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O que uma derrota nas eleições de meio de mandato poderia significar para a política externa de Trump?

© AP Photo / Charlie RiedelUma mulher vota na eleição primária presidencial na Igreja do Nazareno Summit View, em Kansas City, Missouri, 10 de março de 2020
Uma mulher vota na eleição primária presidencial na Igreja do Nazareno Summit View, em Kansas City, Missouri, 10 de março de 2020 - Sputnik Brasil, 1920, 03.11.2026
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Com o controle do Congresso em jogo, as próximas eleições de meio de mandato nos EUA estão sendo observadas menos pelo que poderiam mudar e mais pela forma como poderiam aprofundar a paralisia e a polarização que já definem Washington.
A Sputnik conversou com especialistas norte-americanos de diversas áreas para entender melhor como os resultados da votação desta terça-feira (3) poderiam impactar a política externa dos EUA.

Uma vitória democrata 'limitaria profundamente' Trump

Se os democratas recuperarem o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado, eles terão a capacidade de limitar o poder de Trump de financiar uma guerra contra o Irã e a ajuda militar a Israel, ao mesmo tempo em que forçam o governo a retomar a ajuda ao regime de Zelensky em Kiev, disse o juiz Andrew Napolitano à Sputnik.

"O Congresso detém o poder sobre o orçamento, e isso funciona nos dois sentidos. O Congresso pode limitar a forma como o presidente gasta o dinheiro, mas também pode obrigar o presidente a gastar", afirmou o jornalista e especialista jurídico norte-americano.

"Existe, por exemplo, a possibilidade de forçar o presidente a gastar recursos que ele não deseja — como enviar mais verbas para o regime mais corrupto do planeta, que é o de Kiev", explicou. "Se Trump se recusar a fazê-lo, existem precedentes na Suprema Corte que permitem ao Congresso forçar essa ação."
Ao mesmo tempo, uma nova onda de "investigações intermináveis" tornará difícil para Trump manter o foco na política externa.

Mais instabilidade, não menos

Dan Lazare, historiador constitucional e comentarista político norte-americano, avalia que uma eventual conquista de qualquer uma das casas legislativas pelos democratas seria uma receita para uma polarização ainda maior e para uma política externa mais assertiva, especificamente, mais voltada contra a Rússia e a China.

"É impossível prever como as coisas vão se desenrolar. Mas estou certo de que haverá mais instabilidade, e não menos", diz Lazare, acrescentando que um confronto com Pequim em torno de Taiwan provavelmente fará parte da agenda do Partido Democrata. "Independentemente do que aconteça, as divisões, sem dúvida, se aprofundarão."

Se os democratas conquistarem cadeiras suficientes, Lazare acredita que eles usarão seu recém-adquirido poder para criar obstáculos à administração Trump "a cada passo". A Casa Branca, por sua vez, responderá com contramedidas e ameaças, elevando potencialmente as tensões "ao ponto de ebulição".
Não há como escapar dessa "dialética negativa", argumenta ele, pois o problema está enraizado no próprio sistema político: "Os EUA possuem um sistema de caráter minoritário, no qual um pequeno número de congressistas consegue tirar proveito de diversos pontos de estrangulamento para paralisar as atividades. A paralisia, portanto, é um fato recorrente."
Embora a separação de poderes tenha sido concebida para evitar a concentração de autoridade e garantir a devida fiscalização de decisões importantes, seus mecanismos de freios e contrapesos tornaram-se, cada vez mais, armas na batalha política entre republicanos e democratas, observa o analista.

"A situação começou a se deteriorar após o caso Watergate, a derrota no Vietnã e as políticas de livre mercado de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Em meados da década de 1990, os dois partidos já estavam em guerra. Esse colapso se intensificou com a eleição de Trump em 2016, o Russiagate entre 2017 e 2020, e a tentativa de golpe de 6 de janeiro de 2021", afirmou.

Em vez de amenizar as tensões, cada eleição sucessiva apenas acirra ainda mais o conflito político, conclui Lazare.
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O curso permanece o mesmo

O tenente-coronel reformado do Exército dos EUA, Earl Rasmussen, apresenta uma perspectiva diferente, para ele é improvável que o resultado das eleições de meio de mandato altere, de alguma forma, o rumo das relações dos EUA com a Rússia ou com o Irã. "É preciso lembrar que existem interesses poderosos nos bastidores que continuam a sustentar os conflitos, sejam eles interesses de lobby, geopolíticos ou financeiros", afirma ele.

