Invasão da Venezuela e ameaças: EUA empurram América Latina para uma corrida armamentista?
19:22, 13 de janeiro 2026
Em menos de cinco horas, os EUA realizaram um ataque surpresa contra a Venezuela que levou ao sequestro da figura política mais importante do país: o presidente. Dias depois, voltou a ameaçar, inclusive com uso de força militar, países como Colômbia e Cuba. Especialistas avaliam se o novo cenário pode gerar corrida armamentista na América Latina.
SputnikDe uma região que por muito tempo
viveu sem registros de conflitos abertos entre Estados, a América Latina passou a viver uma mudança brusca que chocou o mundo logo nos primeiros dias de 2026: em uma ação que levou menos de cinco horas, os
Estados Unidos invadiram a Venezuela, provocaram a morte de pelo menos 100 pessoas (incluindo militares e civis) e ainda sequestraram o
presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores.
Dias depois, o líder norte-americano, Donald Trump, afirmou que o
próximo alvo seria a Colômbia, sempre com a justificativa de que as ações visam o combate ao narcotráfico, ou narcoterrorismo, como o governo estadunidense passou a denominar o crime. Já nesta semana, foi a vez das ameaças atingirem Cuba, quando Trump afirmou que seria "melhor fazer um acordo antes que seja tarde".
Enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou,
sem muitos efeitos práticos, que a iniciativa norte-americana abalou o direito internacional e pode gerar impactos ainda maiores ao país, que há anos convive com fortes sanções econômicas, órgãos multilaterais da América Latina pouco se mobilizaram. É justamente essa vulnerabilidade, produzida pela
desarticulação política entre os países da região, que os Estados Unidos exploram, avalia à Sputnik Brasil a professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Fernanda Nanci Gonçalves.
"A resposta mais eficaz da América Latina a episódios de intervenção ou coerção externa não é militar, mas política e diplomática. A coordenação entre governos por meio de mecanismos como a CELAC [Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos], a atuação conjunta em fóruns multilaterais como a ONU e o uso de instrumentos diplomáticos regionais são fundamentais para elevar o custo político de ações unilaterais. Mas, hoje, o principal fator de vulnerabilidade estratégica da região é justamente sua fragmentação política", detalha.
Para a especialista, o episódio tende mais a ampliar "o temor político de militarização do que provocar uma corrida armamentista clássica". Isso porque, conforme Gonçalves, boa parte dos países latino-americanos sequer possuem capacidade fiscal ou industrial que sustente uma escalada militar prolongada na região.
A internacionalista e cientista militar Amanda Marini concorda e acrescenta à Sputnik Brasil que o maior impacto das ações dos Estados Unidos é justamente expor as "limitações estruturais da América Latina" para reagir de forma coletiva às pressões externas.
"O episódio expõe vulnerabilidades e reacende debates sobre segurança e dissuasão, mas não altera, por si só, os padrões históricos e estruturais predominantes. Com um recorte geográfico, é importante lembrar que a América do Sul, por exemplo, sempre foi considerada [...] como sendo uma região pouco marcada por conflitos interestatais. O grande dilema não tem sido a guerra entre Estados, mas sim instabilidades internas, fragilidades institucionais, desigualdades sociais e crises políticas recorrentes", explica.
Esse contexto político, segundo a analista, também ajuda a explicar o motivo dos países da região não terem desenvolvido
capacidades militares robustas, como acontece em outras partes do globo, inclusive em territórios com menor poder econômico.
"Assim, o temor gerado pelo ocorrido na Venezuela tende a se traduzir menos em uma corrida armamentista imediata e mais em uma sensação de insegurança estratégica, especialmente diante da ausência de mecanismos regionais de coordenação em matéria de defesa", cita.
Já a pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Beatriz Bandeira de Mello alerta que a primeira intervenção militar direta dos Estados Unidos sobre a América do Sul abre um "precedente muito perigoso" para todo o continente latino-americano.
