De acordo com apuração da Folha de S.Paulo, as emendas de comissão, antes sigilosas, passaram a ter divulgação obrigatória após decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), permitindo identificar quem apadrinha cada indicação.
O levantamento mostra que esse pequeno grupo de apenas sete deputados controla uma fatia desproporcional do orçamento, responsável por financiar ações nas bases eleitorais. O Executivo pode deixar de executar as verbas, mas não pode redirecioná‑las.
O deputado que mais indicou recursos foi Julio Arcoverde (PP‑PI), com R$ 244,3 milhões, beneficiado por ter presidido a Comissão Mista de Orçamento. Em nota, sua assessoria afirmou que todas as verbas foram destinadas "de forma legal e transparente" ao Piauí, com foco em infraestrutura, saúde e apoio a municípios.
Em segundo lugar aparece o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos‑PB), com R$ 180,5 milhões. Quase metade desse valor foi destinada a cidades governadas por prefeitos que declararam apoio à pré‑candidatura ao Senado de Nabor Wanderley, pai de Motta. O deputado afirmou que a divisão "respeita rigorosamente um acordo entre os três Poderes" e segue critérios definidos pelas lideranças partidárias.
Logo depois está o presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), com R$ 138,2 milhões. Ele afirmou que líderes e presidentes de partidos "historicamente" recebem mais recursos para indicar e disse que sempre deu transparência às verbas. Lideranças de PP, União Brasil, Republicanos e PL também aparecem como responsáveis por mais de R$ 930 milhões, embora esse formato possa ocultar o verdadeiro autor da indicação.
Enquanto isso, a média destinada aos demais parlamentares ficou em cerca de R$ 14 milhões por deputado. A maioria da oposição não recebeu recursos, exceto integrantes do PL em postos estratégicos. Deputados relatam que havia um acordo para que cada membro da base governista pudesse indicar pouco mais de R$ 10 milhões, com diferenças esperadas apenas para líderes e presidentes de comissões.
O levantamento da Folha, porém, revela que apenas sete deputados ultrapassaram R$ 100 milhões em indicações, enquanto nenhum dos outros mais de 400 passou de R$ 80 milhões. Parlamentares ouvidos afirmam que a disparidade é injusta, rompe o acordo interno e pode influenciar diretamente as eleições de 2026, já que a votação das verbas ocorreu de forma fragmentada ao longo do ano.