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Análise: alta aprovação de Sheinbaum se deve à sua forma de 'tourear' Donald Trump
Análise: alta aprovação de Sheinbaum se deve à sua forma de 'tourear' Donald Trump
Sputnik Brasil
Especialistas ouvidos pelo Mundioka atribuem popularidade da presidente mexicana em pesquisa de presidentes da América Latina à defesa da soberania, aos... 13.10.2026, Sputnik Brasil
2026-10-13T17:34-0300
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Em uma pesquisa realizada pela empresa de opinião pública CB Global Data em outubro, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, é a líder latino-americana mais popular, com 69% de aprovação e um índice de rejeição de 28,3%.É a segunda vez que Sheinbaum ocupa a liderança do ranking, tendo tirado Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que agora está em segundo lugar, com 68,3%. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está em oitavo lugar, com 45,3%.Em relação à líder mexicana, o sucesso na popularidade se dá em meio à pressão exercida por Washington: crise migratória entre fronteiras e ações estadunidenses contra o narcotráfico ameaçam a segurança do país, enquanto há questões tarifárias colocadas na relação comercial entre os dois países.Discurso de soberania e pautas sociaisO que pode explicar esse nível de aprovação de Sheinbaum pode ser a combinação de alguns fatores, como os bons resultados de programas sociais de seu governo e seu discurso pragmático com os EUA — defendendo a soberania do México enquanto negocia com Donald Trump, presidente norte-americano, no que pode —, explica Alexandre Coelho, doutor em relações internacionais pela Universidade de São Paulo e fellow da Helsinki Geoconomics Society."Ou seja, a Sheinbaum acaba combinando diversas frentes ao mesmo tempo, e que são difíceis de combinar, mas ela consegue fazer programas sociais, mais defesa de soberania, e também ela toma muito cuidado com a questão das contas públicas", afirma o também professor de relações internacionais da Fundação Armando Alves Penteado (FAAP) ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.A experiência mexicana também pode oferecer elementos ao debate sobre as dificuldades de comunicação da esquerda brasileira com parcelas do eleitorado, especialmente após o resultado do primeiro turno das eleições de 2026. Para Coelho, um dos aspectos a observar é a capacidade de Sheinbaum de conciliar a manutenção dos programas sociais com a responsabilidade fiscal e as políticas de segurança pública."Ela não colocou de lado as preocupações fiscais para, ao mesmo tempo, conseguir manter os benefícios e as questões sociais. Ela tentou trabalhar esses dois pontos juntos e, ao mesmo tempo, a segurança também", explica. Os dados fiscais e sociais ajudam a contextualizar a avaliação. Em 2025, o déficit orçamentário do México caiu de 5% para 3,9% do PIB, enquanto os gastos com desenvolvimento social atingiram 13,1% do PIB, segundo a Secretaria da Fazenda do país.Na segurança pública, dados preliminares do governo apontaram uma redução de quase 40% na média diária de homicídios entre setembro de 2024 e dezembro de 2025.O pesquisador ressalta, contudo, que a experiência mexicana não deve ser tratada como uma fórmula pronta para o Brasil. As diferenças políticas, sociais e econômicas entre os dois países precisam ser consideradas antes de qualquer tentativa de reproduzir as políticas adotadas pelo governo de Sheinbaum.Coelho pondera ainda que o índice de aprovação da presidente mexicana não garante a manutenção do apoio popular até as próximas eleições. Como avalia, o desempenho de Sheinbaum deve ser acompanhado ao longo do mandato, considerando tanto os resultados de suas políticas públicas quanto a capacidade de responder às demandas da população.Somando à conversa, João Estevam, professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, pontua que a forma como a presidente lida com Donald Trump, principalmente, afeta a sua popularidade com os mexicanos, dada a integração econômica entre os dois países e a influência de Washington sobre questões comerciais e de segurança no México.Ao mesmo tempo, Estevam ressalta que as medidas internas, como a valorização da renda dos trabalhadores e as reformas sociais, são fundamentais para compreender o apoio à presidente.Além disso, a redução das tensões com o governo Trump pode representar um ganho político para Sheinbaum, que busca preservar a autonomia mexicana sem interromper a cooperação bilateral. Segundo o professor, a capacidade de negociar com Washington sem demonstrar subordinação, aliada aos resultados domésticos, ajuda a fortalecer a imagem da mandatária."Eu diria que esses são os três fatores principais que a gente tem que analisar: a postura política de igual para igual, vamos dizer assim, não subordinada aos Estados Unidos; o grau de capitalização política com as reformas socioeconômicas internas; e também essa ausência ou essa diminuição nas tensões com os Estados Unidos", afirma.México e Canadá: como cada um lida com os EUA?Estevam ressalta que os EUA têm uma relação econômica com o México mais atrelada em comparação com o Canadá. Em 2024, mais de 80% das exportações mexicanas de mercadorias tiveram como destino o mercado estadunidense, enquanto os Estados Unidos responderam por 75,9% das exportações canadenses. Os dois países também mantêm cadeias produtivas integradas com Washington, especialmente nos setores automotivo, eletrônico