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'Utensílio antigo', Europa precisa ver mundo de forma não 'americocêntrica', dizem analistas

© AP Photo / Virginia MayoUm funcionário ajusta as bandeiras dos EUA e da UE durante a reunião ministerial do Conselho de Energia UE-EUA no edifício do Conselho Europeu em Bruxelas. Bélgica, 4 de abril de 2023
Um funcionário ajusta as bandeiras dos EUA e da UE durante a reunião ministerial do Conselho de Energia UE-EUA no edifício do Conselho Europeu em Bruxelas. Bélgica, 4 de abril de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 18.06.2026
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À Sputnik Brasil, analistas apontam que a Europa é considerada pelo governo dos EUA um artigo de antiquário, inadequado no novo mundo, e se esta não diversificar suas parcerias, acabará cada vez mais isolada.
A confiança dos europeus nos EUA atravessa uma baixa sem precedentes. Segundo uma pesquisa publicada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, apenas 11% dos cidadãos entrevistados em 15 países da Europa consideram os EUA um aliado confiável. O percentual é o mais baixo registrado pela pesquisa e reflete a crescente desconfiança em Washington como um parceiro de segurança.
À Sputnik Brasil, Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e analista de organizações militares, explica que o desgaste na relação transatlântica é antigo e ocorre desde a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que ele aponta como um marco da aliança entre EUA e Europa.
"A relação de interesses é muitas vezes conflitante, então essa relação tem enfrentado desgastes ao longo dos 80 anos da existência da OTAN. No entanto, esses últimos anos têm tido um problema significativamente maior, que é uma reorganização dos interesses dos Estados Unidos e o conflito da Ucrânia."
Ele aponta que, com a crise na Ucrânia, os países europeus tiveram que assumir muito mais responsabilidades, carregando o ônus com relação aos imigrantes que fugiam do conflito e do envio de armas, equipamentos e recursos financeiros a Kiev. Como reflexo, isso afetou a governabilidade de países europeus, pois suas populações se viam obrigadas a "encarar uma guerra que eles não consideram como sendo deles, que tem responsabilidade dos EUA".
"Outra questão é que os EUA têm ali a China como um foco. Então a geopolítica, a nível global, tem saído desse foco do Atlântico Norte e se reorientado para o Indo-Pacífico. Nesse sentido, a Europa tem perdido, sim, essa perspectiva que era majoritária dentro da geopolítica estadunidense e relativamente perdido importância em relação ao cenário do Indo-Pacífico."
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Teixeira afirma que o realinhamento da geoestratégia a nível global para a região do Indo-Pacífico tem a Austrália como novo ponto focal de investimentos da defesa para a contenção da China, o que pode causar esse "desacoplamento" da Europa dos EUA.
"Então, tem esses pesares, tem esses problemas e o interesse estadunidense, deixando ali os problemas para os europeus e se reorientando ali para uma contenção chinesa, pode ser ali o grande mote, o grande significado dessa estratégia geopolítica global nos próximos anos."
O grande prestígio dos EUA na Europa foi alcançado na Segunda Guerra Mundial, quando os europeus viram os EUA como os "salvadores da barbárie nazista", conforme aponta Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).
Gonçalves frisa que o Plano Marshall dos EUA foi muito importante para que os europeus se recuperassem da guerra, tendo como retribuição a hegemonia norte-americana. Ele diz que, somado à cooperação econômica, a cooperação militar permitiu aos EUA impor uma política de contenção da União Soviética (URSS) no período da Guerra Fria.

"O medo do comunismo, o medo da URSS foi explorado à exaustão pelos EUA em todos os sentidos, de modo que os europeus, que já temiam a Rússia, a URSS e o comunismo ficaram muito ligados aos EUA. Mas acontece que a Guerra Fria acabou e esse medo foi perdendo sentido, e outras questões de interesse nacional foram surgindo."

O presidente norte-americano, Donald Trump (à direita), se reúne com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, durante um encontro à margem do Fórum Econômico Mundial. Davos, Suíça, 21 de janeiro de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 16.06.2026
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Ele avalia que a queda do prestígio dos EUA começou com o fim da Guerra Fria e se acentuou no governo Trump.
"Desde o seu primeiro mandato, o Trump, tanto nos gestos, nas atitudes, como no discurso, ele é muito duro, muito antipático e sempre tratou os europeus de uma maneira rude, sobretudo no que diz respeito à participação dos europeus na OTAN, a contribuição europeia para a manutenção, para arcar com os custos da OTAN."
Na visão de Gonçalves, a tutela da Europa pelos EUA chegou ao fim, e hoje o governo norte-americano trata os europeus como "ultrapassados".
"Trata assim como utensílios antigos, velhos, que têm que ir para o antiquário, que não têm mais serventia, são inadequados no novo mundo."
Segundo ele, nas gestões de Barack Obama e Joe Biden, a relação com a Europa fazia parte da estratégia norte-americana, tanto pelo fato de a OTAN ser uma compradora de armas dos EUA quanto para impedir uma aliança da Alemanha com a Rússia para que não surgisse uma potência eurasiática.

