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Análise: Milei aposta em setores onde 'não se geram empregos de qualidade nem em larga escala'

© AP Photo / Kena BetancurO presidente da Argentina, Javier Milei, discursa na Universidade de Yeshiva, em Nova York, em 9 de março de 2026
O presidente da Argentina, Javier Milei, discursa na Universidade de Yeshiva, em Nova York, em 9 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 10.06.2026
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O governo da Argentina explicitou sua aposta de que o crescimento dos setores mais dinâmicos da economia argentina, como agricultura, mineração e hidrocarbonetos, acabará por se estender a atividades atualmente em declínio, em um momento em que a produção industrial, o comércio e o consumo interno continuam abaixo dos níveis mínimos de desempenho.
Essa tese foi apresentada em um relatório do Banco Central, apresentado por seu vice-presidente, Vladimir Werning, que afirma que "a recuperação da atividade econômica se consolidará, abrangendo progressivamente outros setores". O documento reconhece que a primeira fase do ciclo tem "vencedores naturais", mas afirma que sua expansão gerará novas conexões.
Segundo a visão oficial, essas atividades demandarão insumos, infraestrutura, transporte, serviços urbanos, logística e mão de obra, criando oportunidades para fornecedores, pequenas e médias empresas, bem como para setores indiretamente ligados à produção primária, energética e de mineração em diferentes regiões do país.
A estratégia econômica se baseia em uma projeção de crescimento do PIB de aproximadamente 3,5% até 2026. No entanto, a própria avaliação oficial admite que esse crescimento não será uniforme, pois os setores exportadores crescerão a um ritmo muito mais acelerado do que a média, enquanto outros setores levarão mais tempo para se integrar à recuperação.
Dados do setor privado ilustram essa divergência. De acordo com a consultoria Ferreres & Asociados, em abril, o setor de petróleo e mineração cresceu 7,3% em relação ao ano anterior, impulsionado pela exploração da formação de xisto de Vaca Muerta e outros projetos extrativistas. O setor de eletricidade, gás e água cresceu 7,2%, enquanto o setor agrícola registrou alta de 3,6% devido à colheita.
Na outra ponta do espectro, a indústria manufatureira continuou sua persistente queda, contraindo 2%, com o comércio apresentando desempenho similar, de 2,4%. O relatório destacou quedas de até 17,5% na produção automotiva e 13,1% nos embarques de cimento, indicadores ligados à demanda interna e à construção civil. No caso do setor têxtil — um dos mais afetados —, a indústria tem quase 60% de sua capacidade instalada ociosa: as fábricas estão operando com menos da metade de suas máquinas.
O consumo em massa também não conseguiu consolidar uma recuperação. A consultoria Scentia informou que, em abril, as vendas em supermercados, lojas de conveniência, farmácias e bancas de jornal caíram 3,8% em relação ao ano anterior e 4,7% em comparação com março. Esses dados evidenciam a discrepância entre o crescimento setorial e a realidade diária das famílias.
O Banco Central afirma que o processo gradual de desinflação pode ajudar a restaurar a renda, melhorar a confiança do consumidor e ampliar o escopo da recuperação. Ressalta também que o menor risco-país e a expansão do financiamento corporativo podem se tornar um novo motor para o investimento privado.
O relatório oficial alerta, ao mesmo tempo, que as empresas terão que se adaptar a uma economia com inflação mais baixa e maior concorrência. Segundo a avaliação do Banco Central, a lucratividade dependerá mais do volume de vendas do que do aumento de preços, uma dinâmica diferente da que prevaleceu durante os anos de alta inflação.
Nesse contexto, surge a questão de saber se os setores exportadores serão capazes de funcionar como um motor suficiente para o restante da economia, dada a sua limitada capacidade de impulsionar o emprego e o comércio urbanos. O debate ocorre em um momento delicado para o governo, que busca demonstrar que a estabilização macroeconômica começa a se traduzir em um crescimento mais amplo, que se estenda para além das atividades ligadas aos recursos naturais.
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Eterno debate

