela África, marcado por desconhecimento e preconceitos, o que limita a pressão interna por uma política externa mais ativa. Sem enfrentar esses condicionantes domésticos, avalia Neves, qualquer tentativa de reposicionar o Brasil no continente tende a ser pontual e frágil.

"Quando a reunião é na China, o presidente chinês tem uma reunião bilateral com cada presidente africano. E uma coisa que os africanos reclamam muito dessas reuniões coletivas é que eles são tratados como uma espécie de grupo único, meio na coletividade geral, e isso deixa eles um pouco irritados. A China não faz isso."

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