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'Contraponto regional': por que os EUA apoiam o programa nuclear saudita?

© AP Photo / Evan VucciO presidente dos EUA, Donald Trump, aperta a mão do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, durante reunião bilateral em Riad
O presidente dos EUA, Donald Trump, aperta a mão do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, durante reunião bilateral em Riad - Sputnik Brasil, 1920, 12.08.2026
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Especialistas ouvidos pelo Mundioka avaliam que acordo busca fortalecer Riad ante o Irã e conter a influência de Rússia e China no Oriente Médio, enquanto a monarquia árabe amplia suas alternativas de defesa com Paquistão e Turquia.
Durante a guerra contra o Irã, que se torna cada vez mais um atoleiro para Washington, algo surpreendente aconteceu: os Estados Unidos e a Arábia Saudita firmaram um acordo de cooperação nuclear civil, o que abre caminho para o enriquecimento de urânio pela monarquia árabe.
Com duração de 30 anos, o acordo trata do desenvolvimento pacífico de tecnologias atômicas, como a medicina e a energia.
Em comparação, há apenas uma nação nuclear no Oriente Médio: Israel, que argumenta por décadas que nenhum país da região deveria ter capacidades de enriquecimento; Tel Aviv, junto com Washington, atacou Teerã sob a justificativa de não permitir à nação persa ter um dispositivo nuclear — o que este país nega.
Em paralelo, Riad assinou um pacto de defesa com o Paquistão e a Turquia na última sexta-feira (7), o "Acordo Conjunto de Defesa de Meca", que prevê defesa coletiva caso qualquer um dos três países seja atacado. O acordo é firmado em meio à crescente instabilidade no Oriente Médio e a dúvidas sobre a confiabilidade dos EUA como garantidor de segurança na região.
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Teerã, não, Riad, sim

Ouvida pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, a pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), da Escola de Guerra Naval (EGN), Maria Clara Schneider, aponta que o avanço no acordo nuclear entre Washington e Riad reforça a presença norte-americana em uma região com forte disputa por influência.
Em especial, destaca, Rússia e China representam concorrentes estratégicos, inclusive no setor nuclear, por meio de suas empresas estatais capazes de oferecer projetos e tecnologias a países do Oriente Médio.

A Rosatom, estatal russa, tem projetos de usinas nucleares conjuntas com Egito, em El Dabaa; com Turquia, em Akkuyu; e com Irã, em Bushehr. Já a China possui forte cooperação com o Paquistão, tendo ajudado a desenvolver usinas em Karachi e Chasma.

Nesse cenário, a aproximação nuclear com Riad é uma forma de evitar que a Arábia Saudita recorra a Moscou ou Pequim para desenvolver sua infraestrutura nuclear, fazendo com que Washington não perca espaço na relação com um de seus grandes aliados.
Ao mesmo tempo, o acordo oferece uma vantagem significativa à Arábia Saudita. Embora os Estados Unidos já tenham firmado acordos de cooperação nuclear civil com outros países sob a chamada Seção 123 da Lei de Energia Atômica, os termos negociados com Riad podem contemplar a futura instalação de estruturas de enriquecimento de urânio em território saudita. A possibilidade é especialmente relevante porque o acordo firmado anteriormente com os Emirados Árabes Unidos não concedeu essa prerrogativa.

"Estando dentro do reino é algo inédito, porque os EUA não vinham deixando passar nada com outros aliados, como Coreia do Sul ou Taiwan."

Entre rivalidades: Israel, Irã e Arábia Saudita

A questão também ganha peso diante da rivalidade entre Riad e Teerã. Schneider lembra que a própria Arábia Saudita já havia sinalizado, em 2018, que não tinha interesse em desenvolver uma arma nuclear, mas que buscaria fazê-lo caso o Irã avançasse nessa direção.
Para Eduardo El-Hader Fantini, também pesquisador no NAC da Escola de Guerra Naval, o acordo reforça a posição saudita como "contraponto regional ao Irã" e, ao mesmo tempo, preservar a influência norte-americana sobre aliados históricos, tanto na monarquia árabe quanto Israel.
O presidente Donald Trump afirmou que a cooperação nuclear está vinculada aos Acordos de Abraão, que estabelecem a normalização das relações com Tel Aviv. A possibilidade, porém, encontra um obstáculo político importante na guerra em Gaza: Riad adota uma posição crítica às ações no enclave, e diz que o reconhecimento de Israel só virá com o estabelecimento de um Estado palestino.

"A Arábia Saudita pode oferecer alguma outra contraproposta que seja um pouco mais benéfica para Riad, enquanto consegue essa capacidade de estabelecer um programa nuclear."

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'Guarda-chuva nuclear' do Paquistão

Para além do acordo nuclear com Washington, a Casa de Saud também conseguiu uma outra vitória no que tange geopolítica nuclear. Graças ao acordo de defesa com o Paquistão, assinado anteriormente ao Acordo de Meca, que incluiu a Turquia no arranjo, Riad ganha a proteção nuclear do Paquistão, o único país de maioria muçulmana a possuir armas nucleares, diz Fantini.
Schneider acrescenta que a aproximação com Ancara e Islamabad faz parte de um movimento mais amplo de diversificação das alianças sauditas, especialmente diante das incertezas em relação a Washington. "Os Estados Unidos não estão passando tanta confiança."
Nesse sentido, os dois acordos cumprem funções complementares. Enquanto a parceria com Washington garante uma relação estratégica com a principal potência militar ocidental, o pacto com Paquistão e Turquia amplia as alternativas de defesa de Riad.
"Dos dois lados, eles estão cobrindo buracos. Onde um chega, o outro não chega", resume Schneider.
Para Fantini, a aproximação também reforça uma tendência de maior autonomia dos países da região em relação às potências externas. A participação da Turquia, integrante da OTAN, reforça essa leitura e sinaliza que os países da região buscam ampliar sua capacidade de definir a própria arquitetura de segurança, sem depender exclusivamente das garantias oferecidas por Washington.
"A segurança no Oriente Médio será arquitetada pelos países do Oriente Médio e a estabilidade será resguardada por países do Oriente Médio."
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