Panorama internacional

Análise: EAU fora da OPEP abre nova fase de concorrência no mercado de petróleo

Ouvidos pelo Mundioka, analistas comentam que a saída dos Emirados Árabes Unidos enfraquece a posição do cartel de influenciar preços do petróleo, enquanto fortalece a posição de outros países produtores de petróleo, como o Brasil, como fornecedores confiáveis.
Sputnik
Visto como um grande golpe no maior grupo exportador de petróleo do mundo, a saída dos Emirados Árabes Unidos da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e da OPEP+ aumentou a tensão no mercado global de petróleo: o barril do Brent fechou em torno de US$ 120 (cerca de R$ 590 na cotação atual), maior preço desde 17 de junho de 2022.
Além disso, foi anunciada a saída do país da Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OAPEP), sediada no Kuwait, no domingo (3). Segundo a mídia local, essas decisões refletem uma visão estratégica e econômica de longo prazo, voltada ao fortalecimento do setor energético nacional e à manutenção do papel do país como produtor confiável para o mercado global.
Sobretudo, a saída dos EAU dessas organizações permitiria que Abu Dhabi concentrasse sua política energética nos interesses nacionais e nos compromissos assumidos com investidores. O país é o oitavo maior produtor de petróleo do mundo e o terceiro do grupo, atrás apenas do Iraque e da Arábia Saudita.
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Para Pedro Costa Jr., cientista político, analista de relações internacionais e autor do recém-lançado livro "EUA x China: a luta pelo poder global", a saída dos Emirados Árabes representa uma crise pontual da OPEP, não estrutural. "É mais um movimento estratégico que qualquer outra coisa", afirma.
O analista aponta que o contexto regional é determinante para entender a decisão, destacando a proximidade geográfica e o conflito direto entre Emirados Árabes Unidos e Irã.
Costa Jr. observa que os EAU são um dos países mais afetados por ações militares iranianas, como ataques com mísseis e drones. Para ele, esse cenário ajuda a explicar o reposicionamento dentro da OPEP, mais do que qualquer fragilidade interna da organização.
O especialista também chama a atenção para o impacto desse conflito dentro do BRICS ampliado. Ele lembra que tanto o Irã quanto os Emirados Árabes fazem parte do grupo e avalia que há uma espécie de tensão "intra-BRICS", o que pode gerar desdobramentos políticos relevantes. Nesse sentido, destaca que a articulação já enfrenta pressões externas e que conflitos entre seus próprios membros tendem a aumentar a complexidade do cenário.
Na sua avaliação, esse contexto deve influenciar debates futuros, especialmente em encontros multilaterais. Ele menciona que a próxima cúpula do BRICS será um momento importante para observar como esses países vão lidar com suas divergências, em um ambiente já marcado por diferentes alinhamentos internacionais — o que, segundo ele, também acaba afetando países como o Brasil.
Sobretudo, o analista vê a saída como uma "grande derrota" para a Arábia Saudita, considerada uma espécie de líder do cartel. "A Arábia Saudita controla a maior produção de petróleo mundial e, portanto, tem a maior influência sobre a OPEP." Costa Jr. ressalta que, embora a organização tenha tido mais influência no mercado de petróleo na década de 1970 e sido responsável por metade da produção mundial no passado, hoje a porcentagem de produção chega a quase 30%.

"Com a saída dos Emirados Árabes, ela vai ter menos que um terço. Vai ali para a casa dos 20%. Enfim, não é mais que 25%."

