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Tarifaço entra em caldeirão político e sombra dos EUA aparece sobre as eleições brasileiras

© Foto / Foto: Ricardo Stuckert / PRAnúncio à imprensa sobre a inauguração do Instituto Federal Goiano – Campus Catalão
Anúncio à imprensa sobre a inauguração do Instituto Federal Goiano – Campus Catalão - Sputnik Brasil, 1920, 02.06.2026
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Os Estados Unidos propuseram taxar em 25% algumas importações brasileiras alegando que Brasília adota práticas comerciais não razoáveis que "sobrecarregam ou restringem o comércio dos EUA". A medida pode trazer diferentes impactos, mas, segundo especialista ouvido pela Sputnik Brasil, "os EUA já não são tão importantes".
A conclusão preliminar da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), com base na Seção 301 da legislação norte-americana, foi divulgada ontem (1º), quase um ano após seu início, em julho de 2025.
Em nota publicada nesta terça-feira (2), o governo federal manifestou indignação com o resultado e atribuiu a condução "à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington". De acordo com o Planalto, tais "investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais".
lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e [Donald] Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares", disse o Planalto.
Além disso, o governo argumentou que nada justifica medidas unilaterais contra patrimônios brasileiros, como o caso do PIX. Para reforçar o repúdio às investidas norte-americanas contra o sistema de pagamentos brasileiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante agenda em Catalão (GO), apareceu segurando um cartaz com a frase escrita: "o PIX é do Brasil".
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Durante discurso no interior goiano, o presidente do Brasil ressaltou que as tarifas foram adotadas de forma intempestivas, durante negociações entre Brasília e Washington, baseadas em uma mentira.
"Eles alegam que têm déficit comercial com o Brasil e eles têm [...] em 15 anos US$ 415 bilhões de superávit comercial. E a segunda coisa que fiquei preocupado é porque o PIX assusta eles. Eu falei pra ele: 'Oh, Trump, oh cara, ao invés de ter medo do PIX, coloca o PIX para funcionar nos Estados Unidos. Faz um PIX para nós'."
Ainda na cidade, Lula também comentou as relações dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro com uma parte do governo norte-americano e os chamou de traidores da pátria.
"Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele, e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras", disse.
O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, tentou se desvencilhar das relações com as possíveis tarifas a serem aplicadas ao Brasil. Em publicação na rede social X, o parlamentar defendeu que "tarifar não é a solução". Em outra postagem, ele escanteou o tema e reforçou os encontros com Trump a partir da insistência em classificar organizações criminosas como terroristas.
Apesar de as negociações sobre as eventuais tarifas seguirem em curso e de que uma decisão concreta esteja prevista para meados de julho, a pauta já balançou o tabuleiro político interno a quase quatro meses das eleições.
À Sputnik Brasil, Alexandre Chaia, economista e professor de finanças do Insper e gestor da Carmel Capital, destaca que o movimento do governo norte-americano é resultado de um processo aberto no ano passado, portanto não está diretamente relacionado com a ida de Flávio a Washington.
Entretanto, conforme o especialista, "a ida do Flávio para tentar fugir da imagem do Vorcaro, tentar criar assuntos positivos, deu um gatilho para uma direita americana que estava meio adormecida por conta das falas do Trump em relação ao Lula", avalia.
Além disso, Chaia ressalta pressões de Big Techs contra o governo brasileiro, que podem aproveitar o momento para tentar cavar algum tipo de benefício.
Nesse sentido, ele avalia que "tudo isso está num caldeirão misturado", embora os "fatos não tenham a mesma origem", e que a direita, a partir dessa situação, pode tentar trazer algum tipo de influência na eleição.
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Ana Carolina Marson, professora e doutora em relações internacionais, afirma que os EUA têm em seu horizonte assuntos mais urgentes, como a guerra no Irã, não sendo o Brasil um assunto urgente para a política doméstica norte-americana. Porém, há o interesse de Washington nas terras raras brasileiras. Nesse sentindo, o tarifaço pode ser uma ferramenta para "pressionar o Brasil comercialmente e na própria questão do uso das terras raras", sugere.

Possíveis setores afetados e diversificação de parcerias

Segundo os especialistas, setores estratégicos como o de alimentos, incluindo carnes e frutas, além de aviação e mineração, estarão fora das tarifas, caso sejam concretizadas. Os principais alvos, por sua vez, são setores de calçado, maquinário e madeireiro.
Para Chaia, o impacto atualmente tende a ser menor se comparado ao ano passado, quando Trump lançou mão de tarifas contra vários países, inclusive contra o Brasil.

"Os Estados Unidos já não são mais tão importantes como quando começou a guerra tarifária do Trump. A gente já tem um acordo com a Europa, já melhorou com a China, a gente está ampliando para mais países na Ásia", analisa, ressaltando que neste momento as tarifas tem "mais um efeito psicológico do que efetivamente de uma tarifação".

No âmbito das negociações, ele avalia que o governo adota uma medida de não confrontação e tem seguido sem quaisquer retaliações ou embates diretos, ao passo que firma parcerias alternativas e "mostra para os Estados Unidos que se eles começarem a colocar uma tarifa tem o risco de ele perder mercado".
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Episódios como a ida de Lula à Casa Branca e a troca de elogios entre as lideranças passaram uma imagem de estabilidade nas relações entre Brasília e Washington, ainda que fossem conversas recentes. A visão sobre essa relação fica turva a partir do movimento que ganhou campo hoje. Isso porque, conforme ressalta Marson, é Trump quem está do outro lado, um presidente conhecido por ser instável.
"O fato da conversa ter sido bem sucedida foi um passo importante, foi um movimento inicial, mas Trump é uma pessoa que se coloca nessa posição de embate. O tempo todo ele fala que quer fazer as negociações a partir de uma relação assimétrica de poder".
Segundo a professora, ao fio e ao cabo, os Estados Unidos exploram a "política do grande irmão", que sempre foi feita em relação à América Latina.
"Agora nós vemos que o Donald Trump quer retomar essa relação de assimetria de poder."
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