Rasmussen observa que "um ponto positivo é o engajamento [da administração Trump] com a Rússia", que, no entanto, enfrenta agora "obstáculos internos, além de resistências por parte de muitos líderes europeus e da Ucrânia". Paralelamente, a situação envolvendo o Irã, o apoio contínuo à guerra de Israel em Gaza e o conflito em curso no Iêmen "deixaram a Ásia Ocidental à beira de um colapso total, expondo os EUA e o Ocidente a uma situação humilhante".

Segundo o veterano militar norte-americano, nenhuma mudança futura no equilíbrio de poder no Congresso deve alterar esse curso; para isso, seria necessária nada menos que uma transformação cultural profunda dentro de setores da administração dos EUA, do Congresso e entre seus aliados.
Sobre a Ucrânia, Rasmussen argumenta que a liderança dos EUA precisa reconhecer as causas fundamentais do conflito, que remontam a um período anterior a 2014. Ele ressalta que Washington rompeu acordos internacionais e "levou a Rússia ao limite, enquanto muitos russos étnicos na Ucrânia sofriam durante os frágeis cessar-fogos de Minsk 1 e 2".

"Os EUA deveriam aceitar abertamente que a Ucrânia não fará parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte [OTAN], nem será um membro 'de fato' e que o país será, constitucionalmente, um Estado neutro. Precisamos aceitar, em nível internacional, as novas fronteiras. Deveríamos buscar um novo engajamento e desenvolver oportunidades de negócios conjuntas que beneficiem a todos", afirmou.

'Não existe política externa'

O analista militar e ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Scott Ritter, questiona a própria premissa de que as eleições de meio de mandato vão moldar a política externa, pois, em sua visão, não existe uma política externa coerente a ser moldada.
Sobre o Irã, Ritter descarta relatos de que Trump estaria planejando novos ataques após as eleições de meio de mandato. Ele observa que o conflito começou em fevereiro, sem que houvesse eleições à vista "e, ainda assim, mudamos nosso plano dez vezes em duas semanas". A única visão estratégica, argumenta ele, era a mudança de regime — e ela fracassou.
"Estamos tentando lidar com as consequências de uma guerra fracassada, de uma política fracassada." Essas consequências se manifestam internamente por meio dos preços da energia. O foco central de Trump no Oriente Médio, sustenta Ritter, resume-se agora a "como reduzir o custo da energia dentro dos Estados Unidos".
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Quanto ao suposto plano dos Democratas de investigar a condução, por parte de Trump, das sanções sobre o diesel russo, Ritter é contundente:

"Os Democratas não possuem uma agenda de política externa mais ampla. Eles têm uma agenda de política interna voltada, essencialmente, para se vingar de Donald Trump." Ele ressalta que a Lei Lindsey Graham [Lindsey Graham Act] confere explicitamente ao presidente a discricionariedade de não impor sanções, "portanto, literalmente, ele não violou lei alguma".

Qualquer investigação, diz ele, não passa de "política norte-americana estúpida, em seu nível mais rasteiro [...]. Eles tentarão disfarçar isso com argumentos bonitos, como 'estamos fazendo isso pelo povo da Ucrânia' ou 'estamos fazendo isso pela democracia'. Mas estão fazendo por vingança política. É só isso".
Olhando para o futuro, Ritter prevê que uma Câmara dos Representantes sob controle democrata estaria "exclusivamente focada no impeachment de Donald Trump", em vez de na política externa. "O presidente pode sobreviver a um impeachment. Ele já provou isso duas vezes", acrescentou.
Quanto à questão mais ampla de saber se as eleições mudarão a política externa dos EUA, Ritter prevê "mais caos", com a política externa continuando a ser formulada "dentro de um círculo muito restrito de pessoas ao redor de Donald Trump".
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A economia orienta o voto e não o cenário mundial

Larry Johnson, ex-oficial de inteligência da CIA e funcionário do Departamento de Estado, argumenta que a política externa influencia a opinião dos eleitores apenas de forma indireta, por meio da inflação e das dificuldades econômicas geradas por uma eventual guerra com o Irã. O conflito na Ucrânia, por outro lado, "não tem sido, de fato, o que eu chamaria de uma questão decisiva que leve as pessoas a se sentirem fortemente a favor ou contra algo, porque, na prática, isso não afeta a vida delas".

"Não há unidade entre os republicanos, especialmente no que diz respeito à política externa. Existe uma divisão crescente, notadamente em questões relacionadas a Israel", afirmou. Vale destacar que os esforços diplomáticos de Trump em relação à Rússia "estão sendo duramente criticados tanto pelo establishment republicano quanto pelos democratas".

Ele duvida que a eleição traga mudanças significativas em relação à Rússia, uma vez que "a russofobia, esse antagonismo em relação à Rússia infelizmente, deve persistir".
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