e energético.Segundo o especialista, essa dependência limita a margem de manobra da política externa mexicana, uma vez que eventuais restrições comerciais impostas pelos EUA podem afetar diretamente a economia do país. A vulnerabilidade também se estende aos investimentos diretos, às fontes de financiamento e aos empréstimos internacionais.Apesar disso, o México pode buscar alternativas por meio da cooperação com outros países e organizações internacionais, além de ampliar mecanismos de financiamento e investimentos externos, inclusive com a China. Estevam cita a Aliança do Pacífico como uma das instituições regionais que podem contribuir para diversificar as relações internacionais mexicanas."Tudo depende de muita capacidade de negociação diplomática que um governo tem". Para Estevam, o governo de Claudia Sheinbaum precisa recorrer ao pragmatismo diplomático para buscar alternativas à dependência dos EUA, sem ignorar a importância da relação econômica entre os dois países.Para Coelho, a postura mexicana diante de Washington se caracteriza pela combinação de firmeza na defesa da soberania nacional e cautela nas relações diplomáticas. Sheinbaum adota um tom mais cuidadoso ao lidar com Donald Trump, enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, tem respondido de maneira mais contundente às pressões norte-americanas.No final de agosto, o Canadá e os EUA encerraram as suas negociações após medidas impostas por Washington de última hora terem sido rejeitadas por Ottawa, como restrições comerciais com outros países e eliminação da rotulagem bilíngue obrigatória para o inglês e francês. Nos dias seguintes, a Casa Branca retomou tarifas adicionais de 50% sobre determinados produtos canadenses, enquanto o governo do Canadá anunciou novas tarifas retaliatórias sobre cerca de US$ 20 bilhões em exportações estadunidenses.O especialista acrescenta que a presidente mexicana também demonstra disposição para estabelecer limites, como no envio de tropas à fronteira quando necessário, sem descartar concessões em questões econômicas e de segurança.Na sua avaliação, as diferenças entre os dois países também passam pela relação com a China. O México já mantém vínculos econômicos com Pequim, enquanto a aproximação canadense e as tentativas de estabelecer novos acordos com os chineses acrescentaram uma fonte de tensão às relações entre Ottawa e Washington.
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américas, claudia sheinbaum, donald trump, josé mauro coelho, méxico, washington, brasil, faap, aliança do pacífico, produto interno bruto, casa branca, exclusiva, canadá, cidade do méxico, ottawa, mundo, sputnik brasil, mundioka
Em uma pesquisa realizada pela empresa de opinião pública CB Global Data em outubro, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, é a líder latino-americana mais popular, com 69% de aprovação e um índice de rejeição de 28,3%.
É a segunda vez que Sheinbaum ocupa a liderança do ranking, tendo tirado Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que agora está em segundo lugar, com 68,3%. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está em oitavo lugar, com 45,3%.
Em relação à líder mexicana, o sucesso na popularidade se dá
em meio à pressão exercida por Washington: crise migratória entre fronteiras e
ações estadunidenses contra o narcotráfico ameaçam a segurança do país, enquanto há questões tarifárias colocadas na relação comercial entre os dois países.
Discurso de soberania e pautas sociais
O que pode explicar esse nível de aprovação de Sheinbaum pode ser a combinação de alguns fatores, como
os bons resultados de programas sociais de seu governo e
seu discurso pragmático com os EUA — defendendo a
soberania do México enquanto negocia com Donald Trump, presidente norte-americano, no que pode —, explica
Alexandre Coelho, doutor em relações internacionais pela Universidade de São Paulo e fellow da Helsinki Geoconomics Society.
"Ou seja, a Sheinbaum acaba combinando diversas frentes ao mesmo tempo, e que são difíceis de combinar, mas ela consegue fazer programas sociais, mais defesa de soberania, e também ela toma muito cuidado com a questão das contas públicas", afirma o também professor de relações internacionais da Fundação Armando Alves Penteado (FAAP) ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.
"Então ela está tendo essa maestria de fazer isso. Eu acho que isso é que dá o apoio, a população apoia isso. E, veja, para você ter um índice alto desse, não é só um nicho específico da população, pelo contrário, você pode somar a elite mais a população menos favorecida."
A experiência mexicana também pode oferecer elementos ao debate sobre as dificuldades de comunicação da esquerda brasileira com parcelas do eleitorado, especialmente após o resultado do primeiro turno das eleições de 2026. Para Coelho, um dos aspectos a observar é a capacidade de Sheinbaum de conciliar a manutenção dos programas sociais com a responsabilidade fiscal e as políticas de segurança pública.
"Ela não colocou de lado as preocupações fiscais para, ao mesmo tempo, conseguir manter os benefícios e as questões sociais. Ela tentou trabalhar esses dois pontos juntos e, ao mesmo tempo, a segurança também", explica. Os dados fiscais e sociais ajudam a contextualizar a avaliação. Em 2025, o déficit orçamentário do México caiu de 5% para 3,9% do PIB, enquanto os gastos com desenvolvimento social atingiram 13,1% do PIB, segundo a Secretaria da Fazenda do país.
