O pedreiro Charlithe Eddy, 26 anos, conta uma história com traços dramáticos. Em dezembro de 2011, a mãe de Charlithe começou a vomitar e ter diarreia repentinamente. Em questão de horas, piorou a um estado tão crítico que a senhora sequer era capaz de falar.
"Coloquei ela nas costas e saí de madrugada desesperado, procurando um hospital aberto que pudesse ajudar. Mas ela morreu sobre mim", ele relembra, com a voz embargada.
Como morava no sul do país durante a passagem do furacão Matthew em outubro do ano passado, Charlithe viu todas as fotos da mãe se perderem na força do vento. Ficou sem casa e só com as memórias para se lembrar dela. "Estou feliz que [os soldados da Minustah estejam indo embora], não os quero aqui", confessa.
Quando a notícia de que a Sputnik Brasil estava em uma escola na favela de Cité Soleil entrevistando vítimas da cólera se espalhou, uma multidão rapidamente se aglomerou no local. Todos queriam contar o quanto sofreram, dos familiares que morreram para a bactéria mortal, da devassa na comunidade. São as vítimas da irresponsabilidade da ONU.


![O pedreiro Charlithe Eddy (26 anos) perdeu a mãe em dezembro de 2011 carregou a mãe com cólera nas costas no meio da noite, desesperado por tratamento médico: Não quero esses soldados [da Minustah] aqui, estou feliz que estejam indo embora. O pedreiro Charlithe Eddy (26 anos) perdeu a mãe em dezembro de 2011 carregou a mãe com cólera nas costas no meio da noite, desesperado por tratamento médico: Não quero esses soldados [da Minustah] aqui, estou feliz que estejam indo embora. - Sputnik Brasil](https://cdn.noticiabrasil.net.br/img/938/88/9388815_146:0:2589:1536_600x0_80_0_0_e0de6e3993d60cadcfc59128efb0f714.jpg.webp)





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A ONU e a cólera
Servindo no país como chefe do Escritório da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti no período do início do surto, Ricardo Seitenfus pensava que o maior problema com o qual lidaria naquele ano seriam os efeitos do terremoto de janeiro, responsável pela morte de mais de 300 mil pessoas no início do ano. Estava enganado. A doença se espalhava por todo o país.
Como 75% dos infectados não apresentam sintomas até a piora definitiva que leva à morte em poucas horas, Ricardo descreve um cenário de pessoas perdendo até 11% do seu volume corporal enquanto a ONU se comporta de forma "pior que vergonhosa, [mas sim] uma mancha na história das Nações Unidas com seus membros mais frágeis como é o caso do Haiti" nas palavras do próprio.
"As Nações Unidas emitem comunicados oficiais dizendo que a cólera [no Haiti] nasceu do choque de placas tectônicas em razão do terremoto quando se sabe muito bem que ela nasceu no Vale do Artibonite. Outra versão inclusive propagada pela Organização Mundial da Saúde que seria o aquecimento global e dos oceanos que havia feito surgir no litoral haitiano plânctons [que causariam a doença] […]. Ao não reconhecer a responsabilidade imediata das tropas nepalesas, não foi identificado qual era o gene bacilo de cólera, […] uma questão urgente para saber quais seriam os instrumentos para combater este mal invisível. Se perderam semanas e meses que provocaram milhares de mortes dos que não conseguiram buscar socorro médico nesse período", analisa Seitenfus.
O professor avalia ainda que, por conta da incapacidade das vítimas procurarem ajuda médica, os números de mortos podem ser subestimados. "Há estudos epidemiológicos franceses que falam entre 40 e 50 mil mortos", denuncia. Ricardo foi afastado do posto em 2011, depois de conceder uma entrevista ao jornal suíço Le Temps na qual questionava a necessidade da Minustah e as sucessivas falhas da comunidade internacional com a nação caribenha.
O panorama atual
Semanas depois do terremoto de 2010, a comunidade internacional já aventava a possibilidade uma epidemia de cólera ser arrasadora no Haiti. A despeito da completa destruição, a bactéria surgiria a vários quilômetros dali, o que não facilitou em nada o tratamento da doença.
O costume haitiano manda comer os alimentos com as mãos ao invés de talheres. A despeito dos US$50 milhões providos pelo Banco Mundial em outubro de 2014, o saneamento básico praticamente inexiste para a maioria da população, que bebe e despeja dejetos na mesma água. Formando o tripé da tragédia anunciada, a grande maioria do sistema de saúde local é privada, cobrando valores que, para uma população cuja renda per capita raramente ultrapassa US$2 por dia, é exorbitante.
"Tivemos que lutar uma guerra para evitar o aumento de casos, distribuindo cloro para que as pessoas tratassem a água, driblando o problema crônico da logística para a distribuição de vacinas, na articulação com outras organizações para que a população começasse a entender a gravidade da doença, trazendo médicos de outras missões da MSF que lidavam com a cólera", relembra à Sputnik Brasil o coordenador-adjunto do Setor Médico da MSF no Haiti, Dr. Carl Frédéric Casimir.

Casimir acredita que, dada à parca infraestrutura do Haiti, a cólera ainda permanecerá uma urgência de saúde pública durante muitos anos no país. "As condições de higiene ainda são ruins e as pessoas tendem a minimizar a situação. Falta acesso à água limpa, uma rede de comunicação de todos os setores governamentais para fazer funcionar o esforço no combate à doença", analisa.
O líder comunitário e professor em Cité Soleil, Smith Petioth também aponta mais um problema, este de resolução ainda mais complicada. Ele, que trabalhou como agente focal da Organização Internacional de Migração (OIM) durante o surto de cólera e mobilizou a comunidade em torno do tema notou como a pobreza potencializa os riscos:
"As pessoas com cólera sentem muita dor de estômago no início da doença. O que percebi foi que quem passava o dia todo sem comer pensava que as dores eram resultado da fome e não procuravam ajuda até ser tarde demais".
7 anos depois, pouco foi feito
Moon ainda declarou que a ONU estava perto de alcançar US$200 mi para a construção de saneamento e tratamento de água no país e que outros US$200 mi seriam arrecadados para prover "assistência material" às famílias e comunidades que sofreram.
"Eliminar a cólera do Haiti e cumprir nossa responsabilidade moral com aqueles que foram mais diretamente afetados, exigirá o pleno empenho da comunidade internacional e, fundamentalmente, os recursos necessários", afirmou.