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Master, Will Bank e Digimais: escândalos colocam em xeque credibilidade do sistema financeiro?

© Rovena Rosa/Agência BrasilAntiga fachada da sede do Banco Master no Itaim Bibi. São Paulo, 19 de novembro de 2025
Antiga fachada da sede do Banco Master no Itaim Bibi. São Paulo, 19 de novembro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 03.07.2026
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Em menos de um ano, três grandes escândalos envolvendo instituições financeiras colocaram sob pressão a credibilidade do sistema financeiro brasileiro. Entre eles, o Banco Master, apontado como a maior fraude bancária da história do país, com rombo estimado em R$ 40 bilhões e desdobramentos que levaram à liquidação de outras instituições.
Eram anos 1990 quando a então Máxima Corretora de Títulos e Valores Mobiliários se transformava em Banco Máximo ao obter a autorização legal para atuar como instituição financeira. Ao longo dos anos, expandiu sua atuação principalmente para produtos de crédito imobiliário até quase falir em 2016. Foi quando entrou em jogo Daniel Vorcaro, que adquiriu a instituição e promoveu uma verdadeira mudança operacional, com a unidade passando a se chamar Banco Master. Ao todo, foram investidos R$ 400 milhões na capitalização da entidade, que passava a oferecer também serviços como crédito consignado, seguros e crédito pessoal.
A expansão do grupo chegava ao ápice em fevereiro de 2024, quando foi adquirida a participação majoritária do banco digital Will Bank, fazendo a carteira de clientes saltar para mais de 10,5 milhões de pessoas no país. Em apenas cinco anos, os ativos do conglomerado saltaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões, um crescimento exponencial superior a 2.100%. Para isso, o Master apostava em uma política de captação agressiva, chegando a oferecer remuneração de até 140% do Certificado de Depósito Bancário (CDI) para investimentos, enquanto a média do mercado girava em torno de 98,6%. Na mesma época, uma inspeção do Banco Central revelou que o banco possuía apenas R$ 4 milhões em caixa.
Quando os problemas de liquidez começaram a vir a público, o Banco de Brasília (BRB) esteve perto de concluir a compra do Master. A operação, porém, foi barrada pelo Banco Central. O desfecho mergulhou o banco público do Distrito Federal em sua maior crise, com exposição que pode resultar em perdas de até R$ 8,8 bilhões em títulos adquiridos da instituição. Nesse período também era iniciada uma investigação da Polícia Federal (PF) que, para além dos negócios financeiros, revelava esquemas de corrupção conduzidos por Vorcaro que se alastraram em meio à classe política.
Em novembro de 2025, a Justiça decretou a falência do Banco Master e, no mês seguinte, sua liquidação extrajudicial. A situação também afetou fortemente o Will Bank, que teve a liquidação decretada em janeiro deste ano. Diante do colapso das duas instituições, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por ressarcir investidores com aplicações de até R$ 250 mil em instituições financeiras quebradas, foi acionado. Desde então, o fundo já desembolsou quase R$ 40 bilhões para indenizar mais de 915 mil credores ligados ao conglomerado.
Enquanto o setor ainda se recuperava dos efeitos do maior escândalo bancário da história, uma nova instituição financeira foi alvo da PF na última semana: desta vez o Banco Digimais, controlado pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Sob as acusações de atuar no mesmo modus operandi do Master, a instituição é suspeita de gestão fraudulenta e fraude bilionária, com a determinação de um bloqueio judicial de R$ 670 milhões.
O economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin lembra à Sputnik Brasil que o sistema financeiro nacional convive com uma enorme expansão e atualmente já contabiliza quase duas mil instituições financeiras, crescimento puxado por bancos digitais, em sua maioria fintechs (empresas que unem tecnologia e finanças para criar soluções inovadoras). "Isso representa uma desconcentração relativa do mercado bancário. Agora, sem dúvida nenhuma, esses últimos episódios envolvendo o Master, Will Bank e Digimais acabam gerando uma certa desconfiança com relação à solidez dessas instituições", diz.
Para o especialista, os episódios colocaram em dúvida a credibilidade das instituições como um todo e, principalmente, a capacidade de fiscalização do Banco Central. "Há um ruído, digamos assim, com relação a essa capacidade. Ainda não é muito explícito ou falado, porque o risco sistêmico representa um problema muito grave, e isso é tratado de maneira muito cautelosa pelas autoridades. Agora, é impressionante como as novas instituições foram capazes de captar volumes tão elevados diante de um patrimônio que eles exibiam um tanto quanto modesto", acrescenta.
O professor do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) André Nassif compartilha dessa avaliação. Segundo ele, o aspecto mais preocupante foi a demora do órgão regulador em agir diante das ofertas agressivas dessas instituições.
"O Master, afinal de contas, estava pagando aos investidores algo em torno de 140% do CDI, enquanto títulos convencionais costumam remunerar entre 90% e 98% do CDI, às vezes um pouco acima, mas nunca nesse patamar. É surpreendente que isso não tenha despertado atenção e que o Banco Central tenha levado tanto tempo para identificar e agir sobre a situação", afirma à Sputnik Brasil.
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Menos servidores, mais fiscalização

