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Avanço sem abrir mão da soberania: o que a nova fábrica de mísseis da SIATT representa para o Brasil?

© Foto / Agência Marinha de NotíciasUnidade do Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), projeto para a Marinha do Brasil
Unidade do Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), projeto para a Marinha do Brasil - Sputnik Brasil, 1920, 19.06.2026
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Em meio ao avanço dos investimentos globais em defesa e ao aumento das tensões geopolíticas, o Brasil está aumentando sua Base Industrial de Defesa graças a parcerias externas.
Em entrevista à Exame, Rodrigo Torres, diretor financeiro do EDGE Group, multinacional emiradense que possui 50% da SIATT, empresa brasileira de tecnologia de defesa, afirmou que o grupo vai ampliar sua capacidade de produção até o fim do ano, com a inauguração da maior fábrica de mísseis da América Latina, em Caçapava (SP).
Com foco no atendimento a demandas das forças armadas brasileiras e do exterior, um dos principais produtos será o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), desenvolvido para a Marinha do Brasil como um dos programas estratégicos da indústria nacional de defesa; e o MANSUP-ER, versão de maior alcance que pode ser utilizada em diferentes plataformas militares.
Com alto índice de nacionalização, o armamento busca reduzir a dependência de componentes estrangeiros e ampliar a autonomia tecnológica brasileira.
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À Sputnik Brasil, o professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Rubens de Siqueira Duarte explica que a parceria entre a SIATT e o EDGE se encaixa na estratégia de diversificação de parceiros do Brasil em defesa, em especial com países que não são tradicionalmente alinhados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Outros exemplos são as duas joias da aviação militar brasileira, o caça F-39E/F Gripen e o cargueiro KC-390. A aeronave de transporte é fruto de cooperação com vários países, muitos deles fora da OTAN, e o acordo com a sueca Saab para o desenvolvimento do Gripen ocorreu quando Estocolmo ainda não fazia parte da OTAN.
Para Paulo Henrique Montini, pesquisador do grupo de pesquisa Estatística Aplicada e Computacional do Departamento de Estatística da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), esse tipo de cooperação fortalece a indústria de defesa brasileira, permitindo acesso a recursos e tecnologia sem abrir mão do controle sobre áreas estratégicas.
Segundo Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Conflitos, Estratégia e Inteligência da ECEME, a independência completa em defesa envolveria custos elevados e grandes desafios para acompanhar a fronteira tecnológica mundial. Por isso parcerias do tipo são importantes. "Áreas sensíveis, como as que o Brasil possui, não podem ser simplesmente compradas por qualquer um no mercado hoje."

"O que se deve fazer é a cooperação com vistas a não perdermos o controle dessas tecnologias críticas, enquanto se abre o Brasil para participar das cadeias globais de fornecimento, com vistas a captar recursos para financiar nossa indústria de defesa."

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Para além de resultados no âmbito militar, investimentos na defesa geram impactos em diferentes setores da economia, e muitas vezes é nesse lado civil que as empresas devem se apoiar. Foi o caso da Embraer, que superou desafios em seu caixa ao desenvolver produtos para a aviação civil.
No caso da SIATT, Montini avalia que a empresa pode exercer papel semelhante ao criar os chamados "efeitos de transbordamento tecnológico", em especial para mercados de alta tecnologia, como o aeroespacial.

"Ela pode produzir produtos como sensores, inteligência artificial, eletrônica embarcada, navegação, telecomunicações."

Dessa forma, parcerias internacionais podem ajudar a manter conhecimento e capacidade produtiva no país, desde que acompanhadas por políticas públicas de incentivo à inovação, como programas de pesquisa, bolsas de estudo e apoio à criação de startups.
Duarte, que também é coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), compartilha à Sputnik Brasil uma visão semelhante.
Para ele, enquanto a nova fábrica é um grande passo para o Brasil, até mesmo em termos geopolíticos, dado o acirramento das tensões mundiais, é preciso acompanhar ações do tipo com investimentos na reindustrialização do país, com foco específico em pesquisa e tecnologia de ponta, assim como uma recuperação do ensino público universal.

"Essas medidas estruturantes são necessárias para evitar que o investimento na Base Industrial de Defesa não seja perdido no médio ou longo prazos."

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