Panorama internacional

'No atual cenário, BRICS é uma alternativa da política externa brasileira', diz analista (VÍDEOS)

A política externa nos governos Lula 1 e 2 ficou conhecida como altiva e ativa por colocar o Brasil no centro de grandes fóruns internacionais e como mediador de conflitos. No atual cenário recrudescido e tensionado pelos EUA, o país manteve sua altivez, mas adaptou a sua forma de agir, como observaram especialistas em entrevista à Sputnik Brasil.
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Devido aos desafios tanto na economia quanto na governança global, o BRICS, ao oferecer um espaço que privilegia o multilateralismo, acaba sendo um ponto de convergência que aproxima o grupo com o ideário do Itamaraty, como analisa Danúbia Caroline, brasileira radicada na Rússia e mestranda em ciências políticas pela Universidade Estatal de São Petersburgo.

"O BRICS tem se tornado uma plataforma cada vez mais importante para difundir o multilateralismo e acredito que já seja um dos pontos norteadores da política externa brasileira, porque ali é um ambiente onde é possível dialogar de certa forma de igual para igual e discutir projetos de cooperação em comum, além de financiamentos", disse.

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Pilares da Política Altiva e Ativa do Lula 1 e 2

A tão conhecida linha política do Itamaraty, que passou a usar na época em que Celso Amorim, hoje assessor especial de Lula para assuntos internacionais, era o chanceler, teve como premissa o fortalecimento do multilateralismo e o desenvolvimento regional, conforme contextualiza Ariane Roder, cientista política do Coppead/UFRJ e especialista em relações internacionais.

"Nos governos Lula 1 e 2, houve o reforço do multilateralismo e aprofundamento das relações diplomáticas com os países da região. Com isso, o Mercosul ganhou vitalidade e, nesse contexto, foi criada até a Unasul, algo muito mais expandido, dando voz para a América Latina no mundo. Nessa época, o Brasil também assumiu o papel de liderança dos países em desenvolvimento em grandes fóruns globais", explica.

Mecanismos da política externa brasileira são outros

Com mudanças necessárias ao longo do curso, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, para manter sua proatividade e altivez, precisou rearranjar suas estratégias aos novos tempos, com sanções unilaterais, ingerências e pressões na política interna de outros países, o que difere dos primeiros mandatos do governo Lula, conforme disserta Danúbia.

"No atual Lula 3, a política externa segue como altiva e ativa, porém mais cautelosa, pois a conjuntura atual é muito diferente do que foi nos anos 2000. Temos muitos conflitos importantes ocorrendo, por exemplo. No entanto, o Itamaraty mantém a equidistância pragmática que vem desde a era Vargas, e os mecanismos estratégicos para conseguir os objetivos são outros", pontua.

Já na análise da professora Ariane, o Itamaraty está em uma fase em que precisa se reeditar. Embora os fundamentos da política externa da primeira década do século XXI ainda façam sentido, a nova reconfiguração política e os novos líderes globais exigem adaptações.

"O Brasil tenta recalcular a sua rota devido a um realismo político que tem dominado o sistema internacional, mais imprevisível, com grandes lideranças globais dispostas à guerra. A América Latina, por exemplo, está na política externa norte-americana como sua zona de influência, e qualquer movimento mais brusco de afastamento pode significar, de certo modo, um risco estratégico ao nosso país", destaca.

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Brasil e o protagonismo no campo simbólico

Em um momento em que o multilateralismo e órgãos como a Organização das Nações Unidas (ONU) são colocados em xeque, mesmo assim Brasília não abre mão de disputar espaços nesses locais. Prova disso é que ainda almeja um assento permanente no Conselho de Segurança, apesar de essa meta ainda parecer uma realidade distante. Danúbia credita a isso a importância da disputa política também na arena simbólica.

"Eu ainda acho difícil o Brasil conseguir o assento. No entanto, isso já mostra a altivez do país em disputar esse lugar, e ele ainda conta com apoio importante da Rússia. Temos que compreender que a política internacional não é feita apenas de luta, do hard power. Na verdade, é feita mais de simbologia, visando a mensagem que se passa para os outros países", enfatiza.

Nesse âmbito, Ariane aponta que o Planalto ainda segue acreditando e busca fortalecer o multilateralismo e a governança de instituições internacionais que, apesar de passarem por um momento difícil, ainda têm importância. Além disso, Brasília preza pelo pragmatismo.

"O Brasil ainda vai a fóruns globais e defende essas organizações internacionais. O país tem desempenhado seu papel histórico de pregar a não interferência em assuntos internos, o fortalecimento da cooperação entre países, mas ao mesmo tempo busca parcerias estratégicas e pragmáticas com a China, a Rússia e os EUA", conclui.

Considerando toda a configuração da política internacional com seus avanços e recuos, o Itamaraty ainda preza pelo pragmatismo, pelo multilateralismo e principalmente pela inserção em fóruns internacionais, enquanto se readapta à inevitável transição do sistema-mundo.
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