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Parlasul com mais autonomia poderia dar mais estabilidade ao Mercosul, opina analista (VÍDEOS)

© Foto / DivulgaçãoLíderes de Estado em foto oficial da reunião do Mercosul, realizada no Paraguai, em 30 de junho de 2026
Líderes de Estado em foto oficial da reunião do Mercosul, realizada no Paraguai, em 30 de junho de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 08.07.2026
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A última cúpula do Mercosul, realizada no Paraguai, evidenciou as fraturas do bloco. Marcado pela ausência de Javier Milei, o encontro teve falas do presidente brasileiro Lula em defesa da unidade.
Além da fragmentação política, o grupo tem desafios a enfrentar, como os entraves com a União Europeia e a possibilidade de expansão para o mercado asiático.
A questão ideológica, que muitas vezes resulta em divisões e afastamentos, como acontece atualmente, principalmente entre Brasil e Argentina, esta última com alinhamento muito próximo aos Estados Unidos, acaba deixando o agrupamento vulnerável às decisões do governo de turno de seus membros.
Nesse contexto, caso o Parlasul, o parlamento do Mercosul que tem caráter consultivo, tivesse mais autonomia, com funções deliberativas, poderia permitir maior estabilidade e coesão política ao bloco, segundo Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Falando sobre o Parlasul, ajudaria um pouco a posicionar esses parlamentares de modo a garantir o interesse comum do bloco como um todo, não como um governo de turno. Acho que funcionaria nesse sentido de garantir um pouco mais de previsibilidade para as ações do bloco, trazer um pouco mais de poder político para essa instância e garantir o poder decisório", disse.

Contudo, a especialista pondera que apenas um Parlasul mais autônomo não significa a solução para todos os problemas, e cita o exemplo da UE, que tem fragmentações internas, embora tenha uma coesão política maior, ao contrário do caso sul-americano, cuja relação é basicamente restrita ao comércio.

"Claro que não é uma referência que pode dar certo. Até usando o exemplo da UE, temos visto que a própria questão do acordo com o Mercosul tem sido uma questão por lá, porque há muita divergência interna. Mas acho que isso [fortalecimento do Parlasul], de fato, seria muito relevante. Infelizmente, o Mercosul ainda é um bloco pautado por questões comerciais e muito pouco por questões políticas", comenta.

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Entraves com a UE projetam Mercosul rumo à Ásia

Diante de novos vetos europeus à carne e de restrições iminentes à soja sul-americana, o Mercosul segue buscando a diversificação de parceiros e voltando suas atenções para a Ásia, com o início de negociações comerciais com o Japão. No âmbito asiático, Bandeira de Mello relembra que o bloco já tem acordo com Singapura.

"Há aí um movimento de tentar diversificar [negociações com países da Ásia]. Para além do Japão, há negociações que podem acontecer com a Coreia do Sul. Enfim, o governo Lula também mencionou a China, que inclusive é um ponto de virada no próprio discurso brasileiro, que sempre foi muito reticente a fazer um acordo com a China por meio do Mercosul. Tem o acordo com Singapura, que acabou de ser ratificado pelo Congresso e pelo Senado", destaca.

Diante desse cenário de transições políticas e de uma economia global cada vez mais pulverizada, a analista enfatiza que fortalecer o bloco é uma prioridade do governo Lula. Como reflexo prático desse empenho, o Brasil irá aumentar sua contribuição ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), orçamento previsto para investimentos em infraestrutura nos países-membros, e sugeriu a criação de um sistema de pagamentos comum inspirado no Pix.

"Caso Lula seja reeleito em outubro, acho que vai ser uma preferência renovada [focar no Mercosul na política externa]. Essa declaração [do Brasil] de aumentar a contribuição ao Focem, a questão do Pix para tentar organizar uma infraestrutura que melhore o comércio e a própria dinâmica de pagamentos intrabloco. Isso já é uma movimentação do governo no sentido de resgatar um pouco essa integração", observa.

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Fragmentação interna estimula acordos fora do bloco

A pesquisadora também aponta que, além dos obstáculos que o acordo de livre-comércio com a União Europeia traz para as economias dos países da região, somado ao fato das divergências no âmago do Mercosul, isso faz com que os membros procurem acordos bilaterais, preterindo a negociação em bloco, o que intensifica a cisão.

"A Argentina tem buscado muito isso [acordos paralelos]. O Paraguai e o Uruguai também tentam emplacar uma agenda para além do Mercosul, tanto que foi feita uma crítica de parte do governo brasileiro de que essas negociações enfraqueceriam toda a questão da tarifa externa comum, mas, obviamente, tentando alfinetar a Argentina, que recentemente, fez um acordo com os EUA a respeito de mineirais críticos", conclui.

Um dos pilares da concepção do Mercosul é a integração entre os Estados para que, por meio do aspecto econômico, houvesse um desenvolvimento regional em outras áreas, inclusive a social. No entanto, em um mundo cada vez mais globalizado e sob pressões externas, a falta de uma coesão política mais institucionalizada acaba sendo o calcanhar de Aquiles do bloco, cujas decisões sofrem forte influência das políticas internas de seus respectivos membros.
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