Panorama internacional

Conhecendo o Brasil 'a partir do próprio Brasil': o intercâmbio literário entre países do BRICS

Especialistas comentam como a tradução de obras brasileiras, chinesas, russas e de outros países do grupo ajudam na pluralização das relações internacionais e dão a oportunidade de conhecer a história de civilizações do Sul Global sem intermediários do eixo Europa-Estados Unidos.
Sputnik
O lançamento do livro "O povo brasileiro", de Darcy Ribeiro, na China, sinaliza uma nova etapa da diplomacia cultural entre países do Sul Global. Lançado em abril (4), em Pequim, foi destaque das comemorações do Ano Cultural China-Brasil e descrito como "a melhor forma de apresentar o Brasil para os chineses", segundo a antropóloga Gisele Jacon de Araújo Moreira.
Esse projeto é acompanhado por editoras brasileiras ampliando a circulação de obras chinesas no Brasil. Clássicos como "Analectos", de Confúcio, e "O camelo Xiangzi", de Lao She, estão mais presentes no mercado brasileiro. Além deles, obras de outros países pertencentes ao BRICS estão cativando leitores no Brasil.
Da Rússia, "Crime e castigo", de Fiódor Dostoiévski, e "Guerra e paz", de Lev Tolstói, além de contos da escritora Nadezhda Aleksandrovna Lokhvitskaya — pseudônimo Téffi — podem ser lidos traduzidos para o português. Inclusive obras literárias do Irã, como "Persépolis", de Marjane Satrapi, e "Lendo Lolita em Teerã", de Azar Nafisi, fazem a ponte entre civilizações através da literatura.
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Esse intercâmbio cultural dentro do BRICS passa a ser visto como mais um instrumento estratégico de aproximação entre os países, tanto em projetos conjuntos quanto entre pessoas dessas nações. "Eu penso que a publicação dessa obra de Darcy Ribeiro é fundamental, porque ele foi um importante intérprete do Brasil", disse Luis Antonio Paulino, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e diretor do Instituto Confúcio na Unesp.
Ouvido pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Paulino ressalta que obras de história e sociologia possuem uma enorme importância para ajudar estrangeiros a entender o Brasil, dando destaque a outros "intérpretes", como Celso Furtado, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.
No caso da China, o diretor ressalta que há uma tendência de aumento no interesse pela literatura brasileira, pontuando que há um crescimento no número de instituições dedicadas ao estudo da língua portuguesa. "À medida que vão se formando mais tradutores, mais acadêmicos com formação em língua portuguesa, a tendência é que haja também maior interesse pela tradução de obras de autores brasileiros na China." Ele fala que isso não se dá apenas em função do Brasil, já que há mais países que falam português, como Portugal, Angola e Moçambique.
E vice-versa: Paulino lembra que há um curso de licenciatura de língua chinesa no curso de letras da Universidade de São Paulo (USP), e que a Unesp está abrindo um segundo curso de graduação em língua chinesa em agosto. Contudo, ainda afirma que o interesse pelo português na China é maior do que o interesse pelo mandarim no Brasil.
Diferentemente de outros acordos, econômicos ou militares, o diretor vê que a troca cultural é mais estável e tem mais chances de criar relações de amizade entre nações. "É um relacionamento em que os dois lados sempre ganham, porque, nesses outros tipos de relacionamento — econômico, militar —, sempre há o risco de algum tipo de desbalanceamento, de algum tipo de atrito."

"A cultura é como você acender uma vela. Quando você acende várias velas simultaneamente, ou seja, quando você junta diversas culturas, o ambiente fica mais iluminado e uma vela não tira o brilho da outra."

Em contraste, Paulino vê que a presença da cultura russa no imaginário brasileiro e ocidental se explica por um processo histórico mais longo de integração com a Europa. Segundo ele, a Rússia esteve inserida no universo cultural do Ocidente por muito mais tempo, o que ajudou a consolidar a projeção internacional de seus autores — como Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov — considerados universais.
Ele avalia que essa proximidade histórica e linguística com a Europa contribuiu para que a literatura e a música russas tivessem maior difusão global, inclusive no Brasil, em comparação com a cultura chinesa. Paulino também destaca que, por séculos, a elite russa manteve forte influência europeia — evidenciada, por exemplo, pelo uso do francês como língua principal entre as classes altas, como retratado em "Guerra e paz".
Para ele, esse enraizamento da Rússia no chamado "concerto europeu" explica o porquê de sua produção cultural ter integrado de forma mais profunda o repertório ocidental.
Para Paulo Menechelli , cofundador da rede Observa China e autor do livro "Diplomacia cultural chinesa: instrumentos da estratégia de inserção internacional da China no século XXI", iniciativas como o Ano Cultural China-Brasil simbolizam a importância de vários atores dos governos, das editoras e das comunidades acadêmicas desses países.
"É uma iniciativa que também tem uma participação […] dos Estados brasileiro e chinês, mas ao mesmo tempo a gente tem uma […] atuação da academia, desses intercâmbios acadêmicos interpessoais que são tão importantes", afirma Menechelli.

"Mas a gente também tem editoras atuando e acreditando no potencial da tradução de uma obra já clássica para compreender a sociedade brasileira, agora para o chinês, pensando que também pode ter um interesse por essa obra no mercado editorial chinês."

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Em sua opinião, o pesquisador vê que a tradução da obra de Darcy Ribeiro para o chinês vai ajudar a ampliar a compreensão da sociedade brasileira a partir de perspectivas próprias, não mediadas por interpretações tradicionais do Ocidente.
Menechelli destaca que o autor brasileiro já apresentava, em certa medida, uma leitura que hoje pode ser entendida como decolonial e anticolonial, ao valorizar o povo brasileiro sob uma ótica que escapa às visões dominantes europeia e estadunidense.
Segundo ele, a escolha da obra dialoga diretamente com esse movimento contemporâneo de questionamento das abordagens consideradas universais nas relações internacionais, muitas vezes formuladas a partir de um eixo restrito entre Europa e Estados Unidos.
Nesse contexto, a tradução representa um esforço concreto de pluralização do conhecimento, ao permitir que a China tenha acesso direto a uma interpretação brasileira sobre o Brasil, sem intermediários.
"Ver esse esforço de traduzir uma obra que comente a sociedade brasileira e passar para a língua chinesa dá oportunidade para a China conhecer o Brasil a partir do próprio Brasil. Isso mostra que também a gente está pluralizando esses fluxos, a gente está parando de ter intermediários."
"É legal ver um exemplo prático desse esforço, mesmo, de pluralizar, globalizar e tornar mais plurais as relações internacionais", concluiu.
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