"Com o Donald Trump, o foco é a China mesmo. A Eurásia não tem nenhuma importância e, portanto, a OTAN deixou de ter importância, os europeus deixaram de ter importância. Do ponto de vista do pensamento estratégico, é isso, uma aliança onerosa para os EUA."

Para Charles Pennaforte, professor de geopolítica e relações internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a pesquisa que apontou a queda recorde na confiança dos europeus em relação aos EUA reflete mais a política da administração Trump em relação à Europa. Ele observa que em seu primeiro mandato e no atual, Trump deu declarações de menosprezo à Europa, e a atuação norte-americana no Oriente Médio, principalmente em relação ao apoio a Israel, também pesa na visão que os europeus têm dos EUA.
"Então, na verdade, é uma percepção direcionada especificamente à política do governo do Donald Trump."
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Ele avalia que se o governo Trump se mantiver na linha de isolacionismo, de America First, como se apresenta, a Europa vai perder ainda mais força dentro da agenda estadunidense.
"A Europa tem que passar agora a ver o mundo de uma outra maneira, uma visão não 'americocêntrica', vamos dizer assim, e olhar para a realidade. Os tempos estão mudando e, se não diversificarem as parcerias, eles ficarão cada vez mais isolados."
Pennaforte acrescenta que a relevância da Europa hoje, do ponto de vista geopolítico-econômico, "é quase nula", e enquanto a China comanda o mundo com suas parcerias econômicas e capacidade industrial, "a Europa segue atrelada a um passado que não existe mais".
"Na visão americana do Trump, de certa maneira, é mais ou menos isso. O que eles agregam para os EUA como parceria? Nada. Eles ficam mais atrelados. São os filhos que o pai, que no caso é Washington, tem que sustentar, e eles trazem muito pouca coisa do ponto de vista efetivo-econômico."

Sai aliança atlântica, entra o BRICS

Teixeira considera a atuação do BRICS um fator importante para a reorganização das relações internacionais de países europeus. Ele destaca que vários países europeus dependem de comércio, de energia e também de exportação para países que são do BRICS e que os parceiros do grupo se mostram mais estáveis que os EUA e causam menos problemas que o aliado norte-americano.

"Nesse sentido, é importante, sim, a ascensão do BRICS dentro do cenário internacional, representando uma mudança da organização do sistema internacional e da multipolaridade. Isso tem afetado, sim, essa relação do Atlântico Norte e repensado essa proximidade entre os europeus e os EUA."

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A opinião é compartilhada por Gonçalves, que aponta que o fim da Guerra Fria trouxe uma nova configuração do sistema internacional, com o surgimento de novas potências e uma nova distribuição do poder. Um dos fatores determinantes para essa mudança foi a ascensão da China, que nas décadas seguintes se consolidou como uma potência capaz de rivalizar com os EUA, propõe uma nova ordem internacional e agrega em torno de si outros Estados. Tudo isso sem pegar em armas, à base exclusivamente do comércio e de acordos.

"É um desenvolvimento pacífico, agregador, e, portanto, isso torna o sistema internacional mais complexo e também torna inevitável a comparação da superpotência norte-americana com a grande potência chinesa e seus aliados do BRICS. Então não há a menor dúvida de que o surgimento do BRICS, liderado pela China, contribui bastante para a mudança de visão do mundo e, consequentemente, de visão do papel dos EUA nesse mundo."

Pennaforte, por sua vez, avalia que o BRICS "mostra a possibilidade de uma outra perspectiva", uma alternativa que os governos e a elite europeia buscam.
"A Europa e os EUA, na minha concepção, representam uma ordem em desagregação. A tendência é que realmente os dois percam, como já vêm perdendo, influência, projeção geopolítica, soft power, e o BRICS inevitavelmente ganhe mais projeção em função da sua capacidade econômica, dos líderes que atuam [no grupo], a China, principalmente, a entrada de novos países."
Segundo ele, tudo isso faz parte da mudança de ordem que o mundo vivencia neste século 21, que, quando chegar ao final, os EUA e os europeus "serão lembrados como países que tiveram a sua importância, mas o cenário mudou".
"Novos países surgiram e novos concertos geopolíticos, econômicos, até lá terão sido feitos. É um processo natural. No século 19, nós tínhamos a Inglaterra [como potência global], depois passou para os EUA e agora a gente está vivendo essa transformação também, que provavelmente virá da Ásia e do BRICS", conclui o analista.
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