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Isenções do tarifaço são 'brecha interessante' para Brasília explorar, afirmam analistas

© AP Photo / Eraldo PeresDa esquerda para a direita: Fernando Haddad, então ministro da Fazenda; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB); o vice-presidente Geraldo Alckmin; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Os representantes posam para foto durante a cerimônia de assinatura do Plano Brasil Soberano, em Brasília (DF)
Da esquerda para a direita: Fernando Haddad, então ministro da Fazenda; o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB); o vice-presidente Geraldo Alckmin; o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Os representantes posam para foto durante a cerimônia de assinatura do Plano Brasil Soberano, em Brasília (DF) - Sputnik Brasil, 1920, 22.07.2026
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Tarifas recomendadas pelo USTR passam a valer nesta quarta-feira (22), mas com uma lista de produtos isentos maior do que sua primeira versão, em 2025.
Itens brasileiros que poderiam mexer com a inflação nos EUA — laranja, café, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves — o que representaria quase dois terços das exportações brasileiras para o país norte-americano, foram poupados da sobretaxa de 25%.
Sob pressão das eleições de meio de mandato, em novembro, e os impactos da inflação no bolso dos cidadãos, a Casa Branca foi conservadora em comparação com o primeiro tarifaço, em meados de 2025, tendo taxado o Brasil em 50% em todas as importações.
O escopo reduzido dessa rodada mostra a importância da economia brasileira para os EUA?
Um navio porta-contêineres se aproxima do porto de Santos, no Brasil - Sputnik Brasil, 1920, 20.07.2026
Panorama internacional
'Há uma convergência entre Estado e mercado': os interesses por trás da Seção 301 contra o Brasil

Mesmo nome, dois tarifaços

A princípio, diz Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em Economia do Insper, embora as tarifas norte-americanas impactem a economia brasileira, a nova rodada de medidas terá um efeito mínimo com a do ano passado, uma vez que mais de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão de fora, seja por já contar com outros regimes tributários ou por estar na lista de exceções.
Com isso, o impacto tende a se concentrar em segmentos específicos da economia. Cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano foram efetivamente atingidas pela sobretaxa, envolvendo aproximadamente US$ 7 bilhões (mais de R$ 35 bilhões) em vendas.

"Não é um choque generalizado […] É um impacto que existe, mas é bem concentrado em alguns setores. Não é sistêmico, como seria o primeiro tarifaço, sem exceções, se tivesse sido implementado."

Esse movimento já se reflete nos números do comércio exterior. As exportações brasileiras em contêineres para os Estados Unidos perderam participação nos últimos anos, caindo de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025, segundo dados da consultoria Solve Shipping Intelligence. Em sentido oposto, a participação da Ásia avançou de 27% para 33%, enquanto a do Oriente Médio chegou a aproximadamente 20% no mesmo período.
A reconfiguração dos fluxos comerciais também alterou a logística marítima. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, a capacidade mensal de transporte entre Brasil e Ásia cresceu cerca de 127%, alcançando 355 mil TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Em contraste, a capacidade da rota para a Costa Leste dos Estados Unidos recuou aproximadamente 22%.
Como os navios chegam ao Brasil carregados de produtos asiáticos e retornam com espaço disponível, o frete de volta tende a ser mais competitivo, reforçando a migração gradual das exportações brasileiras para novos mercados.
"O fato de haver mais de um ano desde que as tarifas começaram a ser impostas nesse patamar sem dúvida ajudou a que o exportador pudesse construir essas outras parcerias", afirma à reportagem Armando Manuel da Rocha Castelar, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito Rio). "A própria aplicação da Seção 301 era esperada há algum tempo."
"O impacto nos dois casos, do consumidor estadunidense e do exportador brasileiro, depende um pouco de haver alternativas", afirma. O economista ressalta, contudo, que essa adaptação não ocorre de forma homogênea e que as isenções dadas a muitos produtos refletem, sobretudo, casos em que o impacto seria mais significativo para o consumidor estadunidense.

"Em geral é mais fácil redirecionar as exportações de commodities, e mais difícil as de bens manufaturados."

Complementando a análise, Inhasz avalia que o maior peso da medida tende a recair sobre o empresário brasileiro mais dependente do mercado norte-americano e com menor capacidade de redirecionar suas vendas.

"Se o preço aumentar, o consumidor americano simplesmente não compra e sofre pouco. Quem acaba arcando com o custo é o produtor brasileiro, que precisa apertar a margem para continuar competitivo."

Movimentos sindicais e sociais protestam contra medidas econômicas do governo dos EUA contra o Brasil, na frente da Embaixada americana em Brasília (DF). Brasil, 1º de agosto de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 16.07.2026
Notícias do Brasil
Análise: acionar Lei da Reciprocidade contra o tarifaço pode ser tiro no pé do Brasil

Lista de vulnerabilidades de Washington?

Ao retirar vários itens brasileiros da mira do tarifaço, a economista enxerga uma "brecha interessante" que o Brasil pode utilizar nas negociações, tanto no sentido político quanto econômico.

"Se a gente está falando que 60 e poucos por cento das exportações brasileiras que são feitas para os Estados Unidos estão saindo da tarifa, isso mostra que a economia americana não consegue se dar ao luxo de fechar as portas das negociações com o Brasil de maneira estrita."

Assim, Brasília teria espaço para pressionar Washington, seja para evitar uma nova rodada de tarifas por meio da Lei da Reciprocidade Econômica, seja para ampliar sua margem de negociação sem necessariamente recorrer ao instrumento jurídico brasileiro. Contudo, Inhasz considera que uma resposta baseada em retaliações diretas tende a produzir mais custos do que benefícios para o Brasil.
"No longo prazo, o caminho mais estratégico e mais inteligente continua sendo a negociação. Retaliar importações americanas pode até parecer uma vantagem no curto prazo, inclusive politicamente, mas aumenta muito o risco inflacionário e o custo para as cadeias produtivas aqui no Brasil."
Na sua avaliação, uma escalada das tensões comerciais encareceria insumos, dificultaria a produção nacional e poderia elevar os preços para os consumidores brasileiros. Por isso, defende que o país utilize a reciprocidade de forma calibrada.

"Usar a reciprocidade com inteligência, de uma maneira bem-equilibrada, com apoio dos setores e diversificação de mercados, preserva muito a margem que o Brasil tem para negociar. O ideal é responder de uma forma estratégica, mantendo a pressão e pedindo negociação, sem transformar esse momento numa guerra comercial. Nós temos muito mais a perder do que eles."

Na mesma linha, Castelar aponta que o Brasil já tem tarifas bem elevadas de importação e a reciprocidade não mudaria muito o quadro de disputa comercial, podendo complicar mais a questão diplomática com os EUA.

"Acho que a resposta está em traçar uma estratégia mais de longo prazo que reflita esse mundo diferente que passou a prevalecer, não em dar respostas imediatas cujo impacto seria mais emocional que prático."

Nesse sentido, avalia, a opção hoje disponível, usar a Lei da Reciprocidade, teria um impacto negativo maior do que o positivo. Em paralelo, a agenda de negociação teria um foco maior em áreas como terras raras do que café ou suco de laranja. Por isso, o ideal seria repensar a agenda geopolítica brasileira.

"Não me parece que esses bens tenham um impacto suficiente sobre o consumidor americano para funcionar como alavanca de negociação até as eleições de novembro. […] Mas isso vai ser muito influenciado pelo resultado das eleições presidenciais do Brasil."

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