"Vou dar um exemplo: em Berlim tem o busto de Nefertiti [rainha do Egito Antigo], que foi encontrado em 1933. Ora, qual é o local ideal para esse busto estar? É em Berlim ou no novo Museu Egípcio no Cairo?"
"Não há nenhum caso na história contemporânea em que um beneficiário da escravidão africana tenha querido devolver o dinheiro."
"Tratar disso abriu uma ferida do que os argentinos fizeram com a população africana, fizeram com a população negra, que eles desejam que só precisa ser esquecido. Ocorre que, globalmente, a gente não pode esquecer de grandes fatos, fatos históricos, que ensejaram mudança significativa."
"Esse custo histórico de desenvolvimento não desapareceu, ele continua moldando a trajetória econômica do continente africano e também das diásporas negras. Então, para mim, a resolução, ela contribui? Contribui quando ela ali abre uma porta para a gente que estava fechada há muito tempo, mas ela sozinha não tem um impacto real."
"A pergunta mais honesta é: há resistência ao texto ou há resistência ao que ele pode desencadear? Porque quando a ONU reconhece a escravidão transatlântica como o crime mais grave contra a humanidade, ela liga isso à ideia de reparações."
"A pergunta decisiva é: a gente vai transformar esse reconhecimento em política pública, orçamento, correção de desigualdade, ou a gente vai só produzir mais um discurso bonito? Porque num país em que a população negra continua sendo a mais mal remunerada, a mais encarcerada, a que menos acessa direitos de igualdade de condições, enfrentar essas distorções não é um favor, é reparação histórica."