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Do Pix à transição energética: como Brasil e Índia aprofundam cooperação em setores estratégicos

© AP Photo / Manish SwarupPresidente Luiz Inácio Lula da Silva é recebido pelo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, durante visita oficial, em 21 de fevereiro de 2026
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Símbolo da democratização dos serviços bancários e responsável por criar o maior sistema de pagamentos instantâneos do mundo, a Índia serviu de inspiração para a criação do Pix no Brasil com o UPI. Relativamente recentes, como as relações entre os dois países passaram a impulsionar áreas estratégicas nos mais diversos setores?
Com relações diplomáticas iniciadas após a independência do então Império Britânico, em 1947, as trocas comerciais entre Índia e Brasil só começaram a se intensificar na década de 1990. A primeira visita de um presidente brasileiro a Nova Deli ocorreu apenas em 1996, quando o então líder Fernando Henrique Cardoso foi convidado de honra para as celebrações do Dia da República da Índia. Ao longo dos anos, os dois países atuaram ativamente na criação de fóruns de cooperação do Sul Global, como o BRICS, e o país asiático serviu de inspiração para a implantação de um dos maiores feitos do sistema bancário nacional: o Pix.
Já a partir de 2020, a consolidação de novos acordos estratégicos elevou a balança comercial entre os dois países a níveis recordes, chegando a US$ 15 bilhões (R$ 76,6 bilhões) no ano passado. Pelo lado brasileiro, os principais produtos vendidos para a Índia são petróleo bruto, minério de ferro e açúcar, enquanto importa fertilizantes, petróleo refinado e produtos para a indústria farmacêutica.
A professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marianna Albuquerque explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que o Brasil e a Índia ainda não possuem um mercado integrado em termos de rotas comerciais, porém há interesse dos dois países em ampliar essa conectividade. "Isso não passou despercebido nem a um lado nem ao outro sobre o potencial do mercado, dadas as complementaridades. E não é só no comércio", acrescenta.
Aliado a isso, a especialista pontua que as recentes políticas tarifárias dos Estados Unidos, que historicamente representam um importante parceiro comercial para ambos, ajudam a mostrar a importância da diversificação dos parceiros.

"Então, o Brasil busca abrir novos mercados e a Índia, com 1,5 bilhão de habitantes, é uma região óbvia. Para a Índia, é muito importante fazer essa aproximação, principalmente porque o Brasil tem a capacidade de substituir uma parte da pauta importadora que vem da China. E, para a Índia, ter dependência da China na área comercial é muito mais complicado do que é, por exemplo, no caso do Brasil, porque eles têm questões diplomáticas e territoriais mais graves", justifica.

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Cooperação tecnológica em alta

Ao longo do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dirigente brasileiro teve encontros com o primeiro-ministro Narendra Modi nas cúpulas do BRICS e do G20, além da visita do líder indiano ao Brasil, em 2025. O último encontro ocorreu em fevereiro deste ano, quando Lula levou uma extensa comitiva, incluindo ministros, autoridades e empresários, em uma viagem oficial para Nova Deli, a convite de Modi.
Na ocasião, foram firmados ao menos oito acordos e memorandos em áreas como minerais críticos, tecnologia e saúde, além de ser negociada uma meta ambiciosa para o comércio bilateral: atingir a marca de US$ 30 bilhões (R$ 153,1 bilhões) em trocas comerciais até 2030. Entre os destaques, a professora da UFRJ cita o setor de inteligência artificial, que vive uma expansão acelerada na Índia e pode superar um mercado de US$ 500 bilhões (R$ 2,5 trilhões) nas próximas décadas.
"Mas também não apenas isso, a Índia tem um interesse muito grande em aprofundar seu sistema de infraestrutura pública digital e isso é algo que temos uma capacidade instalada no Brasil. Os dois países trocam muito nessa área de digitalização de serviços públicos, mas a pauta que tem se destacado nas últimas conversas e encontros é a transição energética e os minerais críticos. Ambos enxergam na contraparte um parceiro prioritário", explica.
Segundo Albuquerque, tanto o Brasil quanto a Índia defendem que países em desenvolvimento tenham condições diferenciadas para cumprir metas climáticas, com acesso a financiamento internacional e prazos mais amplos para reduzir emissões. Ao mesmo tempo, a especialista avalia que o Brasil tende a assumir um papel cada vez mais relevante como fornecedor de minerais críticos e terras raras, insumos considerados essenciais para a expansão de tecnologias limpas.
"Enquanto o Brasil possui uma matriz energética mais baseada em fontes renováveis, a Índia ainda depende fortemente do carvão e do petróleo. Para acelerar a eletrificação da economia, o país precisa desses minerais, que hoje são fornecidos principalmente pela China. Nesse contexto, o Brasil aparece como um parceiro estratégico", afirma.
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Defesa prioriza tecnologia e troca de conhecimento

