Lula argumenta que os bombardeios e a captura do presidente venezuelano representam um novo capítulo da erosão do direito internacional e da ordem multilateral criada após a Segunda Guerra. O presidente brasileiro vê o episódio como parte de um padrão de desrespeito às instituições globais.
Em seu artigo, Lula afirma que grandes potências vêm enfraquecendo a autoridade da ONU ao recorrerem cada vez mais ao uso da força. Para ele, quando regras passam a ser aplicadas seletivamente, instala‑se a anomia, que compromete tanto os Estados quanto o sistema internacional.
"A história demonstra que o uso da força jamais nos aproximará desses objetivos. A divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos são ultrapassadas e prejudiciais. É crucial que os líderes das grandes potências compreendam que um mundo de hostilidade permanente não é viável. Por mais fortes que essas potências sejam, não podem depender simplesmente do medo e da coerção", postulou.
Lula defende que líderes podem ser responsabilizados por violações democráticas, mas rejeita que um país assuma para si o papel de juiz. Ele alerta que ações unilaterais ampliam instabilidade, prejudicam o comércio, aumentam fluxos migratórios e dificultam o combate ao crime organizado.
O presidente considera especialmente grave que tais práticas ocorram na América Latina e no Caribe, regiões que historicamente defendem soberania, autodeterminação e rejeição ao uso da força. Ele aproveitou para lembrar que é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos EUA.
Lula sustenta que, em um mundo multipolar, nenhum país deve ter suas relações externas questionadas por buscar autonomia. Ele critica incursões neocoloniais e zonas de influência, afirmando que o uso da força não aproxima o mundo de estabilidade ou prosperidade.
Na Europa: vitória do multilateralismo
Em outro artigo do presidente brasileiro publicado na véspera (16) da assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia (17) e divulgado em 27 jornais europeus e sul‑americanos, Lula destacou que o pacto representa "a resposta do multilateralismo ao isolamento" em um cenário global marcado por unilateralismo e novas barreiras comerciais.
O presidente associa o acordo a uma reação às disputas comerciais entre grandes potências e defende que a parceria reforça a integração entre os blocos após mais de 25 anos de negociações.
Lula argumenta que o comércio internacional não deve ser visto como um jogo de vencedores e perdedores, afirmando que a nova área de livre comércio — a maior do mundo — criará oportunidades mútuas de emprego, renda e desenvolvimento sustentável, ampliando o acesso de produtos sul‑americanos ao mercado europeu, com eliminação gradual de tarifas sobre 95% das importações, segundo ele.
Por fim, o presidente amplia o sentido político do tratado, apresentando-o como resposta ao extremismo e ao protecionismo, defendendo que a interdependência é inevitável e que o pacto reforça a necessidade de fortalecer instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Conselho de Segurança da ONU, demonstrando que o multilateralismo permanece atual e essencial.