Panorama internacional

Pressões externas testam coesão do chavismo em momento crítico, diz analista

A Venezuela comemora o primeiro mês desde os eventos de 3 de janeiro, data em que o país foi alvo de um ataque armado externo dos Estados Unidos, resultando em 100 mortes, bem como no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
Sputnik
Em meio a essa situação, o chavismo foi às ruas em massa em apoio à sua liderança e em defesa da soberania nacional. A presidente interina da República, Delcy Rodríguez, fez uma declaração a partir do Palácio de Miraflores, destacando a "maturidade" com que o povo venezuelano processou esses eventos.

"Exatamente um mês se passou desde aquela madrugada, bem perto das 02h00 [03h00, horário de Brasília], quando o povo venezuelano sofreu um ataque militar externo por uma potência nuclear. E, nesses 30 dias, vimos a Venezuela se transformar e amadurecer a partir do impacto dessa agressão dos Estados Unidos, transformando-a em tranquilidade, em um compromisso com a proteção da paz agora mais do que nunca", enfatizou.

Rodríguez explicou que "as instituições na Venezuela agiram, foram ativadas" imediatamente após os acontecimentos, com um pronunciamento do Supremo Tribunal de Justiça que a nomeou presidente interina.
A presidente interina também revelou que manteve conversas telefônicas com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio, observando que esse deve ser o caminho para a resolução das divergências.
"Respeito, respeito pelo direito internacional, respeito interpessoal, sabendo que podemos construir uma agenda de trabalho, apesar de nossas diferenças, mas historicamente existem muitos laços entre os Estados Unidos e a Venezuela, desde o início de nossas relações diplomáticas", afirmou ela.

Continuidade política em meio à tensão

O analista político Amaranto Vargas, consultado pela Sputnik, oferece sua perspectiva sobre a evolução do país durante este mês complexo. Questionado sobre o que mudou e o que permaneceu igual na sociedade venezuelana e em seu aparato político ao longo desses 30 dias, Vargas dá uma resposta clara: "Nada, ou aparentemente nada".
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Segundo sua análise, "o chavismo continua governando a Venezuela" com os mesmos atores políticos que eram visíveis antes do sequestro do presidente Maduro. Vargas enfatiza que "a agenda revolucionária continua, o plano de trabalho defendido e implementado pelo presidente Nicolás Maduro permanece em vigor", com a estrutura do Estado inalterada.
"Do ponto de vista da gestão, da perspectiva da liderança do Estado, nada mudou. A estrutura do Estado permanece a mesma", afirma, acrescentando que não houve sequer uma reativação significativa de atores da oposição.

"Inclusive, até mesmo aquilo que talvez estivéssemos tentando observar, de alguma forma, como os atores políticos da oposição podendo se ativar, permanece inalterado. Não há uma posição política clara e visível, nenhuma posição política séria", enfatizou ele.

Contudo, o analista identifica uma mudança significativa no âmbito das relações internacionais, e acredita que, "de uma perspectiva externa, há claramente uma mudança na forma como agora temos que conduzir a diplomacia".
Vargas destaca que a Venezuela agora precisa negociar com "uma potência nuclear que age irracionalmente", confirmando que foram dados passos em direção ao entendimento e à reaproximação com os Estados Unidos, que provavelmente não teriam ocorrido sem os eventos de 3 de janeiro.
Esse novo cenário geopolítico exige, segundo sua análise, "uma agenda governamental que aborde esse aspecto da atuação e que, de alguma forma, mantenha o equilíbrio na política de fortalecimento da soberania nacional".
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O principal desafio, nessa perspectiva, reside na manutenção da soberania nacional diante das "pressões para forçar o povo venezuelano e seu governo a cederem soberania a certos interesses dos EUA", um delicado equilíbrio que define esta nova etapa nas relações bilaterais.
Questionado sobre sua avaliação das medidas e ações tomadas pelo governo venezuelano durante esses 30 dias, Vargas afirmou que "o governo tem sido bastante cauteloso na adoção de medidas, embora as implementadas, como a reforma da Lei de Hidrocarbonetos e a abertura de Fundos Soberanos para a proteção do povo venezuelano, tenham sido apropriadas".
O analista avalia positivamente o desempenho da presidência interina, observando que "as ações tomadas pela presidência interina, liderada por Delcy Rodríguez, também têm estado bastante alinhadas com a situação atual". Essa continuidade na governança, em sua visão, contribuiu para a estabilização do país após os eventos traumáticos do início do ano.

O grande desafio: unidade

Para Vargas, "o movimento popular venezuelano enfrenta um grande desafio" no contexto atual, definindo-o como "nosso grande desafio como país e como povo". A análise destaca as intensas "pressões externas para criar divisão", evidentes particularmente nas redes sociais e na retórica do governo dos EUA.

"Isso fica evidente em todo o conteúdo publicado nas redes sociais e na retórica do governo dos EUA, especialmente do presidente Trump, que faz comentários altamente manipulados e tendenciosos que acabam permeando a mídia e começam a semear dúvidas e incertezas entre a população venezuelana", explica Vargas.

Diante dessa situação, o analista identifica que o movimento popular venezuelano deve "manter a unidade acima de tudo, compreendendo o momento político, compreendendo as novas circunstâncias em que o governo precisa operar", enfatiza.
Para enfrentar esse desafio, Vargas propõe uma "agenda de informação, uma agenda para desconsiderar todas as matrizes geradas pelas redes sociais e pela mídia hegemônica", reconhecendo que se trata de "uma tarefa titânica", mas indispensável para a preservação do processo revolucionário.
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