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'Uma ilha' de alta tecnologia: qual é o potencial e quais são os limites da Embraer?
'Uma ilha' de alta tecnologia: qual é o potencial e quais são os limites da Embraer?
Sputnik Brasil
O momento vivido pela empresa aeronáutica levanta uma questão que vai além do desempenho financeiro: trata-se apenas de um ciclo positivo ou o surgimento de... 11.08.2026, Sputnik Brasil
2026-08-11T17:30-0300
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Após quase ser vendida para a Boeing em 2018, a Embraer atravessa um dos períodos mais promissores de sua história e pode estar diante de uma oportunidade rara para ampliar seu espaço no mercado mundial de aviação. A avaliação foi feita pela revista britânica The Economist, que aponta uma combinação de fatores favoráveis à fabricante brasileira, enquanto Airbus e Boeing enfrentam dificuldades para atender à demanda global por novas aeronaves.A Embraer encerrou um ciclo de forte expansão, com valorização de aproximadamente dez vezes de suas ações desde o início de 2021 e uma carteira de pedidos firmes de US$ 34,5 bilhões, a maior da história da companhia. A empresa espera entregar 255 aeronaves em 2026, contra 141 em 2021.Ao mesmo tempo, Airbus e Boeing acumulam uma fila de cerca de 16 mil aeronaves comerciais, com prazos de entrega que podem chegar a oito ou dez anos em alguns modelos, enquanto os jatos E2 da Embraer podem ser entregues em menos de dois anos.A própria empresa projeta uma demanda global de 8.500 aeronaves de até 150 assentos entre 2026 e 2045, em um mercado estimado em US$ 650 bilhões. Mais da metade desses aviões deverá substituir modelos antigos, enquanto o restante atenderá à expansão da malha aérea, especialmente em mercados regionais.Para Fernando De Borthole, aviador e diretor do programa Aero, Por Trás da Aviação, a oportunidade atual da Embraer é resultado de um desequilíbrio entre a demanda global por aeronaves e a capacidade da indústria de entregá-las.Hoje, as companhias aéreas já superaram os níveis de transporte anteriores à pandemia e precisam renovar e ampliar suas frotas, mas os fabricantes não conseguem acompanhar a velocidade da demanda.Ao mesmo tempo, as empresas aéreas passaram a priorizar aeronaves mais eficientes e capazes de conectar cidades diretamente, sem depender necessariamente de grandes hubs, o que favorece o E2 da Embraer. Borthole pondera, porém, que a Embraer não deve ser vista como uma concorrente integral de Airbus e Boeing.A fabricante brasileira ocupa sobretudo o segmento de aeronaves entre 100 e 150 passageiros, no qual o E195-E2 disputa espaço principalmente com o A220, enquanto as gigantes possuem portfólios que avançam para aeronaves maiores e de longo alcance.A oportunidade, entretanto, pode deixar um legado de longo prazo: uma vez que uma companhia aérea incorpora aeronaves da Embraer, precisa investir em treinamento, manutenção, peças e infraestrutura para operar o novo modelo. Por isso, mesmo que os gargalos de Airbus e Boeing sejam temporários, os clientes conquistados pela fabricante brasileira podem permanecer por décadas.Essa combinação entre tecnologia, exportação e relações de longo prazo também explica, para Borthole, o peso da Embraer para a diplomacia comercial brasileira. Ao contrário de empresas que exportam commodities, a fabricante vende tecnologia e engenharia de alto valor agregado.Segundo José Augusto Zague, pesquisador de pós-doutorado do projeto Pró-Defesa V pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI-Unesp) e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) da mesma universidade, é importante também olhar para a expansão da Embraer no setor de defesa.Para ele, especialmente o KC-390 tem projetado comercialmente a empresa e o Brasil no exterior, com vendas para países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e outros mercados. O modelo, desenvolvido a partir de uma demanda da Força Aérea Brasileira (FAB), tem potencial para substituir o C-130 Hercules, de fabricação estadunidense, em diferentes forças aéreas.É justamente por esse destaque no setor de defesa, cujas soluções da empresas estão presentes em mais de 60 países, que Borthole vê na empresa o potencial para exercer um papel semelhante ao de companhias como Petrobras e grandes construtoras na abertura de portas para o Brasil no exterior.Zaque, contudo, é mais cuidadoso e afirma que a Embraer é uma exceção dentro da indústria brasileira, tanto no setor de defesa quanto na indústria de alta tecnologia. Para ele, o sucesso internacional da fabricante não é suficiente, por si só, para ampliar a influência do Brasil, uma vez que é uma das poucas capaz de produzir alta tecnologia.Além disso, aponta que a Embraer ainda depende de fornecedores estrangeiros para componentes críticos de suas aeronaves, como motores, aviônicos e sistemas computadorizados de voo. Essa dependência pode impor limites à autonomia brasileira e até afetar a capacidade de exportação dos produtos.No caso do KC-390, por exemplo, um eventual veto do país responsável por um componente poderia impedir a venda da aeronave a determinados mercados. Assim, o diferencial brasileiro está principalmente na engenharia aeronáutica de excelência, responsável pelo desenvolvimento e pelas inovações incorporadas às aeronaves da companhia.
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'Uma ilha' de alta tecnologia: qual é o potencial e quais são os limites da Embraer?
17:30 11.08.2026 (atualizado: 18:28 11.08.2026) Especiais
O momento vivido pela empresa aeronáutica levanta uma questão que vai além do desempenho financeiro: trata-se apenas de um ciclo positivo ou o surgimento de uma nova gigante brasileira? Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil comentam.
Após quase ser vendida para a Boeing em 2018,
a Embraer atravessa um dos períodos mais promissores de sua história e pode estar diante de uma oportunidade rara para ampliar seu espaço no mercado mundial de aviação. A avaliação foi
feita pela revista britânica The Economist, que aponta uma combinação de fatores favoráveis à fabricante brasileira, enquanto Airbus e Boeing enfrentam dificuldades para atender à demanda global por novas aeronaves.
A Embraer encerrou um ciclo de forte expansão, com valorização de aproximadamente dez vezes de suas ações desde o início de 2021 e uma carteira de pedidos firmes de US$ 34,5 bilhões, a maior da história da companhia. A empresa espera entregar 255 aeronaves em 2026, contra 141 em 2021.
Ao mesmo tempo, Airbus e Boeing acumulam uma fila de cerca de 16 mil aeronaves comerciais, com prazos de entrega que podem chegar a oito ou dez anos em alguns modelos, enquanto os jatos E2 da Embraer podem ser entregues em menos de dois anos.
A própria empresa projeta uma demanda global de 8.500 aeronaves de até 150 assentos entre 2026 e 2045, em um mercado estimado em US$ 650 bilhões. Mais da metade desses aviões deverá substituir modelos antigos, enquanto o restante atenderá à expansão da malha aérea, especialmente em mercados regionais.
Para Fernando De Borthole, aviador e diretor do programa Aero, Por Trás da Aviação, a oportunidade atual da Embraer é resultado de um desequilíbrio entre a demanda global por aeronaves e a capacidade da indústria de entregá-las.
Hoje, as companhias aéreas já superaram os níveis de transporte anteriores à pandemia e precisam renovar e ampliar suas frotas, mas os fabricantes não conseguem acompanhar a velocidade da demanda.
Ao mesmo tempo, as empresas aéreas passaram a priorizar aeronaves mais eficientes e capazes de conectar cidades diretamente, sem depender necessariamente de grandes hubs, o que favorece o E2 da Embraer. Borthole pondera, porém, que a Embraer não deve ser vista como uma concorrente integral de Airbus e Boeing.
A fabricante brasileira ocupa sobretudo o segmento de aeronaves entre 100 e 150 passageiros, no qual o E195-E2 disputa espaço principalmente com o A220, enquanto as gigantes possuem portfólios que avançam para aeronaves maiores e de longo alcance.
"Onde a Embraer termina, essas outras empresas começam o portfólio."
A oportunidade, entretanto, pode deixar um legado de longo prazo: uma vez que uma companhia aérea incorpora aeronaves da Embraer, precisa investir em treinamento, manutenção, peças e infraestrutura para operar o novo modelo. Por isso, mesmo que os gargalos de Airbus e Boeing sejam temporários, os clientes conquistados pela fabricante brasileira podem permanecer por décadas.
Essa combinação entre tecnologia, exportação e relações de longo prazo também explica, para Borthole, o peso da Embraer para a diplomacia comercial brasileira. Ao contrário de empresas que exportam commodities, a fabricante vende tecnologia e engenharia de alto valor agregado.
Segundo José Augusto Zague, pesquisador de pós-doutorado do projeto Pró-Defesa V pelo Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI-Unesp) e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES) da mesma universidade, é importante também olhar para a expansão da Embraer no setor de defesa.
Para ele,
especialmente o KC-390 tem projetado comercialmente a empresa e o Brasil no exterior, com vendas para países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e outros mercados. O modelo, desenvolvido a partir de uma demanda da Força Aérea Brasileira (FAB), tem potencial para substituir o C-130 Hercules, de fabricação estadunidense, em diferentes forças aéreas.
É justamente por esse
destaque no setor de defesa, cujas soluções da empresas estão presentes em mais de 60 países, que Borthole vê na empresa o potencial para exercer um papel semelhante ao de companhias como Petrobras e grandes construtoras na abertura de portas para o Brasil no exterior.
"Hoje, o ativo que o Brasil coloca no mercado com a Embraer é tecnologia, engenharia e indústria de altíssima complexidade."
Zaque, contudo, é mais cuidadoso e afirma que a Embraer é uma exceção dentro da indústria brasileira, tanto no setor de defesa quanto na indústria de alta tecnologia. Para ele, o sucesso internacional da fabricante não é suficiente, por si só, para ampliar a influência do Brasil, uma vez que é uma das poucas capaz de produzir alta tecnologia.
Além disso, aponta que a Embraer ainda depende de fornecedores estrangeiros para componentes críticos de suas aeronaves, como motores, aviônicos e sistemas computadorizados de voo. Essa dependência pode impor limites à autonomia brasileira e até afetar a capacidade de exportação dos produtos.
No caso do KC-390, por exemplo, um eventual veto do país responsável por um componente poderia impedir a venda da aeronave a determinados mercados. Assim, o diferencial brasileiro está principalmente na engenharia aeronáutica de excelência, responsável pelo desenvolvimento e pelas inovações incorporadas às aeronaves da companhia.
"É uma empresa que nós podemos dizer que é como se fosse uma ilha, do ponto de vista da produção de tecnologia mais avançada."
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