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'Se não é o maior crime, qual foi?': ex-ministro critica EUA e aliados por não condenarem escravidão
'Se não é o maior crime, qual foi?': ex-ministro critica EUA e aliados por não condenarem escravidão
Sputnik Brasil
Em entrevista para a Sputnik Brasil, Edson Santos afirma que reconhecimento do passado exige ações concretas e destaca impacto da escravidão no Brasil. 27.03.2026, Sputnik Brasil
2026-03-27T17:45-0300
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À Sputnik Brasil, Edson Santos, ex-ministro da Igualdade Racial no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e atual secretário da Secretaria Especial de Direitos Humanos e Igualdade Racial (SEDHIR), disse que a moção da Organização das Nações Unidas (ONU), que declara a escravidão como maior crime da humanidade, tem uma "força muito grande" no sentido de reconhecimento do crime cometido contra uma parcela significativa da população brasileira.A partir do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra no Brasil ultrapassa 112,7 milhões — cerca de 56% do total de brasileiros. Dessa forma, reflete uma "postura ideológica do Brasil" diante dos impactos históricos da escravidão e reforça a necessidade de avançar em políticas de reparação.Ainda que o reconhecimento desse passado seja essencial para orientar ações no presente, Santos avalia que há uma dívida histórica global com o continente africano e a população negra, defendendo que os países devem "direcionar seus esforços e apoios ao Sul Global", onde se concentra grande parte dessa população e onde os efeitos da exploração histórica ainda são mais visíveis, o que seria mais de 1 bilhão de pessoas negras.Embora tenha ficado de fora do grupo de países que patrocinaram a resolução, o Brasil entrou como copatrocinador durante a sessão na ONU. A delegação brasileira pretendia colaborar na edição do texto condenando a escravidão, mas ficou de fora. O país sul-americano foi o principal destino do tráfico transatlântico, tendo cerca de 5 milhões de pessoas escravizadas entre o século 16 a 19.Uma das críticas dos três países que rejeitaram o texto — Estados Unidos, Israel e Argentina — foi que se trata de um material "altamente problemático", acusando o material de criar uma "competição" entre crimes. Argumentos semelhantes foram apresentados pela União Europeia, que se absteve da votação.Ao mencionar o Holocausto da Alemanha nazista, o secretário questiona a relativização desse processo e defende que a violência contra os povos africanos seja reconhecida com a mesma centralidade histórica. "Nós consideramos o Holocausto um grande crime contra a humanidade, e foram 6 milhões de judeus."Em sua análise, essa herança também explica desigualdades persistentes no Brasil. "Se for ver a cor da miséria em nosso país, é negra", disse, ao argumentar que o desenvolvimento econômico brasileiro foi fortemente sustentado pela exploração da mão de obra escravizada.Santos afirma ainda que reconhecer os danos causados pela escravidão deve vir acompanhado de medidas concretas. Para ele, é necessário "promover reparações direcionadas à população negra para que ela possa se desenvolver plenamente na sociedade brasileira".Entretanto, há resistência internacional em avançar nesse debate, o que Santos atribui a fatores ideológicos."Acredito que tenha muito recorte ideológico daqueles que governam esses países — EUA com [Donald] Trump, Argentina com [Javier] Milei e Israel com [Benjamin] Netanyahu —, que são governos de extrema-direita. Não têm esse olhar de solidariedade para aquelas populações mais vulneráveis e, inclusive, a origem histórica dessa vulnerabilidade que é a escravidão."Projetos da SEDHIRSantos pontua que é a educação o maior instrumento de combate ao racismo, dando destaque a projetos da secretaria para conscientizar e difundir conhecimento sobre o tema. Em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, a SEDHIR fez uma campanha para o feriado de Carnaval de conscientização a discriminação racial chamada "Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais". A campanha visou conscientizar a população sobre a prevenção e o combate a práticas racistas, além de incentivar denúncias de casos de injúria racial e violência.Segundo o secretário, essa atuação está inserida em uma estratégia mais ampla de políticas públicas voltadas à educação. "O