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Análise: inteligência artificial provoca construção de 'consenso rebaixado' na política
Análise: inteligência artificial provoca construção de 'consenso rebaixado' na política
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas comentaram o aumento do uso deste recurso tecnológico ao longo do último ciclo eleitoral e a capacidade de... 01.06.2026, Sputnik Brasil
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A influência da Internet nas campanhas eleitorais brasileiras já é alvo de discussão há mais de uma década no país, com as redes sociais como a principal protagonista ao longo dos últimos anos.Em um primeiro momento, o ambiente digital era visto como uma nova praça para a organização e o fortalecimento de grupos políticos. Em seguida, passou-se a notar a influência dos algoritmos na entrega de publicações para os usuários, uma verdadeira caixa-preta que as big techs se negam a revelar o conteúdo.Mais recentemente, os aplicativos de mensagem rápida foram apontados como os grandes responsáveis pela propagação em massa de notícias falsas sobre candidatos, incluindo vídeos falsos com alto grau de semelhança com os atores reais, os deepfakes.Com a aplicação de ferramentas de tecnologia no mundo da democracia — tanto para o bem quanto para o mal —, os Três Poderes tentam correr atrás, regulamentando o que é possível para evitar que o cenário eleitoral se torne terra de ninguém.O novo desafio de Brasília para a manutenção da democracia é a inteligência artificial. Enquanto o Congresso discute a votação do marco da IA, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Kassio Nunes Marques, definiu um cronograma para os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) implementarem unidades próprias de segurança da informação com o intuito de evitar o uso de IA nas eleições.Entre as regras aprovadas pelo TSE em março deste ano, é proibido que ferramentas de inteligência artificial indiquem candidatos a usuários, ainda que solicitado pelos internautas. Também não são permitidos posts com conteúdos modificados nas 72 horas anteriores às eleições e 24 horas após a votação, com restrição válida a imagem e voz de candidatos ou outras pessoas públicas.Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a inteligência artificial pode diminuir a importância dos debates da sociedade na tentativa de alcançar consensos, inclusive eleitorais. Para os analistas políticos, as ferramentas com base em IA são capazes de influenciar a população durante o processo eleitoral.Henrique Carlos de Castro, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisa a relação das tecnologias com a política há mais de 30 anos. Segundo o analista, IAs aceleraram e aprofundaram a capacidade de influência política no eleitorado, com a perspectiva de que esse cenário de poder aumente ainda mais nos próximos anos.Essa influência das inteligências artificiais e dos algoritmos fica mais fácil de ser compreendida se aplicada como ferramenta de marketing, avalia Castro. De acordo com o analista político, as pessoas preferem receber informações de maneira mais simples e direcionada, assim como sugestões de produtos para compra. É nesse contexto que a busca por outras possibilidades, como informações mais apuradas sobre determinado candidato, se perde.Para Castro, a IA na política é baseada na construção de dissensos, uma vez que esse tipo de tecnologia busca encontrar divergências para estabelecer subgrupos nos quais determinadas ideias tenham maior aderência. O especialista destaca que esse modelo prioriza convicções em vez de prestigiar debates.Castro reforça que também é necessária uma educação individual do cidadão sobre o uso de tecnologias como a inteligência artificial. No entendimento do especialista, a democracia não pode ser compreendida de "maneira vulgar" como apenas o ato de votar, mas uma forma de participar das questões públicas para defender interesses pessoais ou coletivos.Qual a diferença do impacto da IA no campo das fake news?Victor Escobar David, mestre em sociologia política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), doutorando em ciências sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e professor de direito constitucional da Universidade Candido Mendes, explica que o eleitor brasileiro já entendia como uma fake news era criada.Anteriormente, candidatos, cabos eleitorais ou até instituições produziam a notícia falsa. Logo em seguida, a mesma era disseminada nas redes sociais de maneira abrangente. No entanto, com a presença difundida de ferramentas de inteligência artificial, seja em seus próprios sites, redes sociais ou ferramentas de busca, fica mais difícil identificar o que é verdade e o que é mentira.Para o especialista, a premissa da IA, da geração de algo que parece confiável, traz a sensação de uma isenção de manipulação. No entanto, não é possível descartar que haja algum tipo de interferência nas eleições por meio do uso desse tipo de ferramenta.Segundo David, a Justiça Eleitoral brasileira sempre teve dificuldade de fiscalizar a divulgação de notícias falsas, seja por meio de material impresso ou, mais recentemente, nas redes sociais. Ainda assim, o mestre em sociologia defende as ações do TSE diante da utilização da inteligência artificial nas eleições.
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Análise: inteligência artificial provoca construção de 'consenso rebaixado' na política
20:16 01.06.2026 (atualizado: 21:31 01.06.2026) Especiais
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas comentaram o aumento do uso deste recurso tecnológico ao longo do último ciclo eleitoral e a capacidade de influência das IAs sobre a população às vésperas do início das campanhas partidárias.
A influência da Internet nas campanhas eleitorais brasileiras já é alvo de discussão há mais de uma década no país, com as redes sociais como a principal protagonista ao longo dos últimos anos.
Em um primeiro momento, o ambiente digital era visto como uma
nova praça para a organização e o fortalecimento de grupos políticos. Em seguida, passou-se a notar a
influência dos algoritmos na entrega de publicações para os usuários, uma verdadeira caixa-preta que as
big techs se negam a revelar o conteúdo.
Mais recentemente, os aplicativos de mensagem rápida foram apontados como os grandes responsáveis pela propagação em massa de notícias falsas sobre candidatos, incluindo vídeos falsos com alto grau de semelhança com os atores reais, os deepfakes.
