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Flexibilidade ideológica do centrão passou a ser uma fragilidade, aponta especialista
Flexibilidade ideológica do centrão passou a ser uma fragilidade, aponta especialista
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Diante do crescimento da bancada bolsonarista e do encolhimento de partidos tradicionalmente associados ao centrão, uma aproximação com o governo pode se... 04.11.2026, Sputnik Brasil
2026-11-04T18:31-0300
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O centrão, por muito tempo, surfou na onda dos governos do PT para ampliar seu espaço nacional, em uma relação de interesses que favorecia a ambos. Agora, após tentar embarcar nas pautas da direita de Flávio Bolsonaro, ainda que de maneira discreta, o bloco se viu pressionado pelo avanço do PL nas eleições de 2026.As movimentações já começam a aparecer, como na busca de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) pela reeleição às presidências da Câmara e do Senado. A questão é se o centrão conseguirá recompor sua influência por meio de uma aliança com o Executivo ou se cederá ainda mais espaço à direita bolsonarista.Para Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a disputa do centrão não está necessariamente relacionada a um projeto político ou ideológico, mas ao acesso à estrutura do Estado. "Quem controla o orçamento, ministérios e cargos é o Executivo […]. E esse Executivo será o Lula até 2030", explica.No primeiro turno, o PL conquistou 23 cadeiras na Câmara, alcançando a marca histórica de 121 deputados federais eleitos, enquanto venceu 19 das 54 disputas para o Senado, o equivalente a 35,2% das vagas, e chegou a 28 senadores entre os 81 integrantes da Casa. Em contrapartida, o centrão perdeu 19 cadeiras na Câmara, passando de 226 para 207 deputados. No Senado, partidos como PSD, PP e MDB, juntos, ficaram com 11 assentos a menos.Assim, uma aproximação com o governo pode representar mais do que a manutenção de espaços e recursos. Segundo Prando, também seria uma forma de conter um concorrente que disputa parte do mesmo eleitorado conservador. O movimento, entretanto, envolveria riscos eleitorais para os partidos do bloco, que poderiam perder votos em 2030 ao ser identificados como aliados de um governo de esquerda.O cientista político avalia que a flexibilidade ideológica do centrão, historicamente utilizada para negociar com diferentes governos, passou a representar uma fragilidade diante da polarização política. Com o fortalecimento de identidades ideológicas entre os eleitores, o pragmatismo do bloco dificulta a construção de uma imagem própria perante o eleitorado conservador.Também ouvido pela Sputnik Brasil, Bruno Bolognesi, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que a questão também passa pela diferença entre a dinâmica parlamentar e a eleitoral.Bolognesi aponta que a disputa eleitoral passou a depender de fatores que extrapolam a atuação parlamentar, como a presença nas redes sociais e a reputação construída fora do Congresso. Ele cita como exemplos as deputadas Sâmia Bomfim e Erika Hilton, do Psol de São Paulo, e os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), com projeção pública para além de suas atividades legislativas.Por isso, o professor considera provável uma aproximação entre o centrão e o governo Lula, mas ressalta que o movimento seria motivado principalmente por interesses de sobrevivência política, e não por convergência ideológica.Embora o nome sugira uma posição intermediária, o bloco reúne partidos de centro-direita e direita, com atuação marcada pelo pragmatismo. "É uma centro-direita muito fisiológica, muito pragmática, fica muito preocupada com a sua própria sobrevivência."A aproximação, contudo, não estaria livre de divergências. A proposta de adoção do voto distrital misto, defendida por Motta, e a possibilidade de Alcolumbre apoiar uma anistia ou um indulto a Jair Bolsonaro (PL) em troca de apoio à sua reeleição ao comando do Senado são exemplos de pautas que podem gerar atritos com o governo e partidos da esquerda.Ainda assim, Bolognesi avalia que essas diferenças não necessariamente impediriam um acordo, uma vez que os interesses eleitorais e a distribuição de emendas parlamentares teriam peso central nas negociações. Para ele, a proposta de voto distrital misto também pode favorecer parlamentares do centrão com bases eleitorais geograficamente concentradas e relações mais personalizadas com os eleitores.Partidos como PT e Psol, cuja representação depende mais de vínculos ideológicos, classistas e corporativos, teriam menos incentivos para apoiar a mudança. O professor, porém, não considera que essa