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Parcerias externas, digitalização e divergências internas: os desdobramentos da cúpula do Mercosul

© Sputnik / Leonardo SobreiraA 68ª Cúpula do Mercosul em Assunção, no Paraguai
A 68ª Cúpula do Mercosul em Assunção, no Paraguai - Sputnik Brasil, 1920, 30.06.2026
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Cúpula no Paraguai destaca expansão de parcerias internacionais e modernização do Mercosul, enquanto diferenças políticas e econômicas limitam avanços internos.
Nesta terça-feira (30), a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul terminou em Assunção, no Paraguai, após uma agenda marcada por avanços técnicos, debates sobre maior integração regional entre países-membros e associados, redução de assimetrias e ampliação das parcerias externas do bloco. O encontro também marcou os 35 anos do Tratado de Assunção, acordo que deu origem ao Mercosul em 1991.
Anteriormente, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmaram que a falta de consenso entre os Estados-membros fez o bloco priorizar parcerias externas, a fim de diversificar as suas relações comerciais e ter maior inserção internacional.
Isso se refletiu na assinatura do acordo com a União Europeia e também nas negociações de acordos de livre comércio com os Emirados Árabes Unidos e países do continente asiático, entre eles China, Japão e Coreia do Sul.
Foto oficial da 68ª cúpula do Mercosul, em Assunção, no Paraguai - Sputnik Brasil, 1920, 29.06.2026
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À Sputnik Brasil, Larissa Silva, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI/UERJ), afirmou que as negociações anunciadas durante a cúpula reforçam a relevância do Mercosul no cenário internacional, em um contexto marcado por uma crise do multilateralismo e pelo aumento da desconfiança em instituições internacionais. "Não dá para tirar isso que está acontecendo com o Mercosul desse panorama muito maior do cenário internacional, que é essa crise do multilateralismo", afirmou.
Segundo a pesquisadora, o bloco vive um momento simultâneo de fortalecimento e fragilidade. Por um lado, avanços como as negociações com a União Europeia e o Japão demonstram que o Mercosul mantém capacidade de articulação externa. Por outro, divergências políticas, econômicas e comerciais entre os países-membros dificultam a construção de consensos e limitam novos avanços internos. "A gente tem essas divergências entre os países-membros em temas comerciais, políticos, e isso acaba dificultando a construção de consensos", explicou.
Apesar dos desafios, a internacionalista avalia que o momento atual não representa uma crise apenas do Mercosul, mas uma fase de fragilidade diante das mudanças no cenário global. Em outras palavras, o bloco continua relevante, mas precisa superar suas divisões internas para transformar os avanços externos em maior integração regional.
Silva ressalta que, das medidas anunciadas no evento, a incorporação do setor automotivo às discussões do Mercosul e os avanços na agenda digital estão entre os pontos de maior destaque. A integração do setor produtivo pode, ao seu ver, reduzir barreiras comerciais dentro do bloco, fortalecer cadeias regionais e gerar impactos econômicos, como aumento da circulação de produtos e criação de empregos.
Em destaque, a digitalização é uma das áreas com maior potencial de transformar o funcionamento do Mercosul. Para ela, iniciativas como o reconhecimento de identidades digitais e a modernização de processos comerciais podem reduzir burocracias, facilitar operações de empresas e melhorar a circulação de cidadãos entre os países-membros.
Ao dar exemplos, ela cita medidas como a emissão digital de certificados de origem, que pode contribuir para baratear processos de exportação e importação e fortalecer a integração econômica do bloco.
"Eu acho que a agenda digital é uma das mais interessantes, porque ela consegue reduzir burocracias, facilitar negociações, condução de negócios e tornar a integração regional muito mais funcional no dia a dia."
Em outros tópicos como o Pix e terras raras, a pesquisadora avalia que podem representar caminhos estratégicos para ampliar o papel do Mercosul além da agenda comercial tradicional.
A integração digital, especialmente por meio de sistemas de pagamentos regionais, pode reduzir custos, facilitar transações e modernizar a integração econômica entre os países-membros. "Se conseguissem utilizar o Pix, por exemplo, para pagamentos regionais, seria muito interessante porque abre espaço para reduzir custos, facilitar transações e modernizar a integração econômica desses países", afirmou.
A cooperação em minerais críticos — como terras raras — também foi apontada pela pesquisadora como uma área estratégica diante da disputa global por recursos essenciais ao desenvolvimento tecnológico e à transição energética. Ela pontua que uma atuação coordenada entre os países do Mercosul poderia fortalecer cadeias produtivas regionais, ampliar a autonomia do bloco e aumentar sua relevância no cenário internacional.
"A cooperação em minerais críticos é muito importante, ela não pode ser deixada de lado", explicou. Para a pesquisadora, o avanço nessa área pode transformar o papel do Mercosul, mas depende da capacidade de diálogo entre os governos e da construção de estratégias conjuntas entre os países-membros.
Líderes de Estado em foto oficial da reunião do Mercosul, realizada no Paraguai, em 30 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 30.06.2026
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Assimetria entre membros

Um dos pontos abordados também foi como reduzir a assimetria entre os países-membros do Mercosul. O atual presidente do bloco, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, argumentou que a condição geográfica do país exige tratamento diferenciado, julgando que o acordo de livre comércio firmado aprofunda essas diferenças.
"Sendo um país sem saída para o mar, isso nos impõe uma assimetria que deve ser corrigida como questão de justiça. O Mercosul tem que permitir que o Paraguai cresça", disse Peña.
A internacionalista destaca que as divergências entre os governos sobre temas como integração regional, política externa e comércio dificultam a construção de consensos — elemento central para o funcionamento do Mercosul. Segundo ela, enquanto alguns países defendem maior autonomia para negociar acordos bilaterais, outros defendem a preservação de uma atuação conjunta do bloco.
"Hoje a gente tem governos com visões muito distintas sobre a própria integração regional, sobre política externa e, consequentemente, sobre comércio, que são as bases do Mercosul", explicou, dizendo que essas diferenças acabam impactando a capacidade do bloco de avançar em novos acordos e mudanças estruturais.
"A gente não consegue falar em avanços, em mudanças, em grandes acordos do Mercosul quando não tem consenso", afirmou, destacando que os desafios econômicos e políticos estão entre os principais obstáculos para o fortalecimento da integração regional.
Embora o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem, no acrônimo em espanhol) possa ser um caminho para ajudar na redução das desigualdades dentro do bloco, esse não seria o único instrumento necessário ou, como avalia Silva, "sozinho não faz milagre". O fundo foi um dos pontos abordados pelos chefes de Estado durante a cúpula e recebeu um aporte brasileiro de US$ 100 milhões (cerca de R$ 517 milhões) para financiar projetos voltados à redução das assimetrias entre os países-membros.
Para a pesquisadora, o Focem tem um papel importante por financiar infraestrutura e contribuir para uma integração regional mais forte e coesa. No entanto, ela destaca que as diferenças dentro do Mercosul são estruturais e envolvem fatores que vão além da infraestrutura.
A internacionalista avalia que o fundo tem potencial para reduzir parte das desigualdades, mas defende a criação de outros mecanismos complementares para enfrentar diferenças históricas entre os países. "Ele tem potencial, mas a gente precisa também de outras ferramentas que consigam trabalhar essas questões estruturais", explicou.
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