Guerra no Irã eleva petróleo e pressiona inflação, dividindo expectativas sobre a Selic, diz mídia

© Foto / Tânia Rêgo/Agência Brasil
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A disparada do petróleo após a guerra no Irã reacendeu o temor inflacionário no Brasil e colocou em dúvida o ritmo de cortes da Selic, dividindo economistas entre manter os juros em 15% ou seguir com reduções em meio ao risco de pressão disseminada sobre preços.
A escalada da guerra no Irã e a incerteza sobre sua duração passaram a influenciar diretamente as projeções econômicas para o Brasil, sobretudo por causa da disparada do petróleo.
O conflito no Oriente Médio, intensificado após bombardeios dos EUA e de Israel ao Irã, elevou o risco de gargalos no fluxo global de petróleo. A volatilidade ficou evidente quando o barril chegou perto de US$ 120 (R$ 632,54) antes de recuar para abaixo de US$ 90 (R$ 474,40) após declarações de Donald Trump sobre um possível fim das hostilidades. Mesmo assim, especialistas afirmaram à Folha de S.Paulo que a disrupção já é a maior da história recente e que seus efeitos dependerão da duração da guerra.
Os impactos já se espalham pela economia global. Passagens aéreas encareceram, distribuidoras brasileiras começaram a repassar custos e a gasolina — principal canal de transmissão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — voltou ao centro das atenções. Como o combustível pesa mais de 5% no orçamento das famílias, cada alta de 1% na gasolina adiciona 0,05 ponto percentual à inflação.
Economistas alertaram à Folha, porém, que o maior risco está na difusão do choque. O petróleo encarece insumos agrícolas, embalagens plásticas e energia, pressionando cadeias produtivas inteiras quando o barril se sustenta perto de US$ 100 (R$ 527,11). Estudos citados por analistas mostram que um aumento de 10% no petróleo em reais, acompanhado por alta semelhante no etanol, pode elevar a inflação em até 0,4 ponto percentual.
Com o IPCA acumulado em 12 meses em 4,44% — dentro da meta, mas próximo do teto de 4,5% — o choque do petróleo reacendeu dúvidas sobre a decisão do Banco Central (BC) em 18 de março. Parte dos economistas ainda projeta corte de 0,5 ponto percentual, mas cresce o grupo que defende manutenção da Selic em 15% ou, no máximo, redução de 0,25 ponto.
Para analistas mais cautelosos, como Sergio Vale, que falaram à apuração, o BC deveria esperar para avaliar a extensão da crise e a reação da Petrobras, especialmente porque a inflação elevada torna o choque mais perigoso.
Já outros, como Luis Felipe Vital e Adriana Dupita, avaliam que ainda há espaço para flexibilização, considerando que a Selic segue em patamar bastante contracionista e que choques externos não devem ser respondidos de imediato.
O conflito também levou o mercado a revisar para cima as projeções de juros para 2026, embora as expectativas de inflação tenham permanecido estáveis. A percepção de que cortes mais agressivos poderiam ocorrer no próximo ano perdeu força após a divulgação de um IPCA-15 acima do esperado e o agravamento da crise no Oriente Médio.
Apesar das incertezas, o impacto sobre o produto interno bruto (PIB) brasileiro tende a ser neutro. A alta do petróleo beneficia petroleiras nacionais, e mercados emergentes costumam atrair recursos em momentos de turbulência global. As projeções do Focus apontam crescimento de 1,82% em 2026, enquanto o Ministério da Fazenda trabalha com estimativa mais otimista, de 2,3%.





