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China reaparece na agenda do Mercosul, mas obstáculos permanecem, afirmam especialistas

© Foto / X / @mercosurO Presidente do Paraguai, Santiago Peña, durante a Cúpula do Mercosul em Assunção, junho de 2026
O Presidente do Paraguai, Santiago Peña, durante a Cúpula do Mercosul em Assunção, junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 02.07.2026
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Ao assumir a presidência do Mercosul, o Uruguai busca retomar as negociações com a China, que mantém seu interesse em um acordo comercial com a região. Especialistas consultados pela Sputnik indicaram que Pequim pode não querer perder terreno para a União Europeia (UE), embora a resistência do Brasil continue a dificultar um acordo.
Embora a possibilidade de um acordo comercial entre o Mercosul e a China venha se arrastando, com altos e baixos, há uma década, o retorno do Uruguai à presidência pro tempore do bloco regional até o início de 2027 promete recolocar o comércio com o gigante asiático na agenda.

Durante a reunião dos ministros das Relações Exteriores do bloco, o ministro uruguaio, Mario Lubetkin, reafirmou o compromisso de Montevidéu em continuar as negociações com Pequim. "Promoveremos o Diálogo Mercosul-República Popular da China, como temos feito em outras ocasiões", declarou.

De fato, o fórum anunciado pelo ministro das Relações Exteriores do Uruguai é uma iniciativa que surgiu em 1997 para centralizar as negociações entre a China e o bloco sul-americano. Embora os encontros tenham começado como eventos anuais, passaram-se 14 anos entre a quinta e a sexta rodada de diálogo, e seis anos entre essa rodada e a mais recente, realizada em 2024. Assim como a planejada para 2026, as duas últimas edições ocorreram em Montevidéu, reafirmando o papel do Uruguai como vanguarda das negociações entre o Mercosul e a China.
Contudo, o governo uruguaio não estava sozinho em suas intenções durante a última cúpula. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva aceitou o desafio e expressou seu desejo de que Pequim se junte aos acordos comerciais que o bloco sul-americano está negociando atualmente.

"O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nessa cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta", declarou o presidente brasileiro.

A possibilidade de negociar com a China chegou a ser levantada pela imprensa junto ao ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, que reconheceu que seu país "não se opõe ao estabelecimento de relações comerciais com a China", mas esclareceu que só participará se Pequim não se opuser à relação diplomática que Assunção mantém com Taiwan.
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O interesse chinês ainda persiste?

Em entrevista à Sputnik, o analista internacional uruguaio Nicolás Pose destacou que o interesse em negociar com o Mercosul permanece na agenda do governo chinês e pode aumentar à medida que o bloco sul-americano avança em outros acordos comerciais com outros mercados.

"À medida que outras economias começam a negociar acesso livre de tarifas ao Mercosul, como a União Europeia, o Canadá e, em breve, o Japão, a pressão certamente aumentará na China para evitar perder terreno em termos de acesso relativo", explicou o analista.

Pose enfatizou que, embora o Mercosul possa não ser o principal parceiro comercial da China, a nação asiática desejará "manter condições de acesso que, no mínimo, se igualem às de seus concorrentes".
De fato, apesar da resistência do Brasil e da Argentina, que em diferentes momentos bloquearam o avanço de um acordo com a China dentro do bloco, os últimos sinais recebidos pelo Uruguai de Pequim indicam que o governo de Xi Jinping permanece otimista quanto ao avanço das negociações.

Em fevereiro de 2026, o presidente uruguaio Yamandú Orsi reuniu-se com Xi Jinping em Pequim e assinou uma declaração na qual os líderes "destacaram sua aspiração pelo início iminente de negociações para um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a China". Esse interesse foi reafirmado em junho pelo embaixador chinês em Montevidéu, Huang Yazhong, que, após uma reunião com líderes empresariais uruguaios, elogiou o "enorme potencial" do comércio entre as duas regiões e declarou em sua conta nas redes sociais: "Aguardamos com expectativa o progresso no diálogo entre a China e o Mercosul".

Segundo Pose, o papel proativo do Uruguai no fomento das relações com a China dentro do Mercosul decorre do fato de que, diferentemente do Brasil ou da Argentina, o país não sofre com "a sensibilidade associada à abertura à importação de bens industriais", sensibilidade essa que existe nos setores industriais das economias brasileira e argentina.

"É bastante lógico que, para um país como o Uruguai, a China seja uma opção atraente, porque existem ganhos potenciais em termos de acesso ao mercado, e os custos de abertura são muito menores do que em economias com estruturas de produção diferentes, como a do Brasil", afirmou.

Obstáculos não resolvidos

Mas, apesar disso, Pose permanece pessimista quanto à possibilidade de um acordo de livre comércio prosperar em um futuro próximo.

"Há elementos de economia política que nos levam a crer que a prioridade do Mercosul estará em outro lugar", afirmou o especialista, observando que "avançar nas negociações com o Japão parece muito mais viável em termos políticos do que progredir com a China".

Embora reconheça que a China é inegavelmente o principal parceiro comercial da região, principalmente para exportações, o bloco sul-americano continua a ser assolado pela ameaça de "abertura dos mercados manufatureiros do Mercosul à entrada de produtos industriais chineses sem tarifas".
Nesse sentido, Pose reconheceu que "o ritmo do que é politicamente possível para a agenda externa do Mercosul é ditado pela evolução das preferências da indústria manufatureira brasileira", portanto, apesar das palavras do presidente Lula na cúpula do Mercosul, a China continua sendo o principal alvo da "resistência" do setor industrial brasileiro.
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Consultado também pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Mario Paz Castaing explicou que persistem significativas "contradições" no Brasil entre o setor de exportação agrícola, que exige acordos que permitam a comercialização de seus produtos na China sem tarifas ou cotas de mercado, e "outros setores produtivos mais alinhados à direita, que se opõem a isso".
Diante desse cenário, o especialista apontou que as eleições presidenciais brasileiras em novembro — com o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principais candidatos — podem determinar a futura posição de Brasília em relação à liberalização comercial do Mercosul.

"A geopolítica e a geoeconomia também estão em jogo dentro do Mercosul. A geopolítica influencia e afeta as ações dos países-membros e, embora a maioria dos governos que atualmente dominam a região mantenha uma relação fluida com os EUA, a relação da China com os líderes mais importantes da região é inegável", afirmou Paz Castaing.

Segundo o analista, o Mercosul não está imune a essas tensões internacionais entre Washington e Pequim, sendo possível que os membros do bloco encontrem parceiros comerciais com menor custo político em outros mercados asiáticos, como Japão, Vietnã ou Cingapura, entre outros.
"Acredito que, dado o atual momento geopolítico e considerando que a Ásia precisa do que o Mercosul produz e exporta para o mundo, essa seja a forma de buscar mercados alternativos e se posicionar", acrescentou.
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