Durante a visita, integrantes da Duma de Estado da Rússia classificaram o diálogo com parlamentares norte-americanos como produtivo e destacaram a disposição de parte do Congresso em ouvir os argumentos russos. A avaliação é de que, embora não haja soluções imediatas, o simples restabelecimento de canais institucionais já representa um avanço.
A organização, que atua com intercâmbios, projetos acadêmicos e iniciativas de integração entre países da região, acabou incluída nas listas de sanções ocidentais, mesmo sem ligação direta com o governo russo.
O analista geopolítico Raphael Machado afirma à Sputnik Brasil que o caso é emblemático justamente por envolver uma organização sem atuação estatal "completamente inofensiva". Conforme o especialista, a decisão ultrapassa critérios técnicos e se insere em uma lógica mais ampla de pressão política.
"A própria inclusão dessa organização numa lista de sanções é, evidentemente, um grandessíssimo exagero", afirmou, acrescentando que "não havia nenhum motivo legítimo ou pelo menos razoável" para a medida.
Na avaliação do especialista, o episódio não pode ser analisado de forma isolada, mas como parte de um padrão nas relações internacionais recentes, em que sanções econômicas passam a ser utilizadas de forma recorrente, inclusive contra alvos que não desempenham papel estratégico direto.
Machado destaca ainda que a tentativa de interlocução direta com o Congresso dos Estados Unidos ocorre em um cenário em que o Legislativo norte-americano tende a ganhar mais peso nas decisões políticas do ano que vem.
"É importante levar em consideração que, da parte russa, é uma jogada interessante. Como sabemos, tudo indica que o governo Trump pode sofrer uma derrota significativa nas eleições de meio de mandato, que acontecerão em alguns meses, o que deve fazer com que o Congresso ganhe mais importância na política dos Estados Unidos", destacou.
Por conta do conflito no Irã e os impactos ao setor energético global, Trump já sofre com a queda de popularidade e o aumento de preços dos combustíveis nos Estados Unidos. Conforme o especialista, isso deve se refletir no pleito de novembro.
"Quando há um Congresso dissonante em relação ao presidente, surgem dificuldades para que ele imponha sua vontade, e o próprio Congresso passa a adquirir uma certa centralidade política. Portanto, o fato de esse diálogo ocorrer no âmbito dos legisladores acontece em um momento bastante oportuno", acrescenta.
Já o jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB), conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa e um dos fundadores da TeleSur, Beto Almeida, lembra à Sputnik Brasil que iniciativas de diálogo direto entre grandes potências costumam enfrentar resistência.
"Vale lembrar que, apesar de diversos esforços no sentido contrário, [os presidentes] Vladimir Putin e Donald Trump se encontraram no Alasca, e havia muita gente trabalhando contra isso, como, por exemplo, os países da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] na Europa. Praticamente todos eles eram contra isso", exemplifica.
Na ocasião, o jornalista afirma que, durante as conversas, Trump se mostrou surpreso ao descobrir via Putin que a Ucrânia havia proibido a língua russa na região do Donbass. "Essas são coisas que só aparecem em relações diretas — Trump não acreditou e acabou deixando isso escapar [...]. Ou seja, foi uma das coisas que Kiev se recusava a admitir na mesa de negociações, mas entre os dois era impossível que isso não viesse à tona", afirma.
Diante disso, o especialista afirma que qualquer esforço de diálogo entre Rússia e Estados Unidos, incluindo o atual no Congresso sobre a ONG Eurásia, é importante, "especialmente porque são os dois principais polos nesse confronto".