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Com G7 menos econômico e mais político, Lula tenta influenciar decisões do grupo em prol do diálogo

© AP Photo / Julia Demaree NikhinsonO presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante participação na cúpula do G7, em Évian, na França, em 16 de junho de 2026
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante participação na cúpula do G7, em Évian, na França, em 16 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 17.06.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas repercutem a visita do presidente brasileiro a Évian, na França, local onde foi realizada a cúpula anual do G7. O petista realizou encontros bilaterais e buscou intensificar discussões pela reforma de organizações internacionais.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, encerrou nesta quarta-feira (17) sua participação na cúpula anual do G7, em Évian, na França. Na qualidade de convidada, a diplomacia brasileira atuou no evento na tentativa de promover diálogos sobre temas como mudanças climáticas e reforma das organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).
Lula fechou sua décima participação na cúpula desse fórum com uma coletiva de imprensa na qual, entre outros assuntos, destacou que o vácuo da presença de Estados Unidos e União Europeia em regiões emergentes permitiu que a China se mostrasse como um possível parceiro.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista coletiva na residência da missão permanente do Brasil junto às Nações Unidas. Genebra, Suíça, 17 de junho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 17.06.2026
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'Trump fala muito e ouve pouco': Lula critica ações dos EUA contra o Brasil
O presidente do Brasil também minimizou a ausência de uma reunião bilateral com Donald Trump, presidente dos EUA, a quem classificou como uma pessoa que "fala muito e ouve pouco". Lula também citou o fato de o empresário Elon Musk estar prestes a se tornar trilionário: "Não é normal".
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas repercutiram a presença de Lula no fórum, cada vez mais marcado por um posicionamento político e menos econômico, marca de fundação do grupo, reunindo as nações mais industrializadas da época.
Gustavo Glodes Blum, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de Campinas (Unicamp), conta que, desde a saída da Rússia do grupo, o caráter político tem crescido, permitindo que outros fóruns tenham maior importância no âmbito econômico que o G7.
"À medida que o G7 foi se tornando cada vez mais um fórum de construção de uma identidade política desses países que fazem parte do grupo, as declarações se tornaram mais contundentes, limitando a possibilidade do Brasil de se colocar em uma posição intermediária ou não se comprometer com determinados temas."
Para Blum, que está em Genebra, na Suíça, como pesquisador convidado do Geneva Graduate Institute, é importante destacar em que papel o Brasil está participando das reuniões do G7. Enquanto convidado, Lula não tem o poder da caneta, mas tenta exercer o poder do discurso.

"A participação enquanto convidado, de fato, busca influenciar, mas não tem capacidade de decisão. Então, à medida que essas reuniões mais restritas vão se tornando mais a regra, o que resta ao Brasil, de uma forma ou de outra, é tentar influenciar os resultados, ainda que não em uma posição de um dos Estados-membros que têm capacidade de definir como que esses processos vão acontecer."

Carolina Pavese, professora de relações internacionais no Instituto Mauá de Tecnologia, acredita que o G7 tem se afastado cada vez mais de um fórum no qual discussões relevantes são abordadas em sua cúpula. Para a especialista, o encontro anual passou a ser "um rito diplomático, um protocolo da agenda" dos presidentes e premiês do grupo.

"É um encontro elitista, no qual se reforça uma perspectiva muito autocentrada dessas grandes potências em relação à identificação que fazem das prioridades globais e também em relação à identificação de como endereçar essas prioridades. E as respostas tendem — e nesse G7 confirmou-se isso novamente — a ficar muito longe do que de fato se precisa para atender às necessidades de todos os outros países que não estão ali presentes."

Para Pavese, a grande importância do G7 para o Brasil são os encontros bilaterais, nos quais o país tem a chance de "reiterar seus votos de interesse, de credibilidade, de aposta nessas relações com essas lideranças mais próximas". É nesses momentos do um contra um que há oportunidades para conversas mais diretas e incômodas, como as imposições comerciais da União Europeia às exportações brasileiras, avalia a professora.

"O G7 deveria ser um fórum mais informal, um encontro de um petit comité, o que facilita as deliberações também. Se tem muita gente, fica difícil você ir a fundo nas negociações ou na exposição das suas agendas, e o G7 deveria ser esse espaço, mas, quando se omite a discussão de pontos críticos e de questões em que não há um consenso, como é a questão do protecionismo, ele perde um pouco a sua função."

Mark Carney se reúne com Ursula von der Leyen e António Costa na cúpula do G7 em Évian-les-Bains. França, 15 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.06.2026
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Afastada dos EUA, Ucrânia busca diálogo até com Brasil

Sem um apoio de Trump similar ao que recebia de Joe Biden, Vladimir Zelensky tenta variar seu portfólio de contatos com líderes internacionais. O mandatário do regime de Kiev encontrou Lula nesta quarta-feira em uma reunião bilateral para discutir a operação militar especial russa.
Blum é categórico ao afirmar que esse tema não tem importância para a pauta do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que prefere se manter neutro e defender o diálogo entre nações, sejam elas quais forem.

"O Brasil não tem interesse [em discutir a operação], como já esteve interessado, por exemplo, na questão iraniana, de se apresentar como um mediador. Não é esse o interesse do Brasil."

Já para outros países do G7, como os Estados Unidos, é importante que se encontrem logo termos para um cessar-fogo, enquanto a União Europeia enxerga o conflito como uma forma de reviver a indústria bélica do continente e, assim, impulsionar a economia às custas de Kiev.

"A recuperação do complexo industrial-militar europeu é uma solução macroeconômica para essa estagnação. Então seriam mais empregos gerados, seria um fator multiplicador da economia importante, tanto que vários países, como a Alemanha, a própria Suíça, estão rediscutindo o serviço militar, a obrigatoriedade do serviço militar. Então, colocar esses jovens que não têm emprego na indústria militar ou no próprio Exército geraria uma resposta multiplicadora econômica, em termos macroeconômicos, muito boa para resolver essa estagnação."

Na visão de Blum, o apoio dos europeus aos ucranianos não passa apenas por uma questão ideológica, mas sim por um grande interesse nas diferentes formas que a Ucrânia pode impulsionar a economia europeia.

"A entrada de uma Ucrânia produtora de trigo na União Europeia facilitaria questões como a inflação dos alimentos, principalmente, que é uma questão que tem pressionado bastante o continente ultimamente. Mas também, se a gente for pragmático e cínico, a guerra na Ucrânia representa para a Europa a desculpa perfeita para recuperar o seu complexo industrial-militar."

'Não existe filantropia no sistema internacional'

Durante o discurso, após a conclusão da participação brasileira no G7, Lula pediu que os países mais ricos diminuíssem os investimentos em armas para focar esses recursos no combate à pobreza global e em investimentos em regiões emergentes, como África e América Latina.
"O primeiro-ministro alemão [Friedrich Merz] chegou a dizer que ele está gastando 15 bilhões de euros por ano com a guerra da Rússia-Ucrânia. Esse dinheiro poderia ser investido na América Latina. Não vou nem dizer para o Brasil, mas investido na América Latina, na África."
Pavese vê esse discurso como "repetitivo", "vazio" e "de púlpito". A professora destaca que não existe filantropia no sistema internacional, inclusive em órgãos multilaterais como a ONU, que "tendem a ser controlados pelos Estados".
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