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EUA revivem guerra às drogas sob roupagem de combate ao terrorismo, avaliam analistas

© AP Photo / Alex BrandonPresidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso do Estado da União em sessão conjunta do Congresso. Washington, D.C., 24 de fevereiro de 2026
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em discurso do Estado da União em sessão conjunta do Congresso. Washington, D.C., 24 de fevereiro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.06.2026
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Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que o atual governo dos EUA, ao alçar as facções de narcotráfico ao patamar de terroristas, faz o mesmo que Richard Nixon fez há 55 anos: usa o argumento de combate às drogas para subjugar a América Latina.
Em 18 de junho de 1971, o presidente norte-americano à época, Richard Nixon, declarou o uso de drogas como "inimigo público número um" e deu início à política global da guerra às drogas. Hoje, 55 anos depois, o governo dos EUA faz uma releitura dessa política de contenção, agora com a Casa Branca equiparando organizações de narcotráfico a grupos terroristas.
Mundioka #901 - Sputnik Brasil, 1920, 16.06.2026
Mundioka
A 'guerra às drogas' de Nixon está de volta?
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Thiago Rodrigues, professor de relações internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que a estratégia do governo Nixon, ao lançar a guerra global contra as drogas, era transportar a prática interna de repressão às populações mais vulneráveis e marginalizadas dos Estados Unidos para fora das fronteiras.

"Foi um momento em que a economia política do narcotráfico passou por uma transformação. Houve um crescimento exponencial de um mercado global de drogas ilícitas e, nesse contexto, Nixon viu uma oportunidade, digamos, de adicionar uma janela estratégica às políticas de exposição e de expansão do poderio e influência geopolíticos dos EUA."

Ele aponta que, na ocasião, o alvo principal da agenda de Nixon de expansão de poder era a América Latina, que hoje retornou ao radar do governo norte-americano por conta do avanço da influência da China. Diante disso, o governo Trump reativou a agenda de combate às drogas, aproveitando a estrutura montada para o combate ao terrorismo.
"Agora, a gente volta ao centro da agenda e volta colado à própria agenda da guerra contra o terrorismo, que, na verdade, é uma tática para poder fazer funcionar toda uma engrenagem repressiva que os EUA já têm montado, justamente por conta da guerra contra o terrorismo há 25 anos."
O presidente Donald Trump, ao lado do secretário de Estado Marco Rubio - Sputnik Brasil, 1920, 10.06.2026
Panorama internacional
Trump tem um lado: visita de Lula e Flávio na Casa Branca não são simétricas, ressalta analista
Nos Estados Unidos há duas classificações para organizações terroristas. Uma é "Terroristas Globais Especialmente Designados", que permite ações financeiras contra membros dos grupos e companhias que se relacionem com os acusados, e "Organizações Terroristas Estrangeiras", que permite ações judiciais contra indivíduos associados.
No caso brasileiro, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) foram classificadas na primeira, enquanto a segunda designação deveria ocorrer até 5 de junho, segundo o próprio secretário de Estado, Marco Rubio. No entanto, isso não aconteceu.
Segundo Rodrigues, isso sinaliza uma estratégia de pressionar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que deixa aberta uma janela para negociação. "Do tipo: 'Olha, a gente está namorando a ultradireita, como você sabe, e a gente tem a intenção de agradá-los, mas a gente pode chegar a algum acerto aqui e não incluir'."
Ele afirma ainda que, ao colocar narcotraficantes na mesma categoria que terroristas, os EUA agem como têm feito há pelo menos cinco décadas na América Latina: fazendo com que as dinâmicas de segurança interna de países da região sejam militarizadas.
Soldado faz guarda ao lado de muro marcado com a sigla CV, do Comando Vermelho, durante operação na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ) - Sputnik Brasil, 1920, 12.06.2026
Notícias do Brasil
Análise: mudar legislação para equiparar narcotráfico a terrorismo é criar 'Frankenstein jurídico'
Carlos Frederico Cinelli, professor visitante de direito internacional da Escola Superior de Defesa e da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), enfatiza que, em períodos eleitorais, o tema da segurança pública sempre volta ao debate e, dessa vez, vem "temperado" com a decisão do governo dos EUA sobre as facções brasileiras.
No entanto, ele frisa que se a militarização e ações intervencionistas fossem a solução, o Rio de Janeiro já teria "atenuado de modo significativo" a questão do enfrentamento do crime organizado.

"O que falta é colocar em perspectiva. Grupos como os que atuam no Oriente Médio são grupos armados não estatais, que conduzem as suas ações de violência com objetivos políticos, ideológicos, religiosos, sectários muito definidos."

Em contraponto, afirma o especialista, as organizações criminosas brasileiras têm como objetivo de suas ações o mero lucro financeiro, o acúmulo de riqueza.
Cinelli diz que as facções criminosas brasileiras não estão preocupadas com a classificação que receberão, pois isso "vai mudar zero o modo de atuação delas", e observa que há uma confusão em se tratar da mesma maneira os atos de terror gerados pelas facções de forma pontual para causar pânico momentâneo, como incendiar ônibus para impedir o acesso da polícia a comunidades, com a agenda construtiva do terrorismo de fato, que visa o uso de terror permanente contra a população.
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