Outro eixo que vem se consolidando é a cooperação em defesa. A relação entre os países remonta à década de 1960, quando Brasil e Índia firmaram acordos de cooperação nuclear voltados ao uso pacífico da tecnologia. Hoje, segundo Albuquerque, ministros, autoridades e representantes dos dois governos realizam encontros frequentes para discutir temas ligados à inovação tecnológica, à indústria de defesa e ao intercâmbio de conhecimento.
Na avaliação de Albuquerque, a expansão da indústria de defesa indiana abre espaço para ampliar a cooperação comercial com empresas brasileiras. "O Brasil já possui uma indústria de defesa consolidada, além de empresas reconhecidas internacionalmente na área aeronáutica. Existe espaço para ampliar essa cooperação, tanto do lado brasileiro quanto do indiano", afirma.
Já o doutorando em relações internacionais e pesquisador do boletim Geocorrente Eduardo Mangueira lembra ao podcast Mundioka que Brasil e Índia veem grande potencial de cooperação no setor por meio do desenvolvimento de acordos na área de vigilância marítima, dada a extensa faixa litorânea dos dois países.
"Seria algo muito benéfico, já que o Brasil conta com um sistema de gerenciamento da Amazônia Azul, enquanto a Índia estabeleceu o Centro de Difusão de Informações do Oceano Índico. Nesse sentido, acredito que poderiam cooperar na transferência de conhecimento para, quem sabe, fomentar um centro de vigilância no Atlântico Sul para maior segurança marítima, inclusive do comércio", argumenta.
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Mercado indiano amplia oportunidades para o agronegócio brasileiro

Além dos setores de tecnologia e defesa, Albuquerque avalia que a Índia também representa uma importante porta de entrada para ampliar a presença da agricultura brasileira no mercado asiático, já que o país figura entre os maiores consumidores de alimentos do mundo. Embora possua forte produção agrícola, a demanda interna abre espaço para ampliar as exportações brasileiras.
Segundo a professora, as oportunidades vão além das commodities tradicionais. Um dos mercados com maior potencial é o de lácteos, já que grande parte da população hindu não consome carne bovina, mas mantém elevada demanda por leite e derivados. "Também existe um grande mercado de genética animal entre o Brasil e a Índia, principalmente de gado Nelore, que é uma raça proveniente da Índia e que se adaptou muito bem aqui no Brasil", complementa.
Albuquerque destaca ainda que uma presença mais robusta no mercado indiano pode facilitar o acesso brasileiro a outras economias asiáticas. Para isso, a Índia conta com corredores logísticos consolidados que conectam países como Nepal, Butão, Cazaquistão e Tajiquistão, localidades com as quais a relação comercial brasileira é praticamente nula. "Seria também uma possibilidade grande de o país utilizar a Índia como um hub para ampliar a sua presença no mercado asiático", pontua.

Índia é considerada a 'farmácia do mundo'

Com a produção de mais de 50% dos medicamentos genéricos consumidos globalmente, a Índia passou a ser conhecida como a "farmácia do mundo". Para isso, o Brasil teve um papel essencial, apoiando a flexibilização de patentes junto à Organização Mundial da Saúde (OMS), o que permitiu o desenvolvimento dessa indústria, pontua Albuquerque.
Para a especialista, a complementaridade entre os dois países no setor passa pelo compartilhamento de insumos e matérias-primas considerados estratégicos para reduzir a dependência de mercados concentrados.
"Um dos acordos que foi assinado nessa última visita do Lula à Índia foi exatamente na área farmacêutica. O Mercosul e a Índia possuem um acordo de facilitação de comércio e eles estão negociando para expandir esse acordo para um acordo de livre comércio. [...] Um dos pilares do acordo é exatamente a área farmacêutica", conclui.
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