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Compra do Exército de sistema de defesa antiaérea italiano reflete receio com boicotes, diz analista

Escolha pelo sistema italiano EMADS ecoa a preocupação da Força Terrestre de um possível boicote na entrega, como foi o caso no passado com armamentos dos Estados Unidos e da Alemanha.
Sputnik
O Exército Brasileiro formalizou as diretrizes para a compra do sistema de defesa antiaérea italiano EMADS (Enhanced Modular Air Defense Solutions, na sigla em inglês, produzido pela empresa MBDA. A portaria, publicada em 22 de dezembro, prevê um acordo de cooperação entre os governos do Brasil e da Itália.
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas em defesa afirmam que o sistema italiano é eficiente e adequado às necessidades brasileiras. No entanto, para além de motivos técnicos, por trás de sua escolha estão razões políticas.
Dentre os fundamentos técnicos está a necessidade brasileira de um sistema de defesa antiaérea de médio alcance, que permitirá a interceptação de alvos de 20 km até 45 km de altitude, a depender do modelo a ser adquirido.
Não soluciona todos os problemas de defesa antiaérea do Brasil, diz João Gabriel Burmann, professor da UniRitter e pesquisador do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), uma vez que o país tem proporções continentais, mas é um avanço uma vez que a nação estava desguarnecida nesta altitude.
Sistemas de defesa antiaérea são divididos por altitude interceptação: baixa, média e alta. Até então, o Brasil possuía apenas sistemas pra se defender em baixa altitude, isto é, contra aeronaves que voam baixo, drones e helicópteros.
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Espera-se que o EMADS seja incorporado ao Exército até 2039 e, com ele, será possível se defender de caças e mísseis de cruzeiro. Já no que tange altas altitudes, já há uma concorrência em aberto, tocada pela Força Aérea Brasileira.
Outro ponto positivo, ressalta o analista militar Pedro Paulo Rezende, especialista em conflitos, equipamentos militares e diplomacia, é que o EMADS utiliza mísseis CAMM-ER, os mesmos utilizados pelas fragatas Tamandaré da Marinha do Brasil. Isto permitirá uma base comum de manutenção e facilitará a interoperabilidade desses sistemas.
"É importante lembrar também que, quando se fala em defesa antiaérea, não se está falando de uma único braço armado em específico. Deve-se pensar na integração entre esses ramos, tanto sistemas que vão estar disponíveis na Marinha, ao longo da nossa costa no Atlântico Sul, quanto na Força Aérea e no Exército", define Burmann.
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Receio com boicotes

Para Burmann, o EMADS é um sistema de defesa antiaérea competente no que se propõe. No entanto, o fato do Brasil ter optado pela Itália como parceira no acordo não se deu apenas por uma questão técnica, mas também política.
A Itália é um país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), lembra o especialista, e a MBDA é um consórcio europeu. Essas fatos mostram que o Brasil está preocupado com a repercussão política que suas compras de defesa tem, além da garantia de que vai receber esses equipamentos e que estes terão uma cauda logística.

"De que não vai ser vítima de nenhum tipo de sanção dos Estados Unidos, da Alemanha, pela qual nós tivemos algumas restrições recentemente."

Houveram, por exemplo dois casos recentes em que a Alemanha retardou negociações de defesa brasileira. Em 2023, a Alemanha bloqueou a venda brasileira de blindados Guarani à Indonésia. Como o veículo possuía partes alemães, Berlim vetou a venda. Apesar de não ter sido exposta claramente, a motivação foi a recusa das Forças Armadas do Brasil de enviar suas munições para auxiliar Kiev.
Em outro momento, em 2024, a primeira unidade do veículo de combate alemão Centauro-II comprado pelo EB foi retida por 40 dias no porto de Hamburgo devido a supostos entraves burocráticos. O recado sobre alinhamento geopolítico, no entanto, foi claro.
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Já com relação aos Estados Unidos, houve pressão semelhante em 2006, quando Washington bloqueou a venda de aviões Super Tucano à Venezuela, uma vez que a aeronave possuía componentes estadunidenses. Para não desagradar a Casa Branca, até hoje editais brasileiros pedem que os equipamentos não possuam restrições relativas à Regulação Internacional do Tráfico de Armas (ITAR, na sigla em inglês) dos EUA.
O instrumento jurídico é uma base de dados mantida pelo Departamento de Estado norte-americano que lista sistemas e empresas proibidas de fazer comércio com os Estados Unidos e seus aliados.

Transferência de tecnologia

Em termos de transferência de tecnologia, uma contrapartida costumaz das Forças Armadas brasileiras em seus editais, Rezende afirma que a tecnologia do míssil em si não acontecerá, uma vez que é um equipamento britânico.
Entretanto, a tecnologia do radar Kornos, fabricada pela italiana Leonardo, está prevista nas diretrizes do acordo. No caso, o Brasil está adquirindo o modelo de curto alcance, que detecta a cerca de 100 km a 150 km de alcance, detalha.
Segundo Rezende, a indústria brasileira tem muito a ganhar com essa captação tecnológica. Em termos nacionais, o Brasil possui o Saber 200, da Embraer Defesa & Segurança. Apesar de ter um alcance de detecção maior, cerca de 250 km, ainda não temos a tecnologia de acompanhamento de alvo.

"E aqui no Brasil poderia inclusive utilizar em radares nacionais, da Embraer, do qual a gente já tem bastante expertise e já utiliza em outros sistemas e já teria equipe bem treinada", conclui Burmann.

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