Na segurança pública, dados preliminares do governo apontaram uma redução de quase 40% na média diária de homicídios entre setembro de 2024 e dezembro de 2025.
O pesquisador ressalta, contudo, que a experiência mexicana não deve ser tratada como uma fórmula pronta para o Brasil. As diferenças políticas, sociais e econômicas entre os dois países precisam ser consideradas antes de qualquer tentativa de reproduzir as políticas adotadas pelo governo de Sheinbaum.
"Pegar políticas públicas, ou a forma de lidar com questões de política externa, ou o que a gente vê em outro país, e aplicar, como uma receita pronta, em outro, como o caso do Brasil, isso não funciona. […] O que está funcionando no México não necessariamente vai funcionar aqui no Brasil."
Coelho pondera ainda que o índice de aprovação da presidente mexicana não garante a manutenção do apoio popular até as próximas eleições. Como avalia, o desempenho de Sheinbaum deve ser acompanhado ao longo do mandato, considerando tanto os resultados de suas políticas públicas quanto a capacidade de responder às demandas da população.
Somando à conversa,
João Estevam, professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, pontua que a forma como a presidente lida com Donald Trump, principalmente, afeta a sua popularidade com os mexicanos, dada a integração econômica entre os dois países e a influência de Washington sobre
questões comerciais e de segurança no México.
Ao mesmo tempo, Estevam ressalta que as medidas internas, como a valorização da renda dos trabalhadores e as reformas sociais, são fundamentais para compreender o apoio à presidente.
Além disso, a redução das tensões com o governo Trump pode representar um ganho político para Sheinbaum, que busca preservar a autonomia mexicana sem interromper a cooperação bilateral. Segundo o professor, a capacidade de negociar com Washington sem demonstrar subordinação, aliada aos resultados domésticos, ajuda a fortalecer a imagem da mandatária.
"Eu diria que esses são os três fatores principais que a gente tem que analisar: a postura política de igual para igual, vamos dizer assim, não subordinada aos Estados Unidos; o grau de capitalização política com as reformas socioeconômicas internas; e também essa ausência ou essa diminuição nas tensões com os Estados Unidos", afirma.
México e Canadá: como cada um lida com os EUA?
Estevam ressalta que os EUA têm uma relação econômica com o México mais atrelada em comparação com o Canadá. Em 2024,
mais de 80% das exportações mexicanas de mercadorias tiveram como destino o mercado estadunidense, enquanto os Estados Unidos responderam por 75,9% das
exportações canadenses. Os dois países também mantêm cadeias produtivas integradas com Washington, especialmente nos setores automotivo, eletrônico e energético.
Segundo o especialista, essa dependência limita a margem de manobra da política externa mexicana, uma vez que eventuais restrições comerciais impostas pelos EUA podem afetar diretamente a economia do país. A vulnerabilidade também se estende aos investimentos diretos, às fontes de financiamento e aos empréstimos internacionais.
"Quando você tem um processo de integração e de dependência tão forte, você tem um conjunto de instabilidades possíveis, a depender da posição que a economia mais forte vai tomar."
Apesar disso, o México pode buscar alternativas por meio da cooperação com outros países e organizações internacionais, além de ampliar mecanismos de financiamento e investimentos externos, inclusive com a China. Estevam cita a Aliança do Pacífico como uma das instituições regionais que podem contribuir para diversificar as relações internacionais mexicanas.
"Tudo depende de muita capacidade de negociação diplomática que um governo tem". Para Estevam, o governo de Claudia Sheinbaum precisa recorrer ao pragmatismo diplomático para buscar alternativas à dependência dos EUA, sem ignorar a importância da relação econômica entre os dois países.
Para Coelho, a postura mexicana diante de Washington se caracteriza pela combinação de firmeza na defesa da soberania nacional e cautela nas relações diplomáticas. Sheinbaum adota um tom mais cuidadoso ao lidar com Donald Trump, enquanto o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, tem respondido de maneira mais contundente às pressões norte-americanas.
No final de agosto, o Canadá e os EUA
encerraram as suas negociações após medidas impostas por Washington de última hora terem sido rejeitadas por Ottawa, como restrições comerciais com outros países e eliminação da rotulagem bilíngue obrigatória para o inglês e francês. Nos dias seguintes,
a Casa Branca retomou tarifas adicionais de 50% sobre determinados produtos canadenses, enquanto o governo do Canadá anunciou novas tarifas retaliatórias sobre
cerca de US$ 20 bilhões em exportações estadunidenses.
"Eu tenho a impressão de que a Sheinbaum consegue, com um discurso, com um perfil muito diplomático, 'torear' o Donald Trump."
O especialista acrescenta que a presidente mexicana também demonstra disposição para estabelecer limites, como no envio de tropas à fronteira quando necessário, sem descartar concessões em questões econômicas e de segurança.
Na sua avaliação, as diferenças entre os dois países também passam pela relação com a China. O México já mantém vínculos econômicos com Pequim, enquanto a aproximação canadense e as tentativas de estabelecer novos acordos com os chineses acrescentaram uma fonte de tensão às relações entre Ottawa e Washington.
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