Após o encontro, o presidente norte-americano afirmou que a agenda foi "muito produtiva" e que serão realizadas novas reuniões entre os países ao longo dos próximos meses sobre pontos considerados estratégicos. Segundo Trump, o encontro abordou diversos temas, com destaque para comércio bilateral e tarifas.
"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa. Nossos representantes devem se reunir para discutir alguns elementos-chave. Reuniões adicionais serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário", declarou Trump nas redes sociais.
Horas depois da reunião, Lula falou à imprensa na embaixada do Brasil em Washington e classificou o encontro como um "passo importante" para a retomada da relação estratégica entre os dois países. "Saio daqui com a ideia de que nós demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica com os EUA", afirmou.
Segundo o presidente brasileiro, a conversa com Trump abordou desde comércio internacional até segurança pública e conflitos geopolíticos. Lula também defendeu o fortalecimento do multilateralismo e criticou medidas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos na política comercial internacional.
"Já tinha dito que a boa relação é uma demonstração ao mundo que as duas maiores democracias do continente podem servir de exemplo ao mundo", disse.
Ao tratar da relação econômica bilateral, Lula afirmou que cobrou maior participação dos Estados Unidos em projetos de infraestrutura no Brasil e destacou que empresas chinesas vêm ocupando espaços em investimentos estratégicos no país. "Eu disse a Trump que é importante que os EUA voltem a ter interesse nas coisas do Brasil. Muitas vezes fazemos licitações internacionais para rodovia e ferrovia, e os EUA não participam. Quem participa são os chineses", declarou.
O presidente brasileiro também afirmou que houve entendimento para a criação de um grupo de trabalho voltado ao combate ao crime organizado transnacional, incluindo tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro.
"Dispostos a construir um grupo forte de combate ao crime organizado. É uma coisa que precisa ser compartilhada com todos", afirmou.
Lula disse ainda que o governo brasileiro pretende lançar nos próximos dias um novo plano nacional de enfrentamento às facções criminosas. "Precisamos destruir o potencial financeiro do crime organizado e das facções. Eles viraram empresas multinacionais, estão em vários países, na política e no Judiciário", disse.
Outro tema discutido foi o de minerais críticos e estratégicos. Lula afirmou ter apresentado ao governo norte-americano a nova legislação brasileira para exploração do setor sob coordenação da Presidência da República.
"Tratamos os minerais como soberania nacional para compartilhar o potencial do Brasil com quem queira fazer investimento no país. Não temos preferência", afirmou.
O presidente brasileiro também comentou temas internacionais, como Venezuela, Irã e a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Lula afirmou ter defendido junto a Trump soluções diplomáticas para conflitos internacionais. "Acredito muito mais no diálogo que na guerra", declarou.
Lula também voltou a defender mudanças na estrutura das Nações Unidas e criticou o poder de veto das potências permanentes do Conselho de Segurança. "A geopolítica de 2026 não é a mesma de 1945”, afirmou.
Ao final da coletiva, Lula avaliou positivamente o encontro com Trump e destacou o clima amistoso da reunião. "Saio muito satisfeito, foi uma reunião importante para Brasil e EUA. Fotografia vale muito, presidente Trump rindo é melhor que de cara feia, alivia nossa alma", completou, ao lembrar da imagem em que foi clicado ao lado do norte-americana.
Interferência de Trump nas eleições
O presidente também comentou as eleições no Brasil e afirmou a jornalistas que não acredita em qualquer tentativa de influência externa no processo eleitoral brasileiro. Sem citar diretamente episódios recentes envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos, Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o respeito à soberania nacional e disse que conversou com Donald Trump de forma “sincera”.
"Se ele tentou interferir [em 2022], perdeu. Não é uma boa política ficar interferindo nas eleições de outro país, é um princípio básico para não permitir a ocupação da soberania de outro país", afirmou Lula.
O presidente brasileiro também elogiou o tom da relação construída com Trump desde o início dos contatos entre ambos e disse acreditar que há interesse mútuo em fortalecer os laços bilaterais.
"Nossa relação é sincera, desde o primeiro encontro de 29 segundos até os telefonemas, e esse encontro de hoje evoluiu muito. Tenho razões para acreditar que o Trump gosta do Brasil, e temos interesse em fazer os melhores acordos com os EUA", declarou.
Lula ainda afirmou que não acredita em participação direta do presidente norte-americano nas eleições brasileiras de 2026. "Eu não acredito que ele vá ter qualquer influência nas eleições brasileiras e vai se comportar como presidente dos Estados Unidos", completou.
Encontro fugiu do protocolo
Lula foi recebido por Trump por volta das 11h21 e cumprimentado pelo norte-americano assim que desceu do carro. A pedido do Brasil, a coletiva de imprensa foi alterada para após o encontro entre os dirigentes, em uma mudança de protocolo da Casa Branca, que costuma receber os repórteres antes das agendas começarem. Porém, por conta de um compromisso do republicano, não houve a tradicional conferência com os dois líderes.
Além de Lula, integram comitiva presidencial os ministros das Relações Exteriores, Mauro Vieira; da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva; da Fazenda, Dario Durigan; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa; e de Minas e Energia, Alexandre Silveira, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O Planalto avalia que a reunião pode reduzir a influência de aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Casa Branca. Além disso, o encontro ocorre em um momento em que Flávio cresce nas pesquisas e tenta ampliar sua interlocução nos EUA por meio de seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, e Paulo Figueiredo.
Tensões diplomáticas entre Brasil e EUA
Após se reunir em duas ocasiões no ano passado e até apontar uma "química" — ocasiões que culminaram na redução do tarifaço contra o Brasil e no fim de sanções econômicas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes —, Lula e Trump voltaram a fazer das divergências a tônica das relações em 2026.
Neste mês, Lula citou os embates do norte-americano com o papa Leão XIV, contrário à guerra promovida por Washington contra o Irã. "O Trump não precisava ficar ameaçando o mundo", afirmou à época.
Dias depois, em meio à prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, condenado a mais de 16 anos de prisão no Brasil e considerado foragido, os Estados Unidos determinaram a expulsão do delegado brasileiro envolvido na detenção, realizada pelas autoridades migratórias. O governo brasileiro reagiu com a retirada das credenciais diplomáticas de um agente de imigração norte-americano que atuava em Brasília.