O economista destaca que o Banco Central enfrenta uma redução do quadro de servidores, o que, segundo ele, compromete a capacidade de fiscalização e o fortalecimento do aparato regulatório. Dados indicam que, em duas décadas, a autarquia perdeu cerca de 35% do efetivo devido à falta de concursos e a restrições orçamentárias, enquanto o volume de ativos do sistema financeiro triplicou no mesmo período. O desafio, acrescenta, é ainda maior diante da crescente complexidade tecnológica das entidades.
"Não basta apenas regular. É preciso compreender a engenharia dos sistemas de informação. O Banco Central precisa contar não só com auditores, contadores, economistas e advogados, mas também com engenheiros de sistemas. Talvez isso contribua para fortalecer esse aparato", afirma.
O Banco Central foi questionado pela Sputnik sobre a redução do quadro de servidores e ampliou as medidas de fiscalização após os escândalos, mas não se manifestou.

Por que crises como a do Master se repetem?

Questionado sobre como instituições como Master e Digimais conseguem crescer rapidamente, captar bilhões de reais e transmitir uma imagem de solidez mesmo diante de sinais de fragilidade, Nassif afirma que parte da resposta está em falhas regulatórias, mas ressalta que há um fator estrutural: a própria dinâmica do setor.
Segundo ele, períodos de estabilidade econômica tendem a estimular uma expansão acelerada do crédito, elevando os preços dos ativos acima de seus fundamentos. Quando a confiança se rompe, porém, a reversão costuma ser abrupta e pode desencadear crises de grandes proporções.
"O sistema financeiro, nas economias capitalistas, têm uma tendência intrínseca a atuar de forma alavancada. Em momentos de estabilidade, os agentes passam a acreditar que os preços dos ativos continuarão subindo e isso alimenta a formação de bolhas. Quando essas expectativas mudam, todos tentam vender ao mesmo tempo, provocando um colapso dos preços", explica.
O economista cita como exemplo a crise das hipotecas subprime nos Estados Unidos, em 2008, quando títulos considerados seguros perderam liquidez e desencadearam uma crise financeira global. Para ele, episódios como esse reforçam a necessidade de uma supervisão robusta.
Nassif recorre ainda às análises do economista pós-keynesiano Hyman Minsky, autor da hipótese da instabilidade financeira. "Há uma frase famosa dele: 'A estabilidade é desestabilizadora'. É justamente nos períodos de maior tranquilidade que são criadas as condições para futuras crises", afirma.
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Apesar dos episódios recentes, o professor avalia que o Brasil possui uma tradição regulatória sólida. Na sua avaliação, porém, o avanço das fintechs e da digitalização exige atualizar os mecanismos de fiscalização. "O Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários precisam reforçar a vigilância, mas também compreender melhor o funcionamento dessas novas instituições. Os mecanismos regulatórios tradicionais talvez já não sejam suficientes para acompanhar essa realidade digital. É preciso modernizar a supervisão para evitar que casos semelhantes voltem a ocorrer", explica.
O economista alerta também que os casos não devem ser generalizados nem servir para colocar sob suspeita todas as instituições financeiras, especialmente as fintechs. Segundo ele, o avanço dessas empresas trouxe ganhos relevantes ao ampliar a concorrência e pressionar os bancos tradicionais a investir em soluções tecnológicas em prol da inclusão financeira.
"Ou seja, no sentido de serem mais concessivos, de receberem depositantes de menor renda, por exemplo. Alguns já tinham essa tradição, mas certamente as fintechs ampliaram esse movimento. Esse é um caminho sem volta, justamente porque elas atendem a uma parcela muito expressiva da população brasileira que antes não tinha acesso ao sistema financeiro", conclui.
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