principal instrumento de combate ao racismo é a partir do conhecimento", afirmou, destacando iniciativas desenvolvidas no município do Rio de Janeiro em parceria com a área de relações étnico-raciais.Ele explica que, com base na Lei nº 10.639/2003, as escolas da rede municipal trabalham o ensino da história e da cultura afro-brasileira, ressaltando a presença e a importância da população negra na formação do país.Santos acrescenta que, além da educação, a secretaria também atua em outras frentes, como a saúde da população negra. De acordo com ele, o racismo estrutural ainda impõe barreiras de acesso a serviços básicos, o que exige políticas específicas. Nesse sentido, a SEDHIR desenvolve ações em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, voltadas às particularidades e necessidades dessa parcela da população.Tensões sobre memória histórica e reparaçõesO presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, apontou à Sputnik Brasil que a decisão de países como Estados Unidos, Israel e Argentina reflete interesses políticos e resistência em revisitar o passado. "Globalmente, não podemos esquecer fatos históricos que tiveram consequências profundas, mas há países que preferem ignorar isso por interesses próprios", disse.O dirigente também criticou a permanência de bens africanos em museus europeus, relacaionando a resistência à devolução ao impacto econômico dessas peças.Apesar das divergências, o dirigente avaliou a resolução como um marco e defendeu que a medida avance para ações concretas de reparação. "Ao decretar que é o pior crime da humanidade, os países que aprovaram também devem tomar medidas reparatórias para que os descendentes desse crime possam ter melhor qualidade de vida e proteção internacional."Já a deputada estadual do Rio de Janeiro, Dani Monteiro (PSOL), classificou como "chocante" a posição de países que se abstiveram ou votaram contra a proposta e reforçou a importância do reconhecimento histórico.
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'Se não é o maior crime, qual foi?': ex-ministro critica EUA e aliados por não condenarem escravidão
17:45 27.03.2026 (atualizado: 19:28 27.03.2026) Especiais
Em entrevista para a Sputnik Brasil, Edson Santos afirma que reconhecimento do passado exige ações concretas e destaca impacto da escravidão no Brasil.
À
Sputnik Brasil,
Edson Santos, ex-ministro da Igualdade Racial no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e atual secretário da Secretaria Especial de Direitos Humanos e Igualdade Racial (SEDHIR), disse que a
moção da Organização das Nações Unidas (ONU), que declara a escravidão como maior crime da humanidade, tem uma "força muito grande" no sentido de reconhecimento do crime cometido contra uma parcela significativa da população brasileira.
A partir do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população negra no Brasil ultrapassa 112,7 milhões — cerca de 56% do total de brasileiros. Dessa forma, reflete uma "postura ideológica do Brasil" diante dos impactos históricos da escravidão e reforça a necessidade de avançar em políticas de reparação.
Ainda que o reconhecimento desse passado seja essencial para orientar ações no presente, Santos avalia que há uma dívida histórica global com o continente africano e a população negra, defendendo que os países devem "direcionar seus esforços e apoios ao Sul Global", onde se concentra grande parte dessa população e onde os efeitos da exploração histórica ainda são mais visíveis, o que seria mais de 1 bilhão de pessoas negras.
"Vieram para a América 12 milhões e meio de escravizados. Então, se isso não é o maior crime cometido contra a humanidade, eu quero que eles me digam o que foi."
Embora tenha ficado de fora do grupo de
países que patrocinaram a resolução, o Brasil entrou como copatrocinador durante a sessão na ONU. A delegação brasileira pretendia colaborar na edição do texto condenando a escravidão, mas ficou de fora. O país sul-americano foi o
principal destino do tráfico transatlântico, tendo cerca de 5 milhões de pessoas escravizadas entre o século 16 a 19.
Uma das críticas dos
três países que rejeitaram o texto — Estados Unidos, Israel e Argentina — foi que se trata de um material "altamente problemático", acusando o material de criar uma
"competição" entre crimes. Argumentos semelhantes foram apresentados pela
União Europeia, que se absteve da votação.