"O termo 'teoria do gotejamento' não surgiu na Argentina, nem é uma invenção recente", disse o economista Martín Pollera à Sputnik. Segundo o consultor, a ideia parte do pressuposto de que "se setores como mineração ou hidrocarbonetos crescerem sem restrições, esse crescimento acabará por se disseminar para o resto da economia".
O especialista questionou essa lógica porque ela implica que "não é necessário nenhum tipo de política redistributiva, nenhum tipo de vínculo e nenhuma condicionalidade". Em sua visão, a abordagem pressupõe que "o Estado deve basicamente ficar de braços cruzados" e que "o mercado se encarregará" de distribuir os benefícios.
"O próprio fracasso do efeito cascata justifica mais cascata", afirmou Pollera, analisando precedentes argentinos. Segundo o economista, quando esses ciclos são observados, "a distribuição se torna muito mais regressiva, não menos", e, além disso, "não se gera emprego de qualidade nem em larga escala".
O debate suscita opiniões divergentes. Consultado pela Sputnik, o economista Eduardo Jacobs ofereceu outro ponto de partida: "A indústria argentina está atrasada há pelo menos 30 anos". Em sua visão, o crescimento do petróleo, gás e mineração "é uma bênção e não a raiz do problema", porque "o desenvolvimento industrial argentino está estagnado há décadas".
De acordo com o especialista, "a Argentina é um fracasso industrial em termos do que tem sido um modelo fechado e subsidiado, com altas barreiras tarifárias", afirmou Jacobs. Para o economista, o desafio atual é "fazer o setor industrial decolar agora" sob uma economia mais aberta e novas regras de concorrência.
Jacobs considerou que o processo envolverá "entrar em uma nova era" e passar por "uma reconfiguração massiva". Mesmo assim, alertou que "a indústria não liderará o processo de crescimento", pois esse papel se concentrará em setores com maior dinamismo exportador.
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Uma economia de 'duas velocidades'?

Pollera descreveu o cenário como uma economia em forma de "K": "Havia uma parte que estava crescendo" — mineração e hidrocarbonetos — e "o restante dos setores, como construção, comércio e indústria", que estavam em declínio. "Foi exatamente isso que acabou acontecendo", afirmou.
"Há um contraste entre o crescimento de setores altamente concentrados, como hidrocarbonetos e mineração, com forte crescimento, enquanto aqueles que geram mais empregos estão experimentando um declínio significativo", afirmou o consultor. Ele explicou que mineração, hidrocarbonetos e agricultura "continuarão a crescer fortemente", em contraste com os setores voltados para o mercado interno, que dependem de "consumo, salários reais e crédito interno".
O limite, para Pollera, está no emprego. "Estes são setores fundamentalmente intensivos em capital", afirmou ele em relação aos setores ligados aos recursos naturais, que "precisam de mais máquinas pesadas e tecnologia importada, mas de poucos trabalhadores". Portanto, disse ele, a relação entre investimento e emprego "tende a ser muito baixa".
Pollera contrastou esse perfil com o da indústria: "Emprega pouco mais de 1,2 milhão de pessoas" e tem "uma densidade territorial muito maior". No entanto, alertou que esses setores "não são os que, em última análise, se beneficiarão desse modelo, num contexto de câmbio sobrevalorizado e salários deprimidos".
Jacobs concordou com a diferença nas taxas de crescimento: "É muito razoável pensar que, nos próximos meses, veremos o setor relacionado a Vaca Muerta crescendo a um ritmo diferente, assim como a mineração". Simultaneamente, salientou que "a indústria começará a se recuperar, embora nem todos os setores consigam sustentar essa recuperação".
Segundo o economista, o processo será de reestruturação: "Começaremos a ver o setor industrial abastecendo certas partes do mercado interno", mas também "começará a adotar uma abordagem voltada para a exportação". Em sua visão, "a indústria não liderará o processo de crescimento".
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