Agora, a saída dos EAU do cartel, segundo Costa Jr., também representa um movimento com potenciais impactos no equilíbrio energético e monetário global, especialmente diante das disputas entre Estados Unidos e China.
O analista ressalta que, ao contrário do que poderia ser esperado por Washington, a decisão dos Emirados Árabes não deve necessariamente favorecer os interesses norte-americanos. Para ele, "ao contrário do cálculo da Casa Branca, do Departamento de Estado, [a saída] certamente não vai produzir o efeito esperado". Isso porque a questão central não é apenas a saída da OPEP, mas o destino e o escoamento do petróleo emiradense.
Costa Jr. explica que o controle do estreito de Ormuz pelo Irã impõe fortes limitações logísticas. Segundo ele, o fluxo de petróleo está condicionado à autorização iraniana, que bloqueia o fornecimento para Estados Unidos e aliados. "Só vai passar petróleo desde que eles permitam", afirma, destacando ainda as dificuldades de rotas alternativas terrestres, sujeitas a instabilidade em países como Omã e Iêmen.
Por outro lado, "a saída dos Emirados abre uma avenida global de possibilidades" de alinhamento energético com Pequim, diz, ao mencionar a possibilidade de ampliação das exportações para o mercado chinês — que já mantém acordos bilionários com o país do Golfo. Nesse cenário, segundo o analista, o comércio pode ser feito em yuan, fortalecendo o chamado "petroyuan" em detrimento do "petrodólar".
Costa Jr. destaca que esse movimento já vem sendo adotado por outros países, como Irã e Rússia, e pode ganhar ainda mais força. Para ele, esse tipo de transação representa "mais um avanço do petroyuan e uma pancada nos petrodólares", que historicamente sustentam a hegemonia econômica dos Estados Unidos.
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Segundo João Vitor Marques, professor e pesquisador na FGV Energia, não está em risco a existência da OPEP com essa saída, mas sua identidade. Marques coloca em questão o fato de que a organização vem perdendo, gradualmente, relevância e capacidade de coordenação diante de mudanças no mercado global de petróleo.
Segundo ele, esse movimento impacta diretamente a liderança e a participação de mercado da organização. Ele avalia que a retirada de um ator relevante reduz a eficácia dos mecanismos tradicionais da OPEP, como o sistema de cotas de produção. Nesse sentido, afirma que "a capacidade, a efetividade do instrumento de cotas […] acaba sendo minada", já que parte importante da produção global deixa de estar sob a coordenação do grupo.
O pesquisador também destaca que isso enfraquece a influência da organização sobre os preços internacionais do petróleo. Ainda assim, ele acredita que a OPEP deve reagir buscando maior flexibilidade em suas regras, como forma de evitar novas saídas. A medida teria como objetivo conter um possível efeito cascata entre os membros.
Marques pondera, no entanto, que esse risco depende das condições específicas de cada país. Ele cita exemplos recentes, como a saída de Angola, motivada pela necessidade de ampliar a produção e atrair investimentos em um cenário de maior concorrência internacional. Nesse contexto, as cotas da OPEP podem ser vistas como limitadoras para países que buscam expandir sua capacidade produtiva.
O pesquisador avalia que a própria lógica que sustentou a criação da OPEP mudou ao longo do tempo. Se antes a organização exercia forte controle sobre o mercado — chegando a concentrar mais de metade da produção global — hoje esse domínio é significativamente menor.
Com um mercado mais diversificado e competitivo, a saída dos Emirados Árabes reforça, segundo ele, uma tendência de perda de protagonismo da OPEP e de sua atratividade como instrumento central de coordenação entre países exportadores.
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Além disso, Marques avalia a situação do Brasil como relativamente favorável dentro desse cenário de instabilidade global no setor energético. Segundo ele, o país vem se destacando em meio às sucessivas crises geopolíticas recentes, como a operação militar especial na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio.
"O Brasil tem se destacado porque a gente está convivendo com uma situação de aumento da nossa produção", afirma, ao destacar o avanço dos projetos do pré-sal. De acordo com o pesquisador, a entrada em operação de novas plataformas coloca o país em uma trajetória de crescimento consistente, com potencial de alcançar posições ainda mais altas entre os maiores produtores globais de petróleo.
Marques avalia que essa expansão fortalece o papel do Brasil como fornecedor confiável no mercado internacional. Ele destaca que o país reúne condições favoráveis, como estabilidade geopolítica e segurança regulatória, fatores que têm atraído investimentos estrangeiros. Nesse contexto, o Brasil pode ampliar sua inserção global ao firmar contratos de longo prazo com grandes consumidores, como países asiáticos.

"Ao se tornar um dos principais produtores globais, o Brasil ganha mais espaço para dialogar e negociar com outros grandes atores do mercado de petróleo."

Por outro lado, ele aponta que a nova dinâmica internacional também traz desafios. A saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, por exemplo, tende a aumentar a concorrência no mercado, colocando o petróleo brasileiro em disputa direta com outras grandes fontes produtoras.
Sobre a relação com a OPEP, Marques pondera que o Brasil não integra formalmente a organização como membro pleno, mas sim como observador. Segundo ele, essa posição não impõe impactos práticos à indústria nacional, já que o país não está sujeito a cotas de produção. Ainda assim, a aproximação tem valor estratégico. "Essa participação está alinhada à tradição diplomática brasileira de diversificar parcerias e ampliar sua presença em fóruns internacionais."
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