Ao mencionar o Holocausto da Alemanha nazista, o secretário questiona a relativização desse processo e defende que a violência contra os povos africanos seja reconhecida com a mesma centralidade histórica. "Nós consideramos o Holocausto um grande crime contra a humanidade, e foram 6 milhões de judeus."
"Então, de onde vem essa visão de contestar algo que é patente, que a história registra de maneira muito clara?"
Em sua análise, essa herança também explica desigualdades persistentes no Brasil.
"Se for ver a cor da miséria em nosso país, é negra", disse, ao argumentar que o desenvolvimento econômico brasileiro foi fortemente sustentado pela
exploração da mão de obra escravizada.
Santos afirma ainda que reconhecer os danos causados pela escravidão deve vir acompanhado de medidas concretas. Para ele, é necessário "promover reparações direcionadas à população negra para que ela possa se desenvolver plenamente na sociedade brasileira".
Entretanto, há resistência internacional em avançar nesse debate, o que Santos atribui a fatores ideológicos.
"Acredito que tenha muito recorte ideológico daqueles que governam esses países — EUA com [Donald] Trump, Argentina com [Javier] Milei e Israel com [Benjamin] Netanyahu —, que são governos de extrema-direita. Não têm esse olhar de solidariedade para aquelas populações mais vulneráveis e, inclusive, a origem histórica dessa vulnerabilidade que é a escravidão."
Santos pontua que é a educação o maior instrumento de combate ao racismo, dando destaque a projetos da secretaria para conscientizar e difundir conhecimento sobre o tema. Em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, a SEDHIR fez uma campanha para o feriado de Carnaval de conscientização a discriminação racial chamada "Sem Racismo o Carnaval Brilha Mais". A campanha visou conscientizar a população sobre a prevenção e o combate a práticas racistas, além de incentivar denúncias de casos de injúria racial e violência.
Segundo o secretário, essa atuação está inserida em uma estratégia mais ampla de políticas públicas voltadas à educação. "O principal instrumento de combate ao racismo é a partir do conhecimento", afirmou, destacando iniciativas desenvolvidas no município do Rio de Janeiro em parceria com a área de relações étnico-raciais.
Ele explica que, com base na Lei nº 10.639/2003, as escolas da rede municipal trabalham o ensino da história e da cultura afro-brasileira, ressaltando a presença e a importância da população negra na formação do país.
Santos acrescenta que, além da educação, a secretaria também atua em outras frentes, como a saúde da população negra. De acordo com ele, o racismo estrutural ainda impõe barreiras de acesso a serviços básicos, o que exige políticas específicas. Nesse sentido, a SEDHIR desenvolve ações em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, voltadas às particularidades e necessidades dessa parcela da população.
Tensões sobre memória histórica e reparações
O presidente da Fundação Cultural Palmares, João Jorge Rodrigues, apontou à Sputnik Brasil que a decisão de países como Estados Unidos, Israel e Argentina reflete interesses políticos e resistência em revisitar o passado. "Globalmente, não podemos esquecer fatos históricos que tiveram consequências profundas, mas há países que preferem ignorar isso por interesses próprios", disse.
O dirigente também criticou a permanência de
bens africanos em museus europeus, relacaionando a resistência à devolução ao impacto econômico dessas peças.
"O anacrônico é o roubo. Esses bens precisam ser devolvidos para que os povos de origem possam se beneficiar, mas muitos países resistem porque sabem do impacto que isso teria no turismo", declarou.
Apesar das divergências, o dirigente avaliou a resolução como um marco e defendeu que a medida avance para ações concretas de reparação. "Ao decretar que é o pior crime da humanidade, os países que aprovaram também devem tomar medidas reparatórias para que os descendentes desse crime possam ter melhor qualidade de vida e proteção internacional."
Já a deputada estadual do Rio de Janeiro, Dani Monteiro (PSOL), classificou como "chocante" a posição de países que se abstiveram ou votaram contra a proposta e reforçou a importância do reconhecimento histórico.
"É importante reparar a história, é importante ter memória para que esses erros não sejam reproduzidos. E, acima de tudo, entender o racismo, entender a escravidão africana como uma violação de direitos humanos plenos", finalizou.
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