"O que acontece é que os países hoje, coletivamente, não têm muitas saídas para responder a esses ataques dos Estados Unidos. Vimos recentemente que, desde que o governo do Donald Trump decidiu enviar tropas para o mar do Caribe, para a costa da Venezuela, houve muito pouca articulação em nível multilateral na nossa região. As instâncias multilaterais nas quais os países estão filiados se encontram em um momento muito delicado. É o exemplo também da Unasul [União de Nações Sul-Americanas], que sofre há anos com um esvaziamento", argumenta à Sputnik Brasil.
A especialista lembra ainda do caso do México, que voltou a ser ameaçado por Trump de uma intervenção militar, mas que as articulações para contornar as sucessivas crises ocorrem de forma bilateral, sem que a discussão passasse por qualquer entendimento conjunto com outros países. "Não há uma articulação política regional em temas tão sensíveis como a defesa da América Latina, a soberania e o próprio posicionamento coletivo desses países frente a essas questões. Essa intervenção direta dos Estados Unidos (na Venezuela e frente a essas ameaças constantes que o governo do Donald Trump vem fazendo) reforçam esse cenário", diz.
Paralisia do Conselho de Defesa Sul-Americano
Diante de divergências políticas sobre a condução da Unasul, pelo menos metade dos países-membros retiraram ou suspenderam sua adesão ao grupo a partir de 2018, episódio que também levou à paralisação das reuniões do
Conselho de Defesa Sul-Americano. Criado em 2008, o órgão atuava como uma coordenação militar regional que facilitava o diálogo entre as forças armadas da região e também o gerenciamento de crise. Porém, deixou de realizar atividades significativas e
exercícios militares conjuntos há pelo menos sete anos.
Conforme Amanda Marini, a única instância até então capaz de articular uma cooperação militar estratégica na América do Sul foi esvaziada antes mesmo de se consolidar plenamente. "Em cenários como o atual, sua ausência se torna particularmente evidente, pois, caso tivesse funcionado em sua plenitude, a região provavelmente não estaria hoje exposta a um grau tão elevado de instabilidade, nem enfrentaria de forma tão aguda as fragilidades existentes em matéria de segurança e defesa", enfatiza.
Junto com esse enfraquecimento institucional, somado à perda de legitimidade de instituições como a própria
Organização dos Estados Americanos (OEA), as respostas na América do Sul sobre os próprios desafios ocorre de forma
"fragmentada, reativa e de curto prazo", complementa a especialista.
A professora Fernanda Nanci vê ainda como principal obstáculo para tratar a segurança regional latino-americana como uma agenda comum a falta de vontade política de muitos governos. "A Unasul está paralisada e a CELAC, apesar de funcionar, vem se mostrando mais como espaço retórico do que efetivamente como um instrumento prático de gestão de crise. Isso exige protocolos claros de consulta, mecanismos de mediação e compromisso real com prevenção de conflitos [...]. Sem esse esforço coletivo, a região seguirá vulnerável não apenas às pressões externas, mas também à sua própria desarticulação".
Autonomia militar na América Latina é viável?
Mesmo que as pressões cada vez maiores dos Estados Unidos sobre a América Latina desencadeiem uma corrida armamentista, a pesquisadora Beatriz Bandeira de Mello afirma que a questão esbarra sobre uma outra barreira: grande parte das importações e exportações do setor de defesa na região também passam pela indústria armamentista dos Estados Unidos.
"Israel também ocupa um papel estratégico nessa cadeia. Essa dependência cria uma camada extra de sensibilidade, porque muitos países ainda dependem dessa aliança estratégica com os Estados Unidos", resume.
Aliado a isso, a cientista militar Amanda Marini lembra que os investimentos em defesa não devem ser confundidos com "a promoção da guerra", mas sim um instrumento de proteção da soberania, garantia da segurança e preservação da estabilidade regional.
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