Com a aplicação de ferramentas de tecnologia no mundo da democracia — tanto para o bem quanto para o mal —, os Três Poderes tentam correr atrás, regulamentando o que é possível para evitar que o cenário eleitoral se torne terra de ninguém.
O novo desafio de Brasília para a manutenção da democracia é a
inteligência artificial. Enquanto o Congresso discute a votação do
marco da IA, o
presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro
Kassio Nunes Marques, definiu um cronograma para os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) implementarem
unidades próprias de segurança da informação com o intuito de
evitar o uso de IA nas eleições.
Entre as regras aprovadas pelo TSE em março deste ano, é proibido que ferramentas de inteligência artificial indiquem candidatos a usuários, ainda que solicitado pelos internautas. Também não são permitidos posts com conteúdos modificados nas 72 horas anteriores às eleições e 24 horas após a votação, com restrição válida a imagem e voz de candidatos ou outras pessoas públicas.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que a inteligência artificial pode diminuir a importância dos debates da sociedade na tentativa de alcançar consensos, inclusive eleitorais. Para os analistas políticos, as ferramentas com base em IA são capazes de influenciar a população durante o processo eleitoral.
Henrique Carlos de Castro, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisa a relação das tecnologias com a política há mais de 30 anos. Segundo o analista, IAs aceleraram e aprofundaram a capacidade de influência política no eleitorado, com a perspectiva de que esse cenário de poder aumente ainda mais nos próximos anos.
"Se sempre nós, seres humanos, usamos tecnologias as mais diversas para fazermos que as nossas vontades, as nossas visões de mundo, se impusessem na sociedade, uma tecnologia, uma sofisticação, que tem o que nós chamamos de inteligência artificial, aprofunda e faz isso de uma maneira muito mais rápida, muito mais sofisticada e de uma maneira muito menos perceptível para as pessoas."
Essa influência das inteligências artificiais e dos algoritmos fica mais fácil de ser compreendida se aplicada como ferramenta de marketing, avalia Castro. De acordo com o analista político, as pessoas preferem receber informações de maneira mais simples e direcionada, assim como sugestões de produtos para compra. É nesse contexto que a busca por outras possibilidades, como informações mais apuradas sobre determinado candidato, se perde.
"A forma que essas inteligências artificiais, que essa forma de trabalhar as informações age, é justamente não procurando grandes consensos, mas procurando que determinados grupos se identifiquem com determinadas informações. Ou seja, quanto mais segmentada a informação e quanto mais dirigida a um pequeno grupo que possui valores, que possui ideias comuns, mais aquela inteligência artificial vai conseguir convencer as pessoas."
Para Castro, a IA na política é baseada na construção de dissensos, uma vez que esse tipo de tecnologia busca encontrar divergências para estabelecer subgrupos nos quais determinadas ideias tenham maior aderência. O especialista destaca que esse modelo prioriza convicções em vez de prestigiar debates.
"A política, na sua origem, necessariamente precisa do debate. Esse nosso momento de inteligência artificial na política é o momento da construção de pequenos consensos sem debate, certezas sem reflexão."
Castro reforça que também é necessária uma educação individual do cidadão sobre o uso de tecnologias como a inteligência artificial. No entendimento do especialista, a democracia não pode ser compreendida de "maneira vulgar" como apenas o ato de votar, mas uma forma de participar das questões públicas para defender interesses pessoais ou coletivos.
"As pessoas preferem conversar com essas máquinas porque elas concordam com ela, elas são um consolo. Elas não são alguém que te questiona, são alguém que te ajuda a reforçar [percepções]. Se nós levarmos isso para a sociedade, construímos uma sociedade de um consenso rebaixado. Não é a construção de um consenso político e sob uma perspectiva de mudanças sociais, sejam as mudanças que forem, mas um consenso construído em um rebaixamento."
Qual a diferença do impacto da IA no campo das fake news?
Victor Escobar David, mestre em sociologia política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), doutorando em ciências sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e professor de direito constitucional da Universidade Candido Mendes, explica que o eleitor brasileiro já entendia como uma fake news era criada.
Anteriormente, candidatos, cabos eleitorais ou até instituições produziam a notícia falsa. Logo em seguida, a mesma era disseminada nas redes sociais de maneira abrangente. No entanto, com a presença difundida de ferramentas de inteligência artificial, seja em seus próprios sites, redes sociais ou ferramentas de busca, fica mais difícil identificar o que é verdade e o que é mentira.
"A maior preocupação é que a IA pode ser induzida ou treinada para reproduzir informações que venham de fontes não confiáveis, sem que haja um crivo crítico de análise e verificação, ao mesmo tempo que essas informações passam a circular com um aparente grau de veracidade e autoridade em razão do nível de confiança entre o usuário e as plataformas que operam."
Para o especialista,
a premissa da IA, da geração de algo que parece confiável, traz a sensação de uma
isenção de manipulação. No entanto,
não é possível descartar que haja algum tipo de interferência nas eleições por meio do uso desse tipo de ferramenta.
Segundo David, a Justiça Eleitoral brasileira sempre teve dificuldade de fiscalizar a divulgação de notícias falsas, seja por meio de material impresso ou, mais recentemente, nas redes sociais. Ainda assim, o mestre em sociologia defende as ações do TSE diante da utilização da inteligência artificial nas eleições.
"Enxergo com muita positividade a proibição do TSE em relação à possibilidade de as ferramentas de IA indicarem e recomendarem candidatos, mesmo com a solicitação do usuário, porque seria mais do que uma forma de obtenção de informação política pelo eleitor, mas sim um direcionamento de votação a partir de critérios que não são claros, bem como por meio de plataformas operadas por empresas estrangeiras. Não haveria segurança contra possível influência dessas organizações nas eleições e na soberania brasileira."
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