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Da liderança africana em desenvolvimento à fragmentação: o legado da intervenção ocidental na Líbia

© AP Photo / Ricardo Garcia VilanovaPessoas procuram vítimas das enchentes em Derna. Líbia, 15 de setembro de 2023
Pessoas procuram vítimas das enchentes em Derna. Líbia, 15 de setembro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 22.10.2026
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Sob o mote de democracia e liberdade, a população da Líbia foi às ruas em 2011, em meio à Primavera Árabe, que levou a uma guerra civil sem precedentes e à morte brutal do então líder do país, Muammar Kadhafi, por rebeldes. Passados 15 anos, uma das nações mais prósperas da África ainda luta para se reconstruir como Estado.
Era 20 de outubro de 2011 quando uma das guerras civis mais sangrentas dos tempos modernos levou à captura e execução de Muammar Kadhafi, que até então havia governado a Líbia por mais de 40 anos. O cenário de instabilidade começou a se formar em meio aos protestos que exigiam democracia e liberdade, conhecidos como Primavera Árabe, que também tomaram países como Argélia, Egito, Síria e Tunísia. Logo após a queda do governo, teve início uma intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sob a liderança dos Estados Unidos.
Além da destruição da infraestrutura, cujos efeitos persistem no país até hoje, o conflito inicial provocou pelo menos 25 mil mortes. Já a chamada segunda guerra civil, que persistiu até 2020, deixou outros 15 mil mortos.
A professora de relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do Centro Brasileiro de Estudos Africanos (Cebrafrica), Analúcia Danilevicz Pereira, remete à própria história líbia após a independência para explicar o que levou a Líbia a ser um dos países mais prósperos da África e a se tornar um Estado fragmentado depois.
"É um país que saiu de uma condição de extrema pobreza a partir de 1951, quando deixou de ser colônia italiana após o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma monarquia é restabelecida sob um governo dependente do Ocidente de uma maneira geral, mas em 1959 são descobertas as reservas de petróleo no subsolo líbio. E, dez anos depois, vai haver um golpe de Estado [liderado por Kadhafi] que vai proporcionar um salto qualitativo na região", lembra ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
À época, com apenas 27 anos, Kadhafi viu a monarquia pró-Ocidente ser derrubada e uma república ser instaurada com "enorme apoio popular". A partir dos anos 1970, foi implementado um projeto nacional de desenvolvimento apoiado no nacionalismo árabe, que levou a Líbia a liderar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente. "Em 1977, houve o estabelecimento do Estado de Massas e, para um povo livre, tem um simbolismo importantíssimo, porque se tratou de uma ordem política e econômica vinculada a uma série de políticas sociais importantes", acrescenta.
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De acordo com a especialista, a nacionalização de toda a cadeia petrolífera, por exemplo, permitiu que o país financiasse sistemas universais de saúde e educação, combatesse o analfabetismo, promovesse uma forte política habitacional e ampliasse os direitos das mulheres. Tudo isso foi realizado, pontua Pereira, sob fortes sanções ocidentais.
"O Estado se torna sólido, mesmo com fragilidades, a exemplo da falta de diversificação econômica e até de recursos humanos, já que não é uma região tão populosa, além de um desenvolvimento de tecnologia mais efetivo [...]. Vale lembrar que a Líbia dos anos 1980 e 1990 vivia sob sanções, o que, por um lado, fez com que o país se aproximasse dos seus vizinhos e conseguisse se manter", frisa.
O fim da Guerra Fria e, consequentemente, das medidas unilaterais contra o país levaram a Líbia a alterar sua política externa e se reaproximar dos Estados Unidos e da Europa. Para a estudiosa, esse foi o início "de um problema que vai resultar no que culminou em 2011". Após ter criticado ativamente a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, Kadhafi temia que o mesmo acontecesse com Trípoli. Diante disso, fechou um acordo com os Estados Unidos e o Reino Unido para abandonar programas de desenvolvimento de armas nucleares.
Paralelamente, foi iniciada uma campanha midiática que, segundo Pereira, apresentava o governo líbio como apoiador de movimentos terroristas na África. Até que a onda de protestos também começou a eclodir no país, com duras repressões das Forças Armadas, que desencadearam um efeito quase dominó.

"Então, a tal Primavera Árabe, que não foi tão primaveril assim, foi um verão bem quente, que atingiu o norte da África, o Oriente Médio e outras regiões depois disso, porque já tinha acontecido esse processo no Leste Europeu. Ou seja, é todo um movimento de desestabilização de governos que de alguma maneira poderiam se transformar em obstáculos a todo tipo de interesse econômico, político, consequentemente, que o Ocidente define como o ideal para manter a sua posição de centro de poder", diz.

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A intervenção da OTAN, a queda de Kadhafi e a instabilidade gerada pelos grupos opositores agravaram o cenário da guerra civil. De um lado, surgiu o chamado Governo da Unidade Nacional, com sede em Trípoli; de outro, formou-se um grupo aliado à Câmara dos Representantes e ao Exército Nacional Líbio, que não é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Para a população, restou um cenário de alta vulnerabilidade socioeconômica, agravado pelas enchentes recordes de 2023, que fizeram a taxa de extrema pobreza saltar para 40% atualmente. "Você tem um país fraturado, o que significa maior capacidade de garantir os interesses de potências, sejam eles econômicos ou geoestratégicos. Nesse caso, me refiro ao controle militar em um país com fronteira no Mediterrâneo e também recursos energéticos, com as recentes descobertas de reservas offshore", enfatiza Pereira.
Conforme a especialista, além do petróleo e do gás, cujas reservas são estimadas em mais de 41 bilhões de barris, as maiores da África, o país também possui minerais estratégicos, fundamentais para os projetos de reindustrialização dos Estados Unidos e da Europa.
"Uma coisa curiosa sobre o que acontece hoje na França é que a instabilidade atual que eclodiu nos protestos também está conectada à perda de espaço do país no continente africano, cujos recursos sustentavam o desenvolvimento de Paris. Um exemplo é o urânio do Níger [o país foi expulso da região após o golpe militar]", compara.
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Desejo de recuperar uma Líbia soberana

Após quase duas décadas de caos, o desejo de resgatar a soberania e a força que a Líbia teve no passado cresce no país. Diante disso, segundo a professora da UFRGS, há um movimento "claro" em andamento que busca "recuperar a soberania, a estabilidade econômica e o funcionamento das instituições estatais que desapareceram após 2011".
"Quando se derruba um regime, seja qual for, é instaurado um caos e, por mais que o desgoverno tente cooptar determinados grupos políticos, isso não implica uma percepção de legitimidade. É isso que estamos vendo na Líbia, não uma defesa integral do sistema político de Kadhafi, mas a vontade de recuperar o Estado", conclui.
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