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Maior grupo de chimpanzés selvagens registra divisão letal inédita em Uganda, relatam pesquisadores

© REUTERS Alamy Stock Photo/antimo andrianiUm chimpanzé adulto, Pan troglodytes, mostra os dentes enquanto se comunica com o resto da comunidade no Parque Nacional de Kibale, Uganda
Um chimpanzé adulto, Pan troglodytes, mostra os dentes enquanto se comunica com o resto da comunidade no Parque Nacional de Kibale, Uganda - Sputnik Brasil, 1920, 10.04.2026
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A comunidade de chimpanzés de Ngogo, em Uganda, tornou-se palco do que pesquisadores descrevem como a primeira divisão letal claramente documentada dentro de um único grupo selvagem da espécie.
Após décadas vivendo, alimentando-se e patrulhando juntos, os animais passaram a se evitar e, por fim, a se atacar, em um processo que os cientistas comparam a uma espécie de "guerra civil" entre primatas. O fenômeno, observado ao longo de mais de 30 anos, revela como relações sociais deterioradas podem desencadear conflitos profundos mesmo entre indivíduos da mesma comunidade cultural.

Para os autores do estudo, liderados por Aaron Sandel, da Universidade do Texas em Austin, o caso desafia explicações tradicionais sobre violência coletiva e sugere que dinâmicas relacionais, mais do que fatores externos, podem estar na raiz de divisões fatais.

A descoberta reacende debates iniciados nos anos 1970, quando Jane Goodall registrou uma cisão violenta entre chimpanzés na Tanzânia. Embora aquele episódio tenha se tornado emblemático, críticas posteriores questionaram se a intervenção humana teria influenciado o conflito. Em Ngogo, porém, a ruptura ocorreu em condições naturais, fortalecendo a evidência de que tais divisões podem emergir espontaneamente.
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Os chimpanzés são conhecidos por atacar grupos vizinhos para defender território ou recursos, mas conflitos internos duradouros são considerados extremamente raros — estimados geneticamente como eventos que ocorrem apenas uma vez a cada cinco séculos.

Ainda assim, em 2015, logo após a ascensão de um novo macho alfa, os pesquisadores notaram que a grande comunidade de Ngogo começava a se fragmentar em duas facções distintas.

A partir desse momento, comportamentos antes comuns — como encontros amistosos e alimentação conjunta — deram lugar à fuga, perseguições e um período inédito de seis semanas de evitação total. O antigo centro do território transformou-se em fronteira patrulhada e, em 2017, a tensão explodiu em violência aberta, com o grupo ocidental, menor, iniciando ataques contra o grupo central.
Em 2018, a separação tornou-se definitiva: os grupos já não compartilhavam espaço, nem se reproduziam entre si. A agressão escalou ainda mais em 2021, quando chimpanzés ocidentais foram vistos matando filhotes do grupo rival. Entre 2018 e 2024, a média anual de mortes atribuídas aos ocidentais — um macho adulto e dois filhotes — superou em muito as taxas típicas de confrontos entre grupos distintos.
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Além das mortes confirmadas, mais de uma dúzia de chimpanzés do grupo central desapareceu sem explicação, levantando a suspeita de que também tenham sido vítimas da facção ocidental. Para os pesquisadores, o tamanho excepcionalmente grande da comunidade original — quase 200 indivíduos — pode ter ultrapassado a capacidade de manutenção de relações sociais estáveis, contribuindo para a ruptura.
Ainda assim, especialistas externos, como James Brooks, do Centro Alemão de Primatas, alertam que é cedo para generalizações. O caso, porém, oferece dados valiosos para compreender como fatores socioecológicos moldam conflitos em espécies altamente sociais — incluindo a humana, que compartilha 98,8% do DNA com os chimpanzés, mas não está biologicamente predestinada à violência.

Os autores do estudo destacam que, assim como entre os chimpanzés, relações humanas podem tanto alimentar divisões quanto promover cooperação. Pequenos gestos cotidianos de reconciliação, afirmam, podem ser decisivos para evitar que tensões se transformem em rupturas irreversíveis.

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