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Sanções falharam e Ocidente já não tem mais opções para pressionar a Rússia, diz analista

© AP Photo / Geert Vanden WijngaertUrsula von der Leyen e a Kaja Kallas saem após uma coletiva de imprensa na sede da UE, em Bruxelas. Bélgica, 10 de junho de 2025
Ursula von der Leyen e a Kaja Kallas saem após uma coletiva de imprensa na sede da UE, em Bruxelas. Bélgica, 10 de junho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 09.09.2026
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Em entrevista ao podcast Mundioka, especialistas afirmam que a Europa anunciou um novo pacote de sanções contra a Rússia sem ainda ter encontrado uma forma de lidar com os efeitos negativos das anteriores no bloco europeu.
A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, anunciou que o bloco está preparando um novo pacote de sanções contra a Rússia, a ser apresentado em setembro, com previsão de entrar em vigor em outubro, atingindo até mil alvos, entre pessoas e organizações.
Será o 22º pacote de sanções aplicado pela UE contra a Rússia desde a eclosão do conflito ucraniano, em fevereiro de 2022. Até o momento, a estratégia de punição econômica, liderada pelos EUA, não surtiu o resultado esperado, tendo efeito contrário: enquanto a economia russa segue resiliente e ampliando suas relações comerciais, a influência econômica do Ocidente continua diminuindo.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, e falando direto de Moscou, a pesquisadora de política russa Giovana Branco, doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP), afirma que a Rússia conseguiu se adaptar, adquirindo algumas empresas, mudando a forma como a economia é organizada e criando algumas saídas.

"É muito curioso que agora, aqui, tudo tem uma versão soberana, tanto de lojas quanto de redes na Internet, tudo tem agora a sua própria versão da Rússia, mostrando uma grande capacidade de adaptação e de uma forma de contornar as sanções. De fato, no dia a dia, a gente não percebe tanto que a Rússia hoje é o país mais sancionado do mundo", avalia.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (terceiro da esquerda para a direita, em primeiro plano) discursa ao lado de Cyril Ramaphosa (na ponta direita), presidente da África do Sul; Narendra Modi (segundo da esquerda para a direita), primeiro-ministro da Índia; e Li Qiang (na ponta esquerda), premiê da China, durante a 17ª Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro. Brasil, 7 de julho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 31.07.2025
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Ela acrescenta que na maior parte dos dias as pessoas nem se lembram que a Rússia está em guerra, com lembranças apenas pontuais, como outdoors nas ruas e pontos de ônibus que exaltam a atuação das tropas russas. Segundo ela, a sensação em geral da população russa é que o conflito é algo distante, embora todos estejam de alguma forma envolvidos.
"Todo mundo tem algum familiar, algum amigo, algum conhecido que está na frente de batalha. Então é um conflito extremamente próximo e ao mesmo tempo fisicamente distante."
Branco sublinha que, quanto mais a Europa se distancia da Rússia, mais o país estreita laços com parceiros do BRICS e da América Latina.
"A gente tem visto uma presença da Rússia um pouco maior nos países latino-americanos, justamente agora no atual contexto com Cuba, principalmente o envio de navios petroleiros para Cuba. Com a crise na Venezuela, isso também ficou de alguma forma um pouco no ar", afirma.
As criptomoedas têm desempenhado um papel importante na resiliência russa, por conta das sanções ao setor bancário. Branco frisa que uma das medidas ocidentais contra a Rússia foi excluir o país do sistema SWIFT, que conecta instituições financeiras de diferentes países, facilitando a troca de informações e pagamentos, operados por empresas como Visa e Mastercard. Diante disso, trazer ou enviar dinheiro da Rússia é algo bastante difícil.
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"As criptomoedas entram justamente nesse momento, porque elas são difíceis de se regular [...] aqui na Rússia tem sido também uma alternativa para o cenário atual das sanções. A gente tem visto também uma aproximação com a China no setor de digitalização bancária e eu diria que, talvez, com a Índia, no futuro, a gente também vai ver essa discussão acontecendo em torno das plataformas do BRICS, mas sobretudo de setores soberanos bancários."
Ela acrescenta que as sanções estimularam os países do BRICS a criarem cadeias comerciais, financeiras e tecnológicas paralelas às alternativas ocidentais.

"O uso de outras moedas que não o dólar ou o euro para as transações comerciais entre os países, o próprio desenvolvimento de setores bancários, setores financeiros e redes financeiras digitais, tudo isso vem caminhando justamente para se depender cada vez menos das alternativas, das opções que a gente tem estabelecidas no Ocidente", destaca.

Valdir Bezerra, mestre em relações internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, afirma que os pacotes de sanções da UE contra a Rússia não têm consenso dentro do próprio bloco, já que elas atingem produtos estratégicos para a economia dos europeus, como a energia.
"A energia é muito estratégica para a economia dos europeus, especialmente para a Alemanha, para países como Hungria, como a própria Grécia. Então, conforme o conflito vai se estendendo e esses pacotes vão sendo renovados, o consenso é que a União Europeia é que corre risco, não a capacidade de financiamento russo", frisa o especialista.
Ele observa que nessa estratégia das sanções, ao atingir empresas e instituições de países como China, Índia, Turquia e Cazaquistão, a UE corre o risco de transformar uma disputa com a Rússia em um problema diplomático muito maior.
"Inclusive pelo fato de que as instituições europeias, mais especificamente as instituições financeiras, que eram vendidas como politicamente neutras, não se mostraram neutras no final das contas. A gente teve o congelamento de ativos russos em bancos europeus. E vale lembrar, não é só a Rússia que tem ativos nesses bancos. Vários outros países têm, porque o euro é a segunda moeda mais forte hoje no plano internacional."
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No que tange à questão energética, ele diz que as sanções europeias funcionaram como um bumerangue, onde se tenta "atingir o rival, mas ele acaba voltando para você".
"A União Europeia também sofreu com essas sanções, porque, apesar de ela ter cortado a ligação com a Rússia, ela passou a comprar energia de forma mais cara, a energia americana, que vem na forma do gás liquefeito, que é transportada por meio de navios, de tankers, e chega no continente europeu a preços que variam de 30% a 40% mais caro do que se fosse por gasoduto."
Segundo Bezerra, a Europa ainda não conseguiu encontrar uma forma de lidar com as sanções que ela mesma impôs contra a Rússia, e é por isso que novos pacotes vêm sendo pensados.

"Cada vez mais empresas russas são incluídas nesses novos pacotes e ainda assim o resultado, os efeitos práticos, que seriam, primeiro, enfraquecer a economia russa, e, segundo, prover maiores chances para a Ucrânia no campo de batalha, nenhum dos dois efeitos acabou sendo conclusivo", explica o especialista.

Ele avalia que atualmente o Ocidente já não tem mais opções para pressionar a Rússia, enfatizando que as sanções europeias e norte-americanas falharam em seu objetivo, e uma alternativa de pressão militar está fora de opção, pois a Rússia é uma potência nuclear. De acordo com Bezerra, o que os EUA e aliados europeus têm feito agora é ameaçar com as chamadas sanções secundárias, que são aplicadas contra países que compram da Rússia.
Um dos exemplos, aponta Bezerra, é a Índia, que foi ameaçada por sanções secundárias, mas também não cedeu. Ele argumenta que ainda que algum país viesse a ceder sob chantagem, o efeito de longo prazo para o Ocidente seria péssimo.
"Seria dizer que se um determinado país não quiser atender aos ditames de Bruxelas ou de Washington, ele vai ser forçado a agir dessa maneira, não de acordo com seus próprios interesses, mas de acordo com os interesses do Ocidente. Isso não é viável no longo prazo, acaba prejudicando a legitimidade do G7, do próprio Ocidente e das instituições nas quais eles têm o maior poder de voto."
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