resistência seja suficiente para barrar a reforma.Outro fator apontado que poderia facilitar as negociações seria a existência de divergências internas no PL. A legenda não apresenta o mesmo grau de coesão de partidos como PT, Psol e Novo, o que abriria espaço para Lula negociar com setores mais pragmáticos da bancada bolsonarista, especialmente aqueles ligados ao presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.A eventual composição, entretanto, não significaria uma aliança permanente ou um alinhamento integral entre os partidos. Prando avalia que a tendência seria a manutenção de um modelo de negociações pontuais, em que o governo buscaria apoio conforme as pautas apresentadas ao Congresso."Os partidos mais alinhados à direita conquistaram cerca de 276 cadeiras na Câmara. O resultado mais provável é o presidencialismo de coalizão, no sentido até clássico, descrito pelo Sérgio Abranches. Apoio votação a votação, um apoio pauta a pauta, mas sem um casamento, uma conexão extremamente forte nesses grupos políticos", explica.Para além dos interesses do centrão, Bolognesi ressalta que o governo precisaria estabelecer limites e prioridades para que uma eventual aliança não se resumisse à distribuição de cargos e recursos. Lula teria de apresentar uma agenda própria de políticas públicas, evitando que o bloco se tornasse o principal responsável pelas decisões e entregas do Executivo.O professor avalia que, sem uma direção política definida, o centrão poderia continuar ocupando a posição de fiel da balança no Congresso e reivindicar protagonismo pelas realizações do governo.
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Emendas e reforma eleitoral podem aproximar centrão de Lula, avalia cientista político
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Emendas e reforma eleitoral podem aproximar centrão de Lula, avalia cientista político.
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Lula precisa apresentar agenda própria para não ficar refém do centrão, avalia cientista político
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Lula precisa apresentar agenda própria para não ficar refém do centrão, avalia cientista político.
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hugo motta, davi alcolumbre, flávio bolsonaro, pl, exclusiva, centrão, senado federal, câmara dos deputados, congresso nacional, luiz inácio lula da silva, ideologia, direita, extrema-direita, negociação
Flexibilidade ideológica do centrão passou a ser uma fragilidade, aponta especialista
18:31 04.11.2026 (atualizado: 20:53 04.11.2026) Especiais
Diante do crescimento da bancada bolsonarista e do encolhimento de partidos tradicionalmente associados ao centrão, uma aproximação com o governo pode se tornar uma estratégia de sobrevivência política para o bloco. Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam como tal aliança pode se dar no quarto mandato do presidente Lula.
O centrão, por muito tempo, surfou na onda dos governos do PT para ampliar seu espaço nacional, em uma relação de interesses que favorecia a ambos. Agora, após tentar embarcar nas pautas da direita de
Flávio Bolsonaro, ainda que de maneira discreta, o bloco se viu pressionado pelo avanço do PL nas eleições de 2026.
As movimentações já começam a aparecer, como na busca de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) pela reeleição às presidências da Câmara e do Senado. A questão é se o centrão conseguirá recompor sua influência por meio de uma aliança com o Executivo ou se cederá ainda mais espaço à direita bolsonarista.
Para Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a disputa do centrão não está necessariamente relacionada a um projeto político ou ideológico, mas ao acesso à estrutura do Estado. "Quem controla o orçamento, ministérios e cargos é o Executivo […]. E esse Executivo será o Lula até 2030", explica.
No primeiro turno, o PL conquistou 23 cadeiras na Câmara, alcançando a marca histórica de 121 deputados federais eleitos, enquanto venceu 19 das 54 disputas para o Senado, o equivalente a 35,2% das vagas, e chegou a 28 senadores entre os 81 integrantes da Casa. Em contrapartida, o centrão perdeu 19 cadeiras na Câmara, passando de 226 para 207 deputados. No Senado, partidos como PSD, PP e MDB, juntos, ficaram com 11 assentos a menos.
Assim, uma aproximação com o governo pode representar mais do que a manutenção de espaços e recursos. Segundo Prando, também seria uma forma de conter um concorrente que disputa parte do mesmo eleitorado conservador. O movimento, entretanto, envolveria riscos eleitorais para os partidos do bloco, que poderiam perder votos em 2030 ao ser identificados como aliados de um governo de esquerda.
O cientista político avalia que a flexibilidade ideológica do centrão, historicamente utilizada para negociar com diferentes governos, passou a representar uma fragilidade diante da polarização política. Com o fortalecimento de identidades ideológicas entre os eleitores, o pragmatismo do bloco dificulta a construção de uma imagem própria perante o eleitorado conservador.
"Quem está em dúvida, de certa forma, acaba preferindo o original, o bolsonarismo, que tem um conteúdo ideológico muito claro, a uma versão mais pragmática que o centrão representa."
Também ouvido pela Sputnik Brasil, Bruno Bolognesi, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diz que a questão também passa pela diferença entre a dinâmica parlamentar e a eleitoral.
"Tem uma tentativa que os deputados fizeram nas últimas eleições — e que foi malsucedida — que é essa ideia de que emendas parlamentares garantiriam a reeleição, o que não foi exatamente o que aconteceu."
Bolognesi aponta que a disputa eleitoral passou a depender de fatores que extrapolam a atuação parlamentar, como a
presença nas redes sociais e a
reputação construída fora do Congresso. Ele cita como exemplos as deputadas Sâmia Bomfim e Erika Hilton, do Psol de São Paulo, e os deputados
Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), com projeção pública para além de suas atividades legislativas.
Por isso, o professor considera provável uma aproximação entre o centrão e o governo Lula, mas ressalta que o movimento seria motivado principalmente por interesses de sobrevivência política, e não por convergência ideológica.
Embora o nome sugira uma posição intermediária, o bloco reúne partidos de centro-direita e direita, com atuação marcada pelo pragmatismo. "É uma centro-direita muito fisiológica, muito pragmática, fica muito preocupada com a sua própria sobrevivência."
A aproximação, contudo, não estaria livre de divergências. A proposta de adoção do
voto distrital misto, defendida por Motta, e a possibilidade de Alcolumbre
apoiar uma anistia ou um indulto a Jair Bolsonaro (PL) em troca de apoio à sua reeleição ao comando do Senado são exemplos de pautas que podem gerar atritos com o governo e partidos da esquerda.
Ainda assim, Bolognesi avalia que essas diferenças não necessariamente impediriam um acordo, uma vez que os interesses eleitorais e a distribuição de emendas parlamentares teriam peso central nas negociações. Para ele, a proposta de voto distrital misto também pode favorecer parlamentares do centrão com bases eleitorais geograficamente concentradas e relações mais personalizadas com os eleitores.
Partidos como PT e Psol, cuja representação depende mais de vínculos ideológicos, classistas e corporativos, teriam menos incentivos para apoiar a mudança. O professor, porém, não considera que essa resistência seja suficiente para barrar a reforma.
Outro fator apontado que poderia facilitar as negociações seria a existência de divergências internas no PL. A legenda não apresenta o mesmo grau de coesão de partidos como PT, Psol e Novo, o que abriria espaço para Lula negociar com setores mais pragmáticos da bancada bolsonarista, especialmente aqueles ligados ao presidente da sigla, Valdemar Costa Neto.
"Seria pouco inteligente do presidente Lula se ele não explorasse essa fragilidade do PL."
A eventual composição, entretanto, não significaria uma aliança permanente ou um alinhamento integral entre os partidos. Prando avalia que a tendência seria a manutenção de um
modelo de negociações pontuais, em que o governo buscaria apoio conforme as
pautas apresentadas ao Congresso."Os partidos mais alinhados à direita conquistaram cerca de 276 cadeiras na Câmara. O resultado mais provável é o presidencialismo de coalizão, no sentido até clássico, descrito pelo Sérgio Abranches. Apoio votação a votação, um apoio pauta a pauta, mas sem um casamento, uma conexão extremamente forte nesses grupos políticos", explica.
Para além dos interesses do centrão, Bolognesi ressalta que o governo precisaria estabelecer limites e prioridades para que uma eventual aliança não se resumisse à distribuição de cargos e recursos. Lula teria de apresentar uma agenda própria de políticas públicas, evitando que o bloco se tornasse o principal responsável pelas decisões e entregas do Executivo.
"É melhor você ter uma agenda cara e pagar caro para ela passar, e conseguir ter uma política pública, um rumo para o governo, do que você ficar meio sem rumo, como o governo do PT ficou", argumenta.
O professor avalia que, sem uma direção política definida, o centrão poderia continuar ocupando a posição de fiel da balança no Congresso e reivindicar protagonismo